segunda-feira, fevereiro 27, 2012
domingo, janeiro 29, 2012
sexta-feira, outubro 28, 2011
quinta-feira, outubro 27, 2011
REVENDO A HISTÓRIA ACERCA DO GOLPE DE 1964
Itamar Flávio da Silveira*
“A democracia no Brasil não morreu em 1964 porque a direita deu um golpe. Morreu porque não havia quem a defendesse, de lado nenhum.” (Reinaldo Azevedo).
Todas as vezes que lemos algum texto que aborda nossa história recente, sempre deparamos com a crítica tenaz que se faz da ruptura institucional de 1964, comumente conhecida como Golpe Militar de 1964. Historiadores, sociólogos, entre outros teóricos, atribuem todas nossas mazelas sociais, políticas e econômicas a este evento que teria desviado o Brasil do caminho do desenvolvimento. No entanto, poucos são aqueles que param para refletir se a ação dos militares, do dia 31 de março de 1964, fora um golpe contra a democracia brasileira e seus valores ou se constituiu num contra golpe dado pelos militares naqueles que, em nome da democracia das instituições pretendiam criar as condições para implantar o regime socialista no Brasil.
Durante o curso de graduação em História fui aprendendo uma série de coisas sobre a História do Brasil e me convenci que o Golpe de 1964 fora um ato perpetrado e executado pelos militares com o intuito de destruir a organização sindical dos trabalhadores, destruir as organizações estudantis e imbecilizar a população brasileira, criando as condições políticas adequadas para entregar a pátria brasileira ao imperialismo à custa da miséria e do sofrimento do povo brasileiro. E por alguns anos mantive essas informações como norteadora daquilo que estudava e daquilo que ensinava para colegas e alunos que tive no ensino fundamental e médio. No entanto, um dia comecei a rever meus conceitos e fazer o meu acerto de contas com a história.
Na retomada das leituras sobre o golpe de 1964, e na reflexão sobre o significado daquilo que representava as forças que pegaram em armas para derrubar o regime autoritário, algumas coisas começaram a desencaixar daquele argumento tão harmônico e convincente que estávamos acostumados a ver nos livros de História.
Podemos dizer que os textos que abordam o Golpe militar de 31 de março de 1964 são sempre marcados por atores direta ou indiretamente envolvidos no processo. São sempre obras de militância política partidária de pessoas que viveram o conflito e que, em função das escolhas que fizeram, sofreram as consequencias da implantação do regime militar. Muitos daqueles que participaram da luta armada são tomados como fontes neutras de informação, quando o assunto é a História da ditadura no Brasil.
Nosso propósito, neste artigo, não é desmerecer o que foi produzido pelos autores esquerdistas, queremos apenas dizer que os mesmos apenas expressam a opinião de segmentos políticos que apostaram na implantação de um regime totalitário no Brasil e que, naquele momento, foram os perdedores.
UM PERÍODO POLTICA E IDEOLOGICAMENTE EFERVESCENTE
Não podemos esquecer que no momento em que ocorre o Golpe o Brasil estava vivendo um momento muito perigoso, que, indicava um futuro político turbulento. Ao retomarmos os acontecimentos daqueles dias, observarmos que o Brasil estava numa encruzilhada entre o autoritarismo de direita e totalitarismo de esquerda. Enquanto o primeiro estabeleceria uma ditadura política o segundo, como prova a história de dezenas de países, pretendia transformar o Brasil em uma grade Cuba.
Em 1949, na China, triunfara a revolução comunista liderada por Mao Tse-Tung dando início a uma obscurantista e sangrenta sociedade comunista; em 1959 ocorre a Revolução cubana que, liderada pelos irmãos Castro e Che Guevara, derruba o governo de Fulgencio Batista e instala um regime socialista que fuzila milhares de pessoas e condena a pequena ilha caribenha ao atraso, onde permanece até hoje como um grande museu de carros, construções e ideias. Os comunistas estavam se multiplicando no mundo todo e, inclusive, no Brasil.
O ambiente internacional aumentava a expectativa de que o mundo caminhava necessariamente para o socialismo, internamente muitos formadores de opinião _ jornalistas, políticos e intelectuais _ trabalhavam favoravelmente pela causa da revolução socialista. A situação estava se acirrando e o governo de João Goulart, ao invés de tomar medidas que mantivessem a ordem, trabalhava para jogar mais lenha na fogueira da subversão. Seu mandato durou apenas de setembro de 1961 a 31 de março de 1964. A queda não se explica por uma suposta sede de poder por parte das Forças Armadas, como muitos querem atribuir. Mas se deve a suas próprias escolhas.
Seu flerte com o comunismo já era conhecido. No momento em que ocorre a renúncia de Jânio Quadros João Goulart estava em visita a China comunista por quem não escondia sua simpatia, fato que desagradava a sociedade brasileira que, em sua maioria, era avessa ao comunismo.
Nas Forças Armadas, por motivações ideológicas de esquerda, ocorriam insubordinações quebrando a disciplina e hierarquia, sem que houvesse disposição, do Presidente da República, de aplicar punições exemplares. Crise econômica, descontrole das contas públicas e inflação em alta, contribuíam favoravelmente para a possibilidade do agravamento da situação política.
Em Brasília ocorre a rebelião de sargentos, que reivindicavam o direito de se candidatar a cargos eletivos. No Rio de Janeiro em um grande comício no dia 13 de março com mais de mais de duzentos mil pessoas, o presidente assinou decretos de grande impacto popular, como a nacionalização das refinarias de petróleo privadas e a desapropriação de terras, para a reforma agrária, situadas às margens de ferrovias e rodovias federais. Seis dias depois do comício do Rio foi realizada em São Paulo a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Os manifestantes conclamavam aos militares que salvassem o Brasil do perigo comunista, presente na figura do Presidente Goulart.
A gota que transbordou o copo ocorreu no dia 30 de março quando João Goulart deliberadamente manifestou seu apoio aos marinheiros no Rio de Janeiro. Chegara a hora de conter as ações do Presidente da República. O Alto Comando das Forças Armadas entendeu que a conivência com os atos de insubordinação chegara ao seu limite. Os militares agiam atendendo as reivindicações feitas pelas forças democráticas da sociedade. “A revolução de 1964 não foi o produto de uma campanha ou de uma ideologia política determinada. Foi a reação do povo brasileiro e de suas Forças Armadas contra a tentativa perpetrada por um conjunto comuno-anarquista que visava a levar o país ao caos e atrelá-lo ao grupo de países comandados pelo marxismo”, como afirmou Eugenio Gudin em artigo publicado na impressa em 07 de abril de 1975.
*Professor de História Econômica da Universidade Estadual de Maringá.
“A democracia no Brasil não morreu em 1964 porque a direita deu um golpe. Morreu porque não havia quem a defendesse, de lado nenhum.” (Reinaldo Azevedo).
Todas as vezes que lemos algum texto que aborda nossa história recente, sempre deparamos com a crítica tenaz que se faz da ruptura institucional de 1964, comumente conhecida como Golpe Militar de 1964. Historiadores, sociólogos, entre outros teóricos, atribuem todas nossas mazelas sociais, políticas e econômicas a este evento que teria desviado o Brasil do caminho do desenvolvimento. No entanto, poucos são aqueles que param para refletir se a ação dos militares, do dia 31 de março de 1964, fora um golpe contra a democracia brasileira e seus valores ou se constituiu num contra golpe dado pelos militares naqueles que, em nome da democracia das instituições pretendiam criar as condições para implantar o regime socialista no Brasil.
Durante o curso de graduação em História fui aprendendo uma série de coisas sobre a História do Brasil e me convenci que o Golpe de 1964 fora um ato perpetrado e executado pelos militares com o intuito de destruir a organização sindical dos trabalhadores, destruir as organizações estudantis e imbecilizar a população brasileira, criando as condições políticas adequadas para entregar a pátria brasileira ao imperialismo à custa da miséria e do sofrimento do povo brasileiro. E por alguns anos mantive essas informações como norteadora daquilo que estudava e daquilo que ensinava para colegas e alunos que tive no ensino fundamental e médio. No entanto, um dia comecei a rever meus conceitos e fazer o meu acerto de contas com a história.
Na retomada das leituras sobre o golpe de 1964, e na reflexão sobre o significado daquilo que representava as forças que pegaram em armas para derrubar o regime autoritário, algumas coisas começaram a desencaixar daquele argumento tão harmônico e convincente que estávamos acostumados a ver nos livros de História.
Podemos dizer que os textos que abordam o Golpe militar de 31 de março de 1964 são sempre marcados por atores direta ou indiretamente envolvidos no processo. São sempre obras de militância política partidária de pessoas que viveram o conflito e que, em função das escolhas que fizeram, sofreram as consequencias da implantação do regime militar. Muitos daqueles que participaram da luta armada são tomados como fontes neutras de informação, quando o assunto é a História da ditadura no Brasil.
Nosso propósito, neste artigo, não é desmerecer o que foi produzido pelos autores esquerdistas, queremos apenas dizer que os mesmos apenas expressam a opinião de segmentos políticos que apostaram na implantação de um regime totalitário no Brasil e que, naquele momento, foram os perdedores.
UM PERÍODO POLTICA E IDEOLOGICAMENTE EFERVESCENTE
Não podemos esquecer que no momento em que ocorre o Golpe o Brasil estava vivendo um momento muito perigoso, que, indicava um futuro político turbulento. Ao retomarmos os acontecimentos daqueles dias, observarmos que o Brasil estava numa encruzilhada entre o autoritarismo de direita e totalitarismo de esquerda. Enquanto o primeiro estabeleceria uma ditadura política o segundo, como prova a história de dezenas de países, pretendia transformar o Brasil em uma grade Cuba.
Em 1949, na China, triunfara a revolução comunista liderada por Mao Tse-Tung dando início a uma obscurantista e sangrenta sociedade comunista; em 1959 ocorre a Revolução cubana que, liderada pelos irmãos Castro e Che Guevara, derruba o governo de Fulgencio Batista e instala um regime socialista que fuzila milhares de pessoas e condena a pequena ilha caribenha ao atraso, onde permanece até hoje como um grande museu de carros, construções e ideias. Os comunistas estavam se multiplicando no mundo todo e, inclusive, no Brasil.
O ambiente internacional aumentava a expectativa de que o mundo caminhava necessariamente para o socialismo, internamente muitos formadores de opinião _ jornalistas, políticos e intelectuais _ trabalhavam favoravelmente pela causa da revolução socialista. A situação estava se acirrando e o governo de João Goulart, ao invés de tomar medidas que mantivessem a ordem, trabalhava para jogar mais lenha na fogueira da subversão. Seu mandato durou apenas de setembro de 1961 a 31 de março de 1964. A queda não se explica por uma suposta sede de poder por parte das Forças Armadas, como muitos querem atribuir. Mas se deve a suas próprias escolhas.
Seu flerte com o comunismo já era conhecido. No momento em que ocorre a renúncia de Jânio Quadros João Goulart estava em visita a China comunista por quem não escondia sua simpatia, fato que desagradava a sociedade brasileira que, em sua maioria, era avessa ao comunismo.
Nas Forças Armadas, por motivações ideológicas de esquerda, ocorriam insubordinações quebrando a disciplina e hierarquia, sem que houvesse disposição, do Presidente da República, de aplicar punições exemplares. Crise econômica, descontrole das contas públicas e inflação em alta, contribuíam favoravelmente para a possibilidade do agravamento da situação política.
Em Brasília ocorre a rebelião de sargentos, que reivindicavam o direito de se candidatar a cargos eletivos. No Rio de Janeiro em um grande comício no dia 13 de março com mais de mais de duzentos mil pessoas, o presidente assinou decretos de grande impacto popular, como a nacionalização das refinarias de petróleo privadas e a desapropriação de terras, para a reforma agrária, situadas às margens de ferrovias e rodovias federais. Seis dias depois do comício do Rio foi realizada em São Paulo a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Os manifestantes conclamavam aos militares que salvassem o Brasil do perigo comunista, presente na figura do Presidente Goulart.
A gota que transbordou o copo ocorreu no dia 30 de março quando João Goulart deliberadamente manifestou seu apoio aos marinheiros no Rio de Janeiro. Chegara a hora de conter as ações do Presidente da República. O Alto Comando das Forças Armadas entendeu que a conivência com os atos de insubordinação chegara ao seu limite. Os militares agiam atendendo as reivindicações feitas pelas forças democráticas da sociedade. “A revolução de 1964 não foi o produto de uma campanha ou de uma ideologia política determinada. Foi a reação do povo brasileiro e de suas Forças Armadas contra a tentativa perpetrada por um conjunto comuno-anarquista que visava a levar o país ao caos e atrelá-lo ao grupo de países comandados pelo marxismo”, como afirmou Eugenio Gudin em artigo publicado na impressa em 07 de abril de 1975.
*Professor de História Econômica da Universidade Estadual de Maringá.
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Revendo a História do Golpe de 1964
terça-feira, outubro 18, 2011
segunda-feira, outubro 17, 2011
A Questão do Ensaísmo na Historiografia Brasileira
Claudinei Magno Magre Mendes
RESUMO
Neste texto analisamos a questão do caráter ensaístico da historiografia brasileira. Esta característica marcou a produção historiográfica, basicamente, na primeira metade do século XX. O principal motivo de tratarmos esta questão reside no surgimento de uma nova tendência historiográfica relativa à colonização, denominada Escola do Rio, que crítica, dentre outros aspectos, o caráter ensaístico da historiografia brasileira. Considerando que a crítica expressa o modo como uma nova tendência rompe com a historiografia vigente, resolvemos examinar esta crítica para avaliarmos sua extensão. Nosso pressuposto é que, para se promover a superação de determinada historiografia, é necessário compreendê-la em sua historicidade, ou seja, entender as motivações que levaram historiadores a examinar a história de dada maneira. Evidentemente, a crítica constitui um momento desta superação. Mas, para uma superação radical é necessária a compreensão histórica da historiografia criticada e não apontar seus supostos equívocos, deficiências e falhas. Estes supostos equívocos, deficiências e falhas devem ser vistos como a forma que assume a historiografia em dado momento e não defeitos, sob pena de se promover uma ruptura que não vai, realmente, às raízes da questão.
PALAVRAS-CHAVE: Historiografia Brasileira; Ensaio; Colonização; Escola do Rio.
The question of the essays in brazilian historiography
ABSTRACT
In this paper we analyze the question of character essayistic of Brazilian historiography. This feature marks the historical production, primarily in the first half of the twentieth century. The main reason we deal with this issue is the emergence of a new trend of historiography on thesettlement, called River School, that criticism, among other things, the character essayistic of Brazilian historiography. Whereas the criticism expressed how a new trend breaks with the existing historiography, we decided to examine this critical to assess its extent. Our assumption is that to promote the overcoming of a certain history, it is necessary to understand it in its historicity, that is, understanding the motivations that led historians to examine the history of a given way. Of course, criticism is a moment of transcendence. But for a radical is necessary to overcome historical understanding of historiography and criticism does not point their supposed mistakes, shortcomings and failures. These supposed errors, deficiencies and failures should be viewed as the purest form historiography at one point and not defects, failing to promote a break that will not really matter to the roots.
KEY-WORDS: Brazilian Historiography; Essay; Colonization; Escola do Rio
INTRODUÇÃO
A questão do ensaismo na historiografia brasileira, especialmente a produzida entre os primórdios do século XX até, mais ou menos, a década de 60, constitui um tema importante não apenas para se compreender historicamente esta produção historiográfica como para a sua possível superação. Assinale-se que o caráter ensaístico desta historiografia é mais visível nos textos da primeira metade do século XX. Entretanto, ainda que não mantenham todas as características desta época, os da segunda metade mantêm, ainda, algumas características dos da primeira metade deste século. Este artigo vem a propósito da crítica que os historiadores da Escola do Rio fazem a historiografia vigente, entendendo que aquilo que chamam de caráter ensaístico constitui, se não uma deficiência sua, ao menos uma limitação. Seu objetivo é analisar este caráter ensaístico e examinar o conteúdo da crítica feita pela nova historiografia. A razão disto deriva de que, para nós, esta crítica constitui um caminho para se compreender as novas propostas historiográficas. Com efeito, o modo como se verifica a ruptura com a historiografia vigente, portanto, a crítica que lhe é feita, diz respeito – e muito - ao próprio modo como os novos historiadores se pensam e concebem a história.
Por Escola do Rio, na falta de outro nome, denominamos os historiadores que, a partir da crítica realizada por Ciro Cardoso a Caio Prado e Fernando Novais, desde a década de 70, pelo menos, pertencem a uma nova tendência dentro da historiografia brasileira relativa à colonização. De fato, após as observações feitas por Cardoso aos dois historiadores, nas décadas de 70 e 80, principalmente, apareceram, no decênio seguinte, seus primeiros frutos, particularmente com a publicação dos livros de João Fragoso (1998) e Manolo Florentino (1997), inicialmente teses de doutorado, a primeira orientada pela profa. Maria Yedda Linhares, e a segunda orientada pelo próprio Cardoso. Ainda nos anos 90, e, principalmente, na seguinte, foram publicados diversos livros, geralmente obras coletivas, onde se procurou colocar em prática as novas propostas teóricas e metodológicas para o estudo da época colonial.
É verdade que entre as primeiras críticas feitas por Cardoso e suas propostas de análise da colonização e mesmo os primeiros livros de Fragoso e Florentino e a nova produção historiográfica há diferenças significativas, nem sempre explicitadas. A distinção mais importante refere-se ao campo em que as análises são feitas. Cardoso, para contrapor-se àquilo que denominou de excessiva ênfase no comércio externo, propôs que fossem estudadas as estruturas internas das colônias, únicas capazes de explicar suas distintas trajetórias. Atualmente, a nova tendência ampliou o campo de estudo, valendo-se de dois conceitos que a caracterizam em particular, Império Português e Antigo Regime. Uma breve menção ao fato de a nova tendência historiográfica procurar superar Caio Prado e Cardoso encontra-se na introdução ao livro Na trama das redes. Tratando do livro O Antigo Regime nos trópicos, seus autores observam:
Na época, tal trabalho surgiu com a pretensão de contribuir para as pesquisas de ponta na área de conhecimento então chamada de história colonial brasileira. Na verdade, pretendia-se ultrapassar – sem negar a sua importância – o debate historiográfico que trata da dependência externa versus a excessiva ênfase no caráter único e singular da sociedade colonial-escravista. Para tanto, buscou-se entender a história da América lusa entre os séculos XVI e XVIII, tendo como pano de fundo a dinâmica imperial portuguesa (FRAGOSO e GOUVÊA, 2010, p. 13).
O primeiro conceito, Império português, constitui o novo contexto em que se inserem as novas pesquisas. Com isso, rompe-se com as duas propostas anteriores. Rompe-se, em primeiro lugar, com a historiografia que considerava as questões no interior da relação entre metrópole e colônia. Também ocorre uma ruptura com a proposta de, sem desconsiderar a relação entre metrópole e colônia, incidir a análise nas estruturas internas da colônia, como propôs Cardoso. Desse modo, o espaço imperial é o campo de estudo da nova historiografia brasileira. Importante destacar que não se trata apenas de uma ampliação do contexto da análise, mas de um novo modo de conceber a história. Como salientam os organizadores do livro O Antigo Regime nos trópicos, “(...) trata-se de propor uma nova leitura historiográfica que não se limite a interpretar o ‘Brasil-Colônia’ por meio de suas relações econômicas com a Europa do mercantilismo (...)” (FRAGOSO, BICALHO e GOUVÊA, 2001, p. 21).
Também no prefácio de Nas Rotas do Império, assinado pelos organizadores do livro, encontramos o que se pretende com a utilização do conceito de Império português. Segundo estes autores, este estudo viria em substituição à visão centrada na relação metrópole-colônia.
A utilização sistemática do conceito de império, em substituição a uma visão centrada unicamente na relação metrópole-colônia, pode ser considerada uma das principais transformações da historiografia brasileira nos últimos anos. Não se trata, é claro, do simples reconhecimento da existência de um império português, mas sim de sua incorporação efetiva como um dos mecanismos explicativos da realidade colonial.
O próprio conceito, porém, transformou-se. Longe de ser visto como um todo homogêneo comandado por uma poderosa metrópole, o Império português é hoje percebido como um conjunto heterogêneo de possessões ultramarinas, cuja relação com a metrópole variava não só conforme as conjunturas, mas também de acordo com os variados processos históricos que constituíram essas mesmas possessões.
Tais transformações obrigam o pesquisador a uma apreensão mais complexa do que foi esse “mundo português” (FRAGOSO, FLORENTINO, JUCÁ e CAMPOS, 2006, p. 9. Grifos nossos).
O segundo conceito utilizado pela nova tendência historiográfica, Antigo Regime, tem por objetivo destacar o fato de as relações sociais que se travavam no interior do Império português não eram diretamente econômicas. Antes, estas relações eram mediadas pela política.
Essas conexões comerciais eram, sem dúvida, atravessadas pela política. Os negócios e mercados imperiais eram submetidos às regras do Antigo Regime; leia-se, entre outras coisas, ao complexo sistema de doações e de mercês régias. A expansão e a conquista de novos territórios permitiram à coroa portuguesa atribuir ofícios e cargos civis e militares, conceder privilégios comerciais a indivíduos e grupos, dispor de novos rendimentos com base nos quais se distribuíam pensões. Tais concessões eram o desdobramento de uma cadeia de poder e de redes de hierarquia que se estendiam desde o reino, propiciando a expansão dos interesses metropolitanos, estabelecendo vínculos estratégicos com os colonos (FRAGOSO, BICALHO e GOUVÊA, 2001, p. 23).
Na introdução do livro Na trama das redes, encontramos uma explicitação maior do uso deste conceito: “Desde 2001, a importância de uma dinâmica imperial – resultado da constante interação entre todas as áreas que compunham o império português no período – na formação da sociedade colonial da América portuguesa tem sido enfatizada” (FRAGOSO e GOUVÊA, 2010, p. 15).
Além disso, uma das críticas que os novos historiadores fazem à historiografia então vigente, corporificada em Caio Prado e Fernando Novais, é quanto ao que denominam de caráter ensaístico. Na entrevista de abertura do livro A economia colonial brasileira (séculos XVI-XIX), por exemplo, seus autores afirmam que as pesquisas de base, que se verificaram após a disseminação dos cursos de pós-graduação, iniciada na década de 70, fato que teria levado à efetiva profissionalização dos historiadores, tenderam “(...) a romper com a tradição ensaística da historiografia nacional” (FRAGOSO, FLORENTINO E FARIA, 1998, p. 2). Também na introdução de Na trama das redes, seus organizadores observam que o atual debate em torno do Brasil colonial, “(...) ao contrário de outros no passado, não possui tão somente um caráter ensaísta” (FRAGOSO e GOUVÊA, 2010, p. 17).
Em contraposição ao caráter ensaístico da historiografia brasileira, os novos historiadores assinalam que praticam uma história baseada em uma farta documentação, recolhida em suas pesquisas feitas em arquivos no Brasil e no exterior. Há mesmo, nos textos dos historiadores da Escola do Rio, uma insistência em afirmar que suas interpretações encontram-se respaldadas em uma longa e minuciosa investigação arquivística, documental. Por se tratar de pesquisas fundadas em farta documentação, ela não possuiria caráter generalizante, uma das características, assinaladas por estes novos historiadores, da historiografia praticada até, mais ou menos, a década de 60. Na introdução já mencionada de Na trama das redes, na sequência da passagem acima citada, encontramos a seguinte afirmação: “A profissionalização do ofício de historiador fez com que os argumentos e as teses interpretativas estejam mais fundamentados em sólidas pesquisas, empreendidas em diversos arquivos e por meio de diferentes fontes. Além disso, há tempos o historiador dispõe de uma miríade de técnicas e métodos de pesquisa” (FRAGOSO e GOUVÊA, 2010, p. 17).
É verdade que os novos historiadores não se preocuparam em definir seu entendimento de ensaio ou caráter ensaístico da historiografia brasileira. Todavia, por oposição, levando-se em conta a caracterização que fazem da sua prática historiográfica, isto é, os aspectos que definiriam ou caracterizariam a nova historiografia, é possível alcançar uma definição aproximada do que entendem por ensaio ou caráter ensaístico.
A primeira característica, já tratada anteriormente, é o fato de a nova prática historiográfica basear-se em uma ampla base documental, fato que a historiografia até então vigente não fazia. Segundo os novos historiadores, a partir de uma documentação limitada, muitas vezes sem pesquisa em arquivos, no Brasil e no exterior, se fazia ilações generalizantes. A nova historiografia, além de uma pesquisa documental vasta, justamente por se preocupar em fundar-se em documentos, extrai conclusões locais, evitando lhes dar um caráter nacional. Assim, à visão generalizante e nacional, ela contrapõe a concepção que possui um valor local.
A segunda característica, também tratada anteriormente, diz respeito ao campo de estudo. A historiografia vigente considerava seu objeto de análise no interior da relação metrópole-colônia, ao passo que a nova historiografia considera-o no interior do Império português. Mercadorias e homens circularam por todo Império e, por conseguinte, seria impossível compreender o Brasil-colônia no estreito vínculo dele com a metrópole.
Consideremos, pois, o caráter ensaístico da historiografia brasileira.
O ENSAISMO NA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
Desde as primeiras décadas do século XX e até, pelo menos, a década de 60, de um modo geral, os estudos sobre a época colonial tinham entre suas principais características não limitar a análise a este período histórico. Antes, caracterizam-se por serem estudos que buscam compreender a história do Brasil em seu conjunto. Mais do que isto, eram interpretações cujo objetivo maior era explicar o Brasil da época dos seus autores. Em suma, entendiam que o presente era explicado pelo passado.
Por conseguinte, de acordo com estes autores, era preciso fazer a análise da época colonial para se compreender o Brasil da sua época. Alguns historiadores consideravam mesmo que era necessário ir além, abarcando a própria história de Portugal. Para estes, para se entender o Brasil era preciso estudar as instituições portuguesas que haviam sido transplantadas para o solo brasileiro. Todavia, independentemente disso, todos os historiadores concordavam que era o modo como havíamos nos constituído enquanto colônia que explicava nosso presente.
É verdade que cada um desses historiadores tinha um entendimento particular de colônia e de colonização, interpretando o período colonial de determinada maneira. Mas, para todos eles, encontra-se neste período a chave para explicar as vicissitudes do Brasil contemporâneo. Não é casual, portanto, que seus livros tenham, geralmente, no título, algo que indicasse isto, como Formação, Raízes, etc. É o caso de Formação do Brasil contemporâneo (1942), de Caio Prado Júnior, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), e Formação econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado (1920-2004). Antes dessas obras, em 1911, Oliveira Lima (1867-1928) já havia publicado Formação histórica da nacionalidade brasileira. Nelson Werneck Sodré (1911-1999), por sua vez, publicou, em 1944, Formação da sociedade brasileira e, em 1962, Formação histórica do Brasil.
Quando estes vocábulos não aparecem no título, encontram-se, ao menos, no subtítulo. Assim, temos obras como: Casa-grande & senzala. Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal (1933), de Gilberto Freyre (1907-1987) e Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro (1958), de Raymundo Faoro (1925-2003).
Mesmo quando não se encontram no título ou subtítulo do livro, estes vocábulos aparecem nos títulos dos capítulos. Como exemplo, podemos citar Populações Meridionais do Brasil (1920), de Oliveira Vianna (1883-1951).
Mas, ainda que estes vocábulos não apareçam em nenhum destes lugares, o pressuposto dos autores é que a explicação para o Brasil no presente residiria no seu passado colonial. Dentre essas obras, podemos citar História econômica do Brasil (1937), de Roberto Simonsen (1889-1948).
Além desta característica, havia outra que, de um modo geral, singularizava estes livros: é que menos do que histórias, eram ensaios, na medida em que pretendiam assinalar as características peculiares da história do Brasil e suas tendências com relação ao futuro. Consideremos, pois, as características do ensaio, contrapondo-o aos livros de história, praticado pela historiografia brasileira.
DISTINÇÃO ENTRE ENSAIO E HISTÓRIA
Entre o ensaio e o livro de história existem, com efeito, diferenças fundamentais, ainda que ambos tenham por objeto o processo histórico. O ensaio pretende explicar a história em seu conjunto, assinalando suas características principais, sem se deter em seus aspectos particulares ou nos seus diferentes momentos. No caso dos ensaios relativos ao processo histórico brasileiro, o pressuposto é que o passado colonial constitui sua chave explicativa. É verdade que este passado é concebido de diferentes maneiras pelos autores, fato que conduz cada um interpretar a história do Brasil de modo distinto. Mas, independentemente disso, para seus autores, o presente se explicaria pelo passado - a época colonial explicaria o Brasil contemporâneo. Em Formação, Caio Prado afirma que a “(...) interpretação do Brasil de hoje (...)” era o que realmente interessava (PRADO JR., 1942, p. 9).
Muitas vezes, no entanto, o ensaio abarca não apenas o passado e o presente, mas o próprio futuro. Nesses casos, com base na linha de desenvolvimento do passado e do presente, seus autores procuram apontar as tendências da história com relação ao futuro.
Ao contrário do ensaio, o livro de história propriamente dito pretende narrar ou descrever um determinado processo histórico verificado no passado. É verdade que, em alguns destes livros, a análise pode chegar até o presente. No entanto, a história é apresentada de maneira cronológica, acompanhando-se, passo a passo, o processo histórico. Somente ao final do livro é que se tem uma visão abrangente da história.
No ensaio, por seu turno, por meio de um golpe de vista, procura-se assinalar as características gerais da história de determinado país, oferecendo ao leitor uma visão de conjunto dela. Para tanto, o ensaio está organizado em torno de uma tese que seu autor busca demonstrar e que, geralmente, ele a anuncia logo no início do seu texto.
O livro de história fica preso aos fatos na medida em que considera o processo histórico em sua cronologia. O ensaio, por sua vez, é mais livre. É verdade que ambos se baseiam em documentos e textos. Mas, o livro de história precisa citar os fatos e acontecimentos, mantendo-se rente a eles, ao passo que no ensaio estes são mencionados em poucas oportunidades, apenas para comprovar determinadas afirmações de caráter mais geral e teórico. Sob este aspecto, o ensaio comporta uma interpretação mais geral dos fatos, não se detendo nas particularidades e nos episódios singulares.
Deste modo, podemos afirmar que, enquanto o livro de história constitui uma interpretação do passado fundada nos fatos e acontecimentos, o ensaio busca descrever as tendências gerais da história. Como assinalam muitos dos autores de um ensaio, busca-se, principalmente, expor nele a linha mestra ou o fio condutor do processo histórico. Em suma, no ensaio se formula uma filosofia da história.
Assim, enquanto a história se preocupa, geralmente, mais com o passado, o ensaio, ainda que também se ocupe dele, tem os olhos postos no presente e no futuro. Na verdade, faz um enlace entre passado, presente e futuro. Este enlace constitui, inclusive, uma das principais características da ensaística da primeira metade do século XX. Em suma, são obras que abarcam o conjunto da história do Brasil, formulando uma interpretação geral dela.
Em seu livro Formação da sociedade brasileira, Sodré deixa patente o que pretendia ao escrever um ensaio: “Escrevendo esta Formação da Sociedade Brasileira não tive outra intenção que a de oferecer ao leitor comum, dentro das possibilidades de um levantamento tão sumário, uma visão de conjunto de como viveu nosso povo, até os dias que precederam a crise de 1929” (SODRÉ, 1944, p. 5).
O ensaio, nos moldes em que foi praticado em relação à história do Brasil, divide-se, geralmente, em três partes. A primeira parte compreende o estudo passado, isto é, da colonização do Brasil, momento em que são lançados os fundamentos da história do Brasil. Como salientamos, a maneira como se caracteriza a colonização constitui a base sobre a qual se ergue a interpretação da história do Brasil em seu conjunto. Em outras palavras, é a sua pedra de toque.
A segunda parte examina o presente, a época do autor, explicado, fundamentalmente, pelo passado colonial. Os problemas do presente e que deveriam ser solucionados são considerados heranças do passado, isto é, apesar das mudanças verificadas ao longo da história, os problemas criados no passado ainda persistiriam.
Por fim, a terceira parte trata do futuro, que se desenha a partir da solução dos problemas do presente. Muitas vezes, é verdade, esta parte se encontra subentendida. É o caso de Formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prado. Pelo título, percebe-se que seu objetivo era expor como o Brasil contemporâneo, ou seja, o Brasil da sua época, havia se formado ou constituído. Em função disso, o autor estudou a colonização e o que ela produziu ao longo de três séculos.
Assinalou, em seguida, que, durante o período compreendido entre a Independência e a data da publicação do livro, o Brasil havia se modificado. Em virtude disso, assim definiu o Brasil contemporâneo: “O Brasil contemporâneo se define assim: o passado colonial que se balanceia e encerra com o século XVIII, mais as transformações que se sucederam no decorrer do centênio anterior a este e no atual” (PRADO JR., 1942, p. 6). Além disso, advertiu o autor que se tratava de um processo não concluído. O futuro era, por conseguinte, a conclusão desse processo: “Mas este novo processo histórico se dilata, se arrasta até hoje. E ainda não chegou a seu termo” (PRADO JR., 1942, p. 6).
Acreditamos que um dos autores mais expressivos para se entender o caráter ensaístico da produção historiográfica brasileira seja Caio Prado, motivo pelo qual examinaremos, de maneira comparativa, duas das suas principais obras, Evolução política do Brasil e Formação do Brasil contemporâneo.
A QUESTÃO DO ENSAIO EM CAIO PRADO JR.
Em 1942, Caio Prado Júnior publicou Formação do Brasil contemporâneo, considerado por muitos historiadores e estudiosos seu livro mais importante. Nele expôs, pela primeira vez, com todos os seus elementos, a interpretação da história do Brasil que o consagrou e que nunca alterou ou abandonou em seus fundamentos. Antes, reafirmou-a nos livros e textos seguintes, fazendo da mesma a perspectiva com que examinou o processo histórico brasileiro em seus diferentes momentos.
Ainda que seja considerado um livro dedicado à época colonial, Caio Prado não se restringiu a ela. É verdade que, em sua quase totalidade, o livro diz respeito ao período colonial. Não é por casualidade que tenha por subtítulo “Colônia”. Mas, apesar disto, ele não estava interessado direta e unicamente na época colonial. Analisou-a tendo por pressuposto que ela constituía a base da formação do Brasil contemporâneo. Isto significa que entendia o período colonial como a chave para se compreender o Brasil da sua época. Em decorrência disso, ainda que em traços bastante rápidos, formulou uma espécie de teoria da história do Brasil, isto é, elaborou uma interpretação do conjunto do processo histórico brasileiro, que abrangia desde os inícios da colonização até a época contemporânea. Esta teoria encontra-se expressa, como veremos posteriormente em maiores detalhes, no postulado de que a história do Brasil possuía uma linha mestra – portanto, que a explicava - que se configurava na transição de uma economia colonial a uma economia nacional.
A historiografia brasileira não levou em conta este aspecto de Formação. Prendeu-se apenas à formulação de Caio Prado acerca da colonização, fazendo dele uma espécie de historiador da época colonial. Com isso, a historiografia isolou esta formulação, desvinculando-a do fato de que ela faz parte de uma questão maior, que é a própria interpretação da história do Brasil em seu conjunto. Nada mais incorreto do que transformar Caio Prado em uma espécie de historiador da colonização. A rigor, seu entendimento de colonização somente ganha significado se considerado como parte da sua interpretação da história do Brasil em seu conjunto, na medida mesmo em que esta é uma espécie de desdobramento e conseqüência desse entendimento.
Exatamente por conter uma teoria da história do Brasil, o livro Formação deve ser considerado um ensaio e não um livro de história. É verdade que muitos estudiosos, baseando-se inclusive no próprio autor, caracterizaram Formação como um livro de história, ao passo que Evolução política do Brasil, obra de 1933, é considerada um ensaio. O próprio autor dá ensejo a essa caracterização ao definir, no prefácio de Evolução, a obra como um “simples ensaio”, entendendo por isto uma “síntese da evolução política do Brasil”. Para elaborar esta síntese, como indicou Caio Prado, escolheu, dentre os inúmeros fatos que comporiam a história do Brasil, a resultante média deles, “a linha mestre em torno de que se agrupa[ria]m estes fatos”. Alertou, inclusive, para os inconvenientes desse procedimento, destacando que eles não existiriam caso “se tratasse de uma história e não de uma síntese” (PRADO JR., 1933, p. 7). Assim, Caio Prado caracterizou Evolução como uma síntese, na qual procurou apresentar apenas os elementos essenciais que permitiriam ao leitor compreender o processo histórico brasileiro, desde a colonização até a proclamação da República. A nosso ver, no entanto, Evolução seria antes interpretação da história do Brasil dada em seus traços mais gerais, uma espécie de síntese da história do Brasil do que propriamente um ensaio.
Uma comparação entre Evolução e Formação deixa isto claro. Em Evolução, Caio Prado analisa o processo histórico. Divide, por exemplo, a época colonial em duas fases. Na primeira, que vai dos primórdios da colonização até a segunda metade do século XVII, em que entre os interesses coloniais e metropolitanos havia uma concordância e os grandes proprietários de terra dominavam econômica e politicamente. A partir de então, verifica-se uma diferenciação de interesses, com a ascensão dos comerciantes, que se tornam a classe dominante tanto econômica quanto politicamente. Em Formação, ainda que seja um livro dedicado inteiramente à época colonial, ao contrário de Evolução, cuja primeira edição vai até a proclamação da República, a economia e sociedade são analisadas em seus aspectos gerais, sem considerar o processo histórico em suas particularidades. Aliás, como destaca o autor, ele centra sua análise no período compreendido entre finais do século XVIII e início do XIX. Trata-se, do seu ponto de vista, de um momento privilegiado, pois, a um só tempo, permite olhar para o passado e ver o que foi a colonização, de um lado, e, de outro, permite olhar para o processo que tem início naquele momento e que ainda se desenrolaria à época da publicação deste livro.
Consideremos agora, pois, Formação, para entender as razões pelas quais entendemos tratar-se de um ensaio.
Para Caio Prado, a colonização se caracterizava por ser uma produção voltada para o mercado externo. Segundo ele, esta característica ainda predominava em sua época, estando na base dos problemas que os brasileiros então enfrentavam. Esses problemas eram, portanto, aqueles que derivavam da maneira como a colonização do Brasil havia se processado, cujos caracteres ainda estavam presentes na economia brasileira do século XX. De seu ponto de vista, a grande questão política era superar o caráter colonial da economia brasileira por meio do estabelecimento de uma economia nacional, processo que estaria em andamento: “Numa palavra, não completamos ainda hoje a nossa evolução da economia colonial para a nacional” (PRADO JR., 1942, p. 7). Ele próprio caracteriza este processo como “linha mestra” do processo histórico.
O estabelecimento da economia nacional constituía, portanto, uma tendência que vinha se desenvolvendo desde o início do século XIX, mas que somente em meados do XX se colocara como uma questão passível de solução. Estávamos, em sua opinião, à época da publicação de Formação, atravessando a última etapa da transição da economia colonial para a economia nacional, processo que exigia uma intervenção política para se completar. Desse modo, a economia nacional seria o futuro do Brasil.
Devemos, antes de tudo, atentar para um fato importante. Podemos supor que a forma como a colonização é compreendida determina uma explicação do presente. Entretanto, ainda que nestes ensaios a questão apareça desta maneira, é o oposto que, de fato, ocorre. Não é a interpretação do passado que condiciona o modo de conceber o presente. Antes, é o posicionamento político dos autores diante das questões da sua época, portanto, do presente, que os leva a conceber o passado, em nosso caso, a colonização, de determinada maneira. Desse modo, é a “solução” que os historiadores davam às questões do presente que os levava a considerar o passado de determinada maneira. Como bem observou o historiador francês François Guizot (2008, p. 56), o passado muda com o presente. Pretendia com isso assinalar que, de acordo com as questões do presente, o passado é encarado de determinada maneira. É o historiador, homem do seu tempo, com suas opções políticas, com sua visão de mundo, que, munido de questões colocadas por sua época, se volta para o passado e o analisa.
Duas constatações devem ser feitas. Primeiro: alterando-se as questões do presente, surgindo outras, o modo de compreender o passado também se altera. Segundo: cada autor, colocando-se diante das questões do seu tempo de uma maneira determinada, considera, necessariamente, o passado de um modo próprio, em consonância com seu posicionamento político. Daí deriva o fato de, em uma mesma época, verificarmos várias concepções distintas do passado colonial.
Entretanto, independentemente do modo como estes autores se posicionaram diante das questões de sua época e, por conseqüência, interpretaram a época colonial de determinada maneira, eles possuem algo que lhes é comum. É exatamente este ponto em comum que os leva a elaborarem seus livros na forma de ensaio. Caio Prado não foge à regra.
O ENSAIO COMO POSICIONAMENTO POLÍTICO
Os autores do século XX até os anos 60, mais ou menos, com ênfase nos da primeira metade dessa centúria, tinham em comum enfrentar uma questão fundamental da sua época: o socialismo como uma alternativa ao capitalismo e o marxismo como doutrina política. Posicionaram-se contrários a eles, ainda que muitos se colocassem na condição de socialistas, comunistas ou marxistas. Esta oposição foi feita de forma explícita ou implícita, de maneira direta ou indireta.
A oposição ao socialismo e ao marxismo foi feita por meio de textos cuja questão central era combatê-los. Sob este aspecto, o ensaio constituiu a forma adequada para alcançar este objetivo. Com efeito, diante da formulação que apontava o socialismo como o futuro da sociedade, isto é, como a forma de superação do capitalismo, os autores precisavam defender a tese de que a história do Brasil não caminhava em direção ao socialismo. Fizeram isso de diferentes maneiras. Mas, qualquer que fosse ela, os autores tinham que elaborar uma apreciação geral da história do Brasil - ou uma interpretação dela – que abarcasse passado, presente e futuro, com o objetivo de negar a tendência para o socialismo. Ou, ao menos, protelá-lo para um futuro distante, insistindo na necessidade de se atravessar algumas etapas intermediárias. Os teóricos do Partido Comunista e Caio Prado, por exemplo, representam muito bem esta tendência. Para o Partido, era necessária uma revolução democrático-burguesa, liberar o capitalismo dos entraves feudais ou semi-feudais, por meio de uma reforma agrária, para então, tendo o capitalismo se desenvolvido, lutar pelo socialismo. Para Caio Prado, a tarefa política da atualidade era lutar para estabelecer a economia nacional, completando a transformação que se desenrolava desde primórdios do século XIX.
O principal argumento desses autores eram as particularidades da história brasileira. Dito de outra maneira, eles afirmavam que as formulações que serviam para a Europa não eram adequadas ao Brasil justamente pelo fato deste possuir uma história que se diferenciava completamente da européia. De certa maneira, trata-se de argumento perfeitamente válido. Com efeito, a história de cada país tem suas particularidades, que a distingue dos demais. No entanto, ele apenas servia para justificar uma interpretação da história que, sob o pretexto de fundar-se nessas particularidades, introduz uma visão que se opõe frontalmente a qualquer mudança ou, no mais das vezes, fundamenta uma concepção reformista ou etapista da história. Neste caso, não se nega o diretamente socialismo, mas afirma-se que o mesmo era algo ao que se chegaria num futuro não muito próximo. Mas, antes, era preciso percorrer algumas etapas ou proceder algumas reformas na sociedade.
A forma ensaística da historiografia brasileira deriva, assim, de um posicionamento político por parte dos historiadores. Ela é, assim, a forma própria dessa posição política contrária ao socialismo e ao marxismo. É, sob este aspecto, a forma própria de expressar este posicionamento político. Consideremos o caso de Caio Prado para melhor ilustrar isto.
Caio Prado Jr. elaborou um ensaio justamente com o objetivo de oferecer uma interpretação da história brasileira que se contrapusesse à formulação de que o socialismo constituiria o futuro do país, ao menos o futuro imediato. Daí produzir uma interpretação da história do Brasil que postulava que o traço distintivo do processo histórico brasileiro era a constituição de uma economia nacional. Economia colonial/produção voltada para o mercado externo e economia nacional/produção voltada para o mercado interno eram os dois pólos entre os quais se moveria a história do Brasil. Como ele destacou, a transformação da economia colonial em economia nacional era o fio condutor ou a linha mestra da história do Brasil.
A conseqüência desta formulação era de que, nas condições existentes no Brasil, a proposta de socialismo era prematura. Caio Prado afirmou isto em algumas poucas oportunidades, é verdade, mas o suficiente para que se perceba que isto se encontrava no centro das suas formulações. É verdade, por outro lado, que, se este autor não afirmou isto aberta e explicitamente com freqüência, na prática o fez, ao indicar que a evolução histórica do Brasil, as transformações por que passava, o conduzia em direção ao estabelecimento de uma economia nacional. Para ele, a tarefa política dos brasileiros era lutar para que este processo se completasse.
Caio Prado explicitou em Diretrizes a essência da sua obra, ao afirmar:
Supor por exemplo que seja possível no Brasil e nas circunstâncias atuais um regime socialista com a entrega a órgãos estatais da responsabilidade pela direção e manejamento total das forças produtivas do país, é se não fantasia de visionário, certamente maneira disfarçada de entravar as reformas que desde já se impõe e que não precisam aguardar um socialismo ainda irrealizável (PRADO JR., 1954, p. 235-236).
Um pouco mais adiante: “Essas forças não são ainda ou não são sobretudo as do socialismo que começa apenas a esboçar-se entre nós e precisará aguardar ainda, para amadurecer, um largo processo das forças produtivas que não será possível sem a preliminar destruição do sistema colonial” (PRADO JR., 1954, p. 236). Como se pode observar, nos trechos acima encontramos duas questões anteriormente assinaladas. Primeiro, a oposição ao socialismo, considerando uma proposta prematura nas condições do Brasil. Segundo, esta oposição não é frontal, mas a posterga para o futuro. Antes, é preciso superar certas etapas para, então, lutar-se pelo socialismo.
Por fim, anteriormente assinalamos que o caráter ensaístico da historiografia brasileira aparece com mais intensidade na primeira metade do século XX. Com efeito, aos poucos, este caráter ensaístico perde força. Isto aparece claramente no livro Formação histórica do Brasil, de Sodré, do início da década de 60. Sodré acompanha, em linhas gerais, o processo histórico brasileiro, tratando dos seus temas maiores. No entanto, ele guarda uma característica dos ensaios propriamente. Pretende, indicando as particularidades da história brasileira, indicar que existiriam etapas a serem transpostas antes de se colocar a questão do socialismo (SODRÉ, 1967).
CONCLUSÃO
Ao longo do texto procuramos chamar a atenção para o fato de os historiadores brasileiros do século XX, até, mais ou menos, a década de 60, optaram pelo ensaio, de um modo geral, em função do objetivo político que tinham em mente. Sob este aspecto, tinham uma tese a defender.
O ensaio pressupõe uma tese, em torno da qual se elabora a interpretação da história do Brasil. Menos do que fazer uma interpretação da história do Brasil com base em documentos, os historiadores tinham uma tese a defender: de que a história do Brasil não caminhava na direção do socialismo ou que o socialismo não constituía uma alternativa válida para as condições do país. Era preciso demonstrar que nossa história possuía determinadas características que a afastavam do modelo proposto por aqueles que defendiam a solução socialista.
Iniciamos o texto indicando que ele havia sido motivado pela crítica feita pela Escola do Rio à historiografia brasileira. Chamamos a atenção, também, para o fato de que estava em questão a superação desta historiografia. Pretendem esta escola superar a historiografia vigente contrapondo-lhe estudos fundados em uma ampla e farta documentação, sem fazer generalizações e, principalmente, assinalando que, em função da organização da pós-graduação, verificou-se a profissionalização dos historiadores, com métodos e fundamentação teórica que superaria o “amadorismo” que até então dominaria na prática historiográfica. Os novos historiadores não afirmam explicitamente isto, mas o fazem implicitamente ao destacarem a profissionalização do historiador com a disseminação dos cursos de pós-graduação.
Esta crítica, em última análise, despolitiza a questão, trazendo o debate para o campo acadêmico. De nosso ponto de vista, no entanto, a superação da historiografia até então dominante somente pode ser feita em decorrência da compreensão do papel político que ela desempenhou ao longo do século XX.
Por fim, a lamentação de que os historiadores atuais são menos afeitos aos ensaios macrointerpretativos, preferindo-se as monografias técnicas, pontuais e específicas apenas revela uma incompreensão do papel político desempenhado pela historiografia brasileira de grande parte do século XX. Derrotado o socialismo, a historiografia brasileira não precisa manter seu caráter ensaístico.
REFERÊNCIAS
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RESUMO
Neste texto analisamos a questão do caráter ensaístico da historiografia brasileira. Esta característica marcou a produção historiográfica, basicamente, na primeira metade do século XX. O principal motivo de tratarmos esta questão reside no surgimento de uma nova tendência historiográfica relativa à colonização, denominada Escola do Rio, que crítica, dentre outros aspectos, o caráter ensaístico da historiografia brasileira. Considerando que a crítica expressa o modo como uma nova tendência rompe com a historiografia vigente, resolvemos examinar esta crítica para avaliarmos sua extensão. Nosso pressuposto é que, para se promover a superação de determinada historiografia, é necessário compreendê-la em sua historicidade, ou seja, entender as motivações que levaram historiadores a examinar a história de dada maneira. Evidentemente, a crítica constitui um momento desta superação. Mas, para uma superação radical é necessária a compreensão histórica da historiografia criticada e não apontar seus supostos equívocos, deficiências e falhas. Estes supostos equívocos, deficiências e falhas devem ser vistos como a forma que assume a historiografia em dado momento e não defeitos, sob pena de se promover uma ruptura que não vai, realmente, às raízes da questão.
PALAVRAS-CHAVE: Historiografia Brasileira; Ensaio; Colonização; Escola do Rio.
The question of the essays in brazilian historiography
ABSTRACT
In this paper we analyze the question of character essayistic of Brazilian historiography. This feature marks the historical production, primarily in the first half of the twentieth century. The main reason we deal with this issue is the emergence of a new trend of historiography on thesettlement, called River School, that criticism, among other things, the character essayistic of Brazilian historiography. Whereas the criticism expressed how a new trend breaks with the existing historiography, we decided to examine this critical to assess its extent. Our assumption is that to promote the overcoming of a certain history, it is necessary to understand it in its historicity, that is, understanding the motivations that led historians to examine the history of a given way. Of course, criticism is a moment of transcendence. But for a radical is necessary to overcome historical understanding of historiography and criticism does not point their supposed mistakes, shortcomings and failures. These supposed errors, deficiencies and failures should be viewed as the purest form historiography at one point and not defects, failing to promote a break that will not really matter to the roots.
KEY-WORDS: Brazilian Historiography; Essay; Colonization; Escola do Rio
INTRODUÇÃO
A questão do ensaismo na historiografia brasileira, especialmente a produzida entre os primórdios do século XX até, mais ou menos, a década de 60, constitui um tema importante não apenas para se compreender historicamente esta produção historiográfica como para a sua possível superação. Assinale-se que o caráter ensaístico desta historiografia é mais visível nos textos da primeira metade do século XX. Entretanto, ainda que não mantenham todas as características desta época, os da segunda metade mantêm, ainda, algumas características dos da primeira metade deste século. Este artigo vem a propósito da crítica que os historiadores da Escola do Rio fazem a historiografia vigente, entendendo que aquilo que chamam de caráter ensaístico constitui, se não uma deficiência sua, ao menos uma limitação. Seu objetivo é analisar este caráter ensaístico e examinar o conteúdo da crítica feita pela nova historiografia. A razão disto deriva de que, para nós, esta crítica constitui um caminho para se compreender as novas propostas historiográficas. Com efeito, o modo como se verifica a ruptura com a historiografia vigente, portanto, a crítica que lhe é feita, diz respeito – e muito - ao próprio modo como os novos historiadores se pensam e concebem a história.
Por Escola do Rio, na falta de outro nome, denominamos os historiadores que, a partir da crítica realizada por Ciro Cardoso a Caio Prado e Fernando Novais, desde a década de 70, pelo menos, pertencem a uma nova tendência dentro da historiografia brasileira relativa à colonização. De fato, após as observações feitas por Cardoso aos dois historiadores, nas décadas de 70 e 80, principalmente, apareceram, no decênio seguinte, seus primeiros frutos, particularmente com a publicação dos livros de João Fragoso (1998) e Manolo Florentino (1997), inicialmente teses de doutorado, a primeira orientada pela profa. Maria Yedda Linhares, e a segunda orientada pelo próprio Cardoso. Ainda nos anos 90, e, principalmente, na seguinte, foram publicados diversos livros, geralmente obras coletivas, onde se procurou colocar em prática as novas propostas teóricas e metodológicas para o estudo da época colonial.
É verdade que entre as primeiras críticas feitas por Cardoso e suas propostas de análise da colonização e mesmo os primeiros livros de Fragoso e Florentino e a nova produção historiográfica há diferenças significativas, nem sempre explicitadas. A distinção mais importante refere-se ao campo em que as análises são feitas. Cardoso, para contrapor-se àquilo que denominou de excessiva ênfase no comércio externo, propôs que fossem estudadas as estruturas internas das colônias, únicas capazes de explicar suas distintas trajetórias. Atualmente, a nova tendência ampliou o campo de estudo, valendo-se de dois conceitos que a caracterizam em particular, Império Português e Antigo Regime. Uma breve menção ao fato de a nova tendência historiográfica procurar superar Caio Prado e Cardoso encontra-se na introdução ao livro Na trama das redes. Tratando do livro O Antigo Regime nos trópicos, seus autores observam:
Na época, tal trabalho surgiu com a pretensão de contribuir para as pesquisas de ponta na área de conhecimento então chamada de história colonial brasileira. Na verdade, pretendia-se ultrapassar – sem negar a sua importância – o debate historiográfico que trata da dependência externa versus a excessiva ênfase no caráter único e singular da sociedade colonial-escravista. Para tanto, buscou-se entender a história da América lusa entre os séculos XVI e XVIII, tendo como pano de fundo a dinâmica imperial portuguesa (FRAGOSO e GOUVÊA, 2010, p. 13).
O primeiro conceito, Império português, constitui o novo contexto em que se inserem as novas pesquisas. Com isso, rompe-se com as duas propostas anteriores. Rompe-se, em primeiro lugar, com a historiografia que considerava as questões no interior da relação entre metrópole e colônia. Também ocorre uma ruptura com a proposta de, sem desconsiderar a relação entre metrópole e colônia, incidir a análise nas estruturas internas da colônia, como propôs Cardoso. Desse modo, o espaço imperial é o campo de estudo da nova historiografia brasileira. Importante destacar que não se trata apenas de uma ampliação do contexto da análise, mas de um novo modo de conceber a história. Como salientam os organizadores do livro O Antigo Regime nos trópicos, “(...) trata-se de propor uma nova leitura historiográfica que não se limite a interpretar o ‘Brasil-Colônia’ por meio de suas relações econômicas com a Europa do mercantilismo (...)” (FRAGOSO, BICALHO e GOUVÊA, 2001, p. 21).
Também no prefácio de Nas Rotas do Império, assinado pelos organizadores do livro, encontramos o que se pretende com a utilização do conceito de Império português. Segundo estes autores, este estudo viria em substituição à visão centrada na relação metrópole-colônia.
A utilização sistemática do conceito de império, em substituição a uma visão centrada unicamente na relação metrópole-colônia, pode ser considerada uma das principais transformações da historiografia brasileira nos últimos anos. Não se trata, é claro, do simples reconhecimento da existência de um império português, mas sim de sua incorporação efetiva como um dos mecanismos explicativos da realidade colonial.
O próprio conceito, porém, transformou-se. Longe de ser visto como um todo homogêneo comandado por uma poderosa metrópole, o Império português é hoje percebido como um conjunto heterogêneo de possessões ultramarinas, cuja relação com a metrópole variava não só conforme as conjunturas, mas também de acordo com os variados processos históricos que constituíram essas mesmas possessões.
Tais transformações obrigam o pesquisador a uma apreensão mais complexa do que foi esse “mundo português” (FRAGOSO, FLORENTINO, JUCÁ e CAMPOS, 2006, p. 9. Grifos nossos).
O segundo conceito utilizado pela nova tendência historiográfica, Antigo Regime, tem por objetivo destacar o fato de as relações sociais que se travavam no interior do Império português não eram diretamente econômicas. Antes, estas relações eram mediadas pela política.
Essas conexões comerciais eram, sem dúvida, atravessadas pela política. Os negócios e mercados imperiais eram submetidos às regras do Antigo Regime; leia-se, entre outras coisas, ao complexo sistema de doações e de mercês régias. A expansão e a conquista de novos territórios permitiram à coroa portuguesa atribuir ofícios e cargos civis e militares, conceder privilégios comerciais a indivíduos e grupos, dispor de novos rendimentos com base nos quais se distribuíam pensões. Tais concessões eram o desdobramento de uma cadeia de poder e de redes de hierarquia que se estendiam desde o reino, propiciando a expansão dos interesses metropolitanos, estabelecendo vínculos estratégicos com os colonos (FRAGOSO, BICALHO e GOUVÊA, 2001, p. 23).
Na introdução do livro Na trama das redes, encontramos uma explicitação maior do uso deste conceito: “Desde 2001, a importância de uma dinâmica imperial – resultado da constante interação entre todas as áreas que compunham o império português no período – na formação da sociedade colonial da América portuguesa tem sido enfatizada” (FRAGOSO e GOUVÊA, 2010, p. 15).
Além disso, uma das críticas que os novos historiadores fazem à historiografia então vigente, corporificada em Caio Prado e Fernando Novais, é quanto ao que denominam de caráter ensaístico. Na entrevista de abertura do livro A economia colonial brasileira (séculos XVI-XIX), por exemplo, seus autores afirmam que as pesquisas de base, que se verificaram após a disseminação dos cursos de pós-graduação, iniciada na década de 70, fato que teria levado à efetiva profissionalização dos historiadores, tenderam “(...) a romper com a tradição ensaística da historiografia nacional” (FRAGOSO, FLORENTINO E FARIA, 1998, p. 2). Também na introdução de Na trama das redes, seus organizadores observam que o atual debate em torno do Brasil colonial, “(...) ao contrário de outros no passado, não possui tão somente um caráter ensaísta” (FRAGOSO e GOUVÊA, 2010, p. 17).
Em contraposição ao caráter ensaístico da historiografia brasileira, os novos historiadores assinalam que praticam uma história baseada em uma farta documentação, recolhida em suas pesquisas feitas em arquivos no Brasil e no exterior. Há mesmo, nos textos dos historiadores da Escola do Rio, uma insistência em afirmar que suas interpretações encontram-se respaldadas em uma longa e minuciosa investigação arquivística, documental. Por se tratar de pesquisas fundadas em farta documentação, ela não possuiria caráter generalizante, uma das características, assinaladas por estes novos historiadores, da historiografia praticada até, mais ou menos, a década de 60. Na introdução já mencionada de Na trama das redes, na sequência da passagem acima citada, encontramos a seguinte afirmação: “A profissionalização do ofício de historiador fez com que os argumentos e as teses interpretativas estejam mais fundamentados em sólidas pesquisas, empreendidas em diversos arquivos e por meio de diferentes fontes. Além disso, há tempos o historiador dispõe de uma miríade de técnicas e métodos de pesquisa” (FRAGOSO e GOUVÊA, 2010, p. 17).
É verdade que os novos historiadores não se preocuparam em definir seu entendimento de ensaio ou caráter ensaístico da historiografia brasileira. Todavia, por oposição, levando-se em conta a caracterização que fazem da sua prática historiográfica, isto é, os aspectos que definiriam ou caracterizariam a nova historiografia, é possível alcançar uma definição aproximada do que entendem por ensaio ou caráter ensaístico.
A primeira característica, já tratada anteriormente, é o fato de a nova prática historiográfica basear-se em uma ampla base documental, fato que a historiografia até então vigente não fazia. Segundo os novos historiadores, a partir de uma documentação limitada, muitas vezes sem pesquisa em arquivos, no Brasil e no exterior, se fazia ilações generalizantes. A nova historiografia, além de uma pesquisa documental vasta, justamente por se preocupar em fundar-se em documentos, extrai conclusões locais, evitando lhes dar um caráter nacional. Assim, à visão generalizante e nacional, ela contrapõe a concepção que possui um valor local.
A segunda característica, também tratada anteriormente, diz respeito ao campo de estudo. A historiografia vigente considerava seu objeto de análise no interior da relação metrópole-colônia, ao passo que a nova historiografia considera-o no interior do Império português. Mercadorias e homens circularam por todo Império e, por conseguinte, seria impossível compreender o Brasil-colônia no estreito vínculo dele com a metrópole.
Consideremos, pois, o caráter ensaístico da historiografia brasileira.
O ENSAISMO NA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
Desde as primeiras décadas do século XX e até, pelo menos, a década de 60, de um modo geral, os estudos sobre a época colonial tinham entre suas principais características não limitar a análise a este período histórico. Antes, caracterizam-se por serem estudos que buscam compreender a história do Brasil em seu conjunto. Mais do que isto, eram interpretações cujo objetivo maior era explicar o Brasil da época dos seus autores. Em suma, entendiam que o presente era explicado pelo passado.
Por conseguinte, de acordo com estes autores, era preciso fazer a análise da época colonial para se compreender o Brasil da sua época. Alguns historiadores consideravam mesmo que era necessário ir além, abarcando a própria história de Portugal. Para estes, para se entender o Brasil era preciso estudar as instituições portuguesas que haviam sido transplantadas para o solo brasileiro. Todavia, independentemente disso, todos os historiadores concordavam que era o modo como havíamos nos constituído enquanto colônia que explicava nosso presente.
É verdade que cada um desses historiadores tinha um entendimento particular de colônia e de colonização, interpretando o período colonial de determinada maneira. Mas, para todos eles, encontra-se neste período a chave para explicar as vicissitudes do Brasil contemporâneo. Não é casual, portanto, que seus livros tenham, geralmente, no título, algo que indicasse isto, como Formação, Raízes, etc. É o caso de Formação do Brasil contemporâneo (1942), de Caio Prado Júnior, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), e Formação econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado (1920-2004). Antes dessas obras, em 1911, Oliveira Lima (1867-1928) já havia publicado Formação histórica da nacionalidade brasileira. Nelson Werneck Sodré (1911-1999), por sua vez, publicou, em 1944, Formação da sociedade brasileira e, em 1962, Formação histórica do Brasil.
Quando estes vocábulos não aparecem no título, encontram-se, ao menos, no subtítulo. Assim, temos obras como: Casa-grande & senzala. Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal (1933), de Gilberto Freyre (1907-1987) e Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro (1958), de Raymundo Faoro (1925-2003).
Mesmo quando não se encontram no título ou subtítulo do livro, estes vocábulos aparecem nos títulos dos capítulos. Como exemplo, podemos citar Populações Meridionais do Brasil (1920), de Oliveira Vianna (1883-1951).
Mas, ainda que estes vocábulos não apareçam em nenhum destes lugares, o pressuposto dos autores é que a explicação para o Brasil no presente residiria no seu passado colonial. Dentre essas obras, podemos citar História econômica do Brasil (1937), de Roberto Simonsen (1889-1948).
Além desta característica, havia outra que, de um modo geral, singularizava estes livros: é que menos do que histórias, eram ensaios, na medida em que pretendiam assinalar as características peculiares da história do Brasil e suas tendências com relação ao futuro. Consideremos, pois, as características do ensaio, contrapondo-o aos livros de história, praticado pela historiografia brasileira.
DISTINÇÃO ENTRE ENSAIO E HISTÓRIA
Entre o ensaio e o livro de história existem, com efeito, diferenças fundamentais, ainda que ambos tenham por objeto o processo histórico. O ensaio pretende explicar a história em seu conjunto, assinalando suas características principais, sem se deter em seus aspectos particulares ou nos seus diferentes momentos. No caso dos ensaios relativos ao processo histórico brasileiro, o pressuposto é que o passado colonial constitui sua chave explicativa. É verdade que este passado é concebido de diferentes maneiras pelos autores, fato que conduz cada um interpretar a história do Brasil de modo distinto. Mas, independentemente disso, para seus autores, o presente se explicaria pelo passado - a época colonial explicaria o Brasil contemporâneo. Em Formação, Caio Prado afirma que a “(...) interpretação do Brasil de hoje (...)” era o que realmente interessava (PRADO JR., 1942, p. 9).
Muitas vezes, no entanto, o ensaio abarca não apenas o passado e o presente, mas o próprio futuro. Nesses casos, com base na linha de desenvolvimento do passado e do presente, seus autores procuram apontar as tendências da história com relação ao futuro.
Ao contrário do ensaio, o livro de história propriamente dito pretende narrar ou descrever um determinado processo histórico verificado no passado. É verdade que, em alguns destes livros, a análise pode chegar até o presente. No entanto, a história é apresentada de maneira cronológica, acompanhando-se, passo a passo, o processo histórico. Somente ao final do livro é que se tem uma visão abrangente da história.
No ensaio, por seu turno, por meio de um golpe de vista, procura-se assinalar as características gerais da história de determinado país, oferecendo ao leitor uma visão de conjunto dela. Para tanto, o ensaio está organizado em torno de uma tese que seu autor busca demonstrar e que, geralmente, ele a anuncia logo no início do seu texto.
O livro de história fica preso aos fatos na medida em que considera o processo histórico em sua cronologia. O ensaio, por sua vez, é mais livre. É verdade que ambos se baseiam em documentos e textos. Mas, o livro de história precisa citar os fatos e acontecimentos, mantendo-se rente a eles, ao passo que no ensaio estes são mencionados em poucas oportunidades, apenas para comprovar determinadas afirmações de caráter mais geral e teórico. Sob este aspecto, o ensaio comporta uma interpretação mais geral dos fatos, não se detendo nas particularidades e nos episódios singulares.
Deste modo, podemos afirmar que, enquanto o livro de história constitui uma interpretação do passado fundada nos fatos e acontecimentos, o ensaio busca descrever as tendências gerais da história. Como assinalam muitos dos autores de um ensaio, busca-se, principalmente, expor nele a linha mestra ou o fio condutor do processo histórico. Em suma, no ensaio se formula uma filosofia da história.
Assim, enquanto a história se preocupa, geralmente, mais com o passado, o ensaio, ainda que também se ocupe dele, tem os olhos postos no presente e no futuro. Na verdade, faz um enlace entre passado, presente e futuro. Este enlace constitui, inclusive, uma das principais características da ensaística da primeira metade do século XX. Em suma, são obras que abarcam o conjunto da história do Brasil, formulando uma interpretação geral dela.
Em seu livro Formação da sociedade brasileira, Sodré deixa patente o que pretendia ao escrever um ensaio: “Escrevendo esta Formação da Sociedade Brasileira não tive outra intenção que a de oferecer ao leitor comum, dentro das possibilidades de um levantamento tão sumário, uma visão de conjunto de como viveu nosso povo, até os dias que precederam a crise de 1929” (SODRÉ, 1944, p. 5).
O ensaio, nos moldes em que foi praticado em relação à história do Brasil, divide-se, geralmente, em três partes. A primeira parte compreende o estudo passado, isto é, da colonização do Brasil, momento em que são lançados os fundamentos da história do Brasil. Como salientamos, a maneira como se caracteriza a colonização constitui a base sobre a qual se ergue a interpretação da história do Brasil em seu conjunto. Em outras palavras, é a sua pedra de toque.
A segunda parte examina o presente, a época do autor, explicado, fundamentalmente, pelo passado colonial. Os problemas do presente e que deveriam ser solucionados são considerados heranças do passado, isto é, apesar das mudanças verificadas ao longo da história, os problemas criados no passado ainda persistiriam.
Por fim, a terceira parte trata do futuro, que se desenha a partir da solução dos problemas do presente. Muitas vezes, é verdade, esta parte se encontra subentendida. É o caso de Formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prado. Pelo título, percebe-se que seu objetivo era expor como o Brasil contemporâneo, ou seja, o Brasil da sua época, havia se formado ou constituído. Em função disso, o autor estudou a colonização e o que ela produziu ao longo de três séculos.
Assinalou, em seguida, que, durante o período compreendido entre a Independência e a data da publicação do livro, o Brasil havia se modificado. Em virtude disso, assim definiu o Brasil contemporâneo: “O Brasil contemporâneo se define assim: o passado colonial que se balanceia e encerra com o século XVIII, mais as transformações que se sucederam no decorrer do centênio anterior a este e no atual” (PRADO JR., 1942, p. 6). Além disso, advertiu o autor que se tratava de um processo não concluído. O futuro era, por conseguinte, a conclusão desse processo: “Mas este novo processo histórico se dilata, se arrasta até hoje. E ainda não chegou a seu termo” (PRADO JR., 1942, p. 6).
Acreditamos que um dos autores mais expressivos para se entender o caráter ensaístico da produção historiográfica brasileira seja Caio Prado, motivo pelo qual examinaremos, de maneira comparativa, duas das suas principais obras, Evolução política do Brasil e Formação do Brasil contemporâneo.
A QUESTÃO DO ENSAIO EM CAIO PRADO JR.
Em 1942, Caio Prado Júnior publicou Formação do Brasil contemporâneo, considerado por muitos historiadores e estudiosos seu livro mais importante. Nele expôs, pela primeira vez, com todos os seus elementos, a interpretação da história do Brasil que o consagrou e que nunca alterou ou abandonou em seus fundamentos. Antes, reafirmou-a nos livros e textos seguintes, fazendo da mesma a perspectiva com que examinou o processo histórico brasileiro em seus diferentes momentos.
Ainda que seja considerado um livro dedicado à época colonial, Caio Prado não se restringiu a ela. É verdade que, em sua quase totalidade, o livro diz respeito ao período colonial. Não é por casualidade que tenha por subtítulo “Colônia”. Mas, apesar disto, ele não estava interessado direta e unicamente na época colonial. Analisou-a tendo por pressuposto que ela constituía a base da formação do Brasil contemporâneo. Isto significa que entendia o período colonial como a chave para se compreender o Brasil da sua época. Em decorrência disso, ainda que em traços bastante rápidos, formulou uma espécie de teoria da história do Brasil, isto é, elaborou uma interpretação do conjunto do processo histórico brasileiro, que abrangia desde os inícios da colonização até a época contemporânea. Esta teoria encontra-se expressa, como veremos posteriormente em maiores detalhes, no postulado de que a história do Brasil possuía uma linha mestra – portanto, que a explicava - que se configurava na transição de uma economia colonial a uma economia nacional.
A historiografia brasileira não levou em conta este aspecto de Formação. Prendeu-se apenas à formulação de Caio Prado acerca da colonização, fazendo dele uma espécie de historiador da época colonial. Com isso, a historiografia isolou esta formulação, desvinculando-a do fato de que ela faz parte de uma questão maior, que é a própria interpretação da história do Brasil em seu conjunto. Nada mais incorreto do que transformar Caio Prado em uma espécie de historiador da colonização. A rigor, seu entendimento de colonização somente ganha significado se considerado como parte da sua interpretação da história do Brasil em seu conjunto, na medida mesmo em que esta é uma espécie de desdobramento e conseqüência desse entendimento.
Exatamente por conter uma teoria da história do Brasil, o livro Formação deve ser considerado um ensaio e não um livro de história. É verdade que muitos estudiosos, baseando-se inclusive no próprio autor, caracterizaram Formação como um livro de história, ao passo que Evolução política do Brasil, obra de 1933, é considerada um ensaio. O próprio autor dá ensejo a essa caracterização ao definir, no prefácio de Evolução, a obra como um “simples ensaio”, entendendo por isto uma “síntese da evolução política do Brasil”. Para elaborar esta síntese, como indicou Caio Prado, escolheu, dentre os inúmeros fatos que comporiam a história do Brasil, a resultante média deles, “a linha mestre em torno de que se agrupa[ria]m estes fatos”. Alertou, inclusive, para os inconvenientes desse procedimento, destacando que eles não existiriam caso “se tratasse de uma história e não de uma síntese” (PRADO JR., 1933, p. 7). Assim, Caio Prado caracterizou Evolução como uma síntese, na qual procurou apresentar apenas os elementos essenciais que permitiriam ao leitor compreender o processo histórico brasileiro, desde a colonização até a proclamação da República. A nosso ver, no entanto, Evolução seria antes interpretação da história do Brasil dada em seus traços mais gerais, uma espécie de síntese da história do Brasil do que propriamente um ensaio.
Uma comparação entre Evolução e Formação deixa isto claro. Em Evolução, Caio Prado analisa o processo histórico. Divide, por exemplo, a época colonial em duas fases. Na primeira, que vai dos primórdios da colonização até a segunda metade do século XVII, em que entre os interesses coloniais e metropolitanos havia uma concordância e os grandes proprietários de terra dominavam econômica e politicamente. A partir de então, verifica-se uma diferenciação de interesses, com a ascensão dos comerciantes, que se tornam a classe dominante tanto econômica quanto politicamente. Em Formação, ainda que seja um livro dedicado inteiramente à época colonial, ao contrário de Evolução, cuja primeira edição vai até a proclamação da República, a economia e sociedade são analisadas em seus aspectos gerais, sem considerar o processo histórico em suas particularidades. Aliás, como destaca o autor, ele centra sua análise no período compreendido entre finais do século XVIII e início do XIX. Trata-se, do seu ponto de vista, de um momento privilegiado, pois, a um só tempo, permite olhar para o passado e ver o que foi a colonização, de um lado, e, de outro, permite olhar para o processo que tem início naquele momento e que ainda se desenrolaria à época da publicação deste livro.
Consideremos agora, pois, Formação, para entender as razões pelas quais entendemos tratar-se de um ensaio.
Para Caio Prado, a colonização se caracterizava por ser uma produção voltada para o mercado externo. Segundo ele, esta característica ainda predominava em sua época, estando na base dos problemas que os brasileiros então enfrentavam. Esses problemas eram, portanto, aqueles que derivavam da maneira como a colonização do Brasil havia se processado, cujos caracteres ainda estavam presentes na economia brasileira do século XX. De seu ponto de vista, a grande questão política era superar o caráter colonial da economia brasileira por meio do estabelecimento de uma economia nacional, processo que estaria em andamento: “Numa palavra, não completamos ainda hoje a nossa evolução da economia colonial para a nacional” (PRADO JR., 1942, p. 7). Ele próprio caracteriza este processo como “linha mestra” do processo histórico.
O estabelecimento da economia nacional constituía, portanto, uma tendência que vinha se desenvolvendo desde o início do século XIX, mas que somente em meados do XX se colocara como uma questão passível de solução. Estávamos, em sua opinião, à época da publicação de Formação, atravessando a última etapa da transição da economia colonial para a economia nacional, processo que exigia uma intervenção política para se completar. Desse modo, a economia nacional seria o futuro do Brasil.
Devemos, antes de tudo, atentar para um fato importante. Podemos supor que a forma como a colonização é compreendida determina uma explicação do presente. Entretanto, ainda que nestes ensaios a questão apareça desta maneira, é o oposto que, de fato, ocorre. Não é a interpretação do passado que condiciona o modo de conceber o presente. Antes, é o posicionamento político dos autores diante das questões da sua época, portanto, do presente, que os leva a conceber o passado, em nosso caso, a colonização, de determinada maneira. Desse modo, é a “solução” que os historiadores davam às questões do presente que os levava a considerar o passado de determinada maneira. Como bem observou o historiador francês François Guizot (2008, p. 56), o passado muda com o presente. Pretendia com isso assinalar que, de acordo com as questões do presente, o passado é encarado de determinada maneira. É o historiador, homem do seu tempo, com suas opções políticas, com sua visão de mundo, que, munido de questões colocadas por sua época, se volta para o passado e o analisa.
Duas constatações devem ser feitas. Primeiro: alterando-se as questões do presente, surgindo outras, o modo de compreender o passado também se altera. Segundo: cada autor, colocando-se diante das questões do seu tempo de uma maneira determinada, considera, necessariamente, o passado de um modo próprio, em consonância com seu posicionamento político. Daí deriva o fato de, em uma mesma época, verificarmos várias concepções distintas do passado colonial.
Entretanto, independentemente do modo como estes autores se posicionaram diante das questões de sua época e, por conseqüência, interpretaram a época colonial de determinada maneira, eles possuem algo que lhes é comum. É exatamente este ponto em comum que os leva a elaborarem seus livros na forma de ensaio. Caio Prado não foge à regra.
O ENSAIO COMO POSICIONAMENTO POLÍTICO
Os autores do século XX até os anos 60, mais ou menos, com ênfase nos da primeira metade dessa centúria, tinham em comum enfrentar uma questão fundamental da sua época: o socialismo como uma alternativa ao capitalismo e o marxismo como doutrina política. Posicionaram-se contrários a eles, ainda que muitos se colocassem na condição de socialistas, comunistas ou marxistas. Esta oposição foi feita de forma explícita ou implícita, de maneira direta ou indireta.
A oposição ao socialismo e ao marxismo foi feita por meio de textos cuja questão central era combatê-los. Sob este aspecto, o ensaio constituiu a forma adequada para alcançar este objetivo. Com efeito, diante da formulação que apontava o socialismo como o futuro da sociedade, isto é, como a forma de superação do capitalismo, os autores precisavam defender a tese de que a história do Brasil não caminhava em direção ao socialismo. Fizeram isso de diferentes maneiras. Mas, qualquer que fosse ela, os autores tinham que elaborar uma apreciação geral da história do Brasil - ou uma interpretação dela – que abarcasse passado, presente e futuro, com o objetivo de negar a tendência para o socialismo. Ou, ao menos, protelá-lo para um futuro distante, insistindo na necessidade de se atravessar algumas etapas intermediárias. Os teóricos do Partido Comunista e Caio Prado, por exemplo, representam muito bem esta tendência. Para o Partido, era necessária uma revolução democrático-burguesa, liberar o capitalismo dos entraves feudais ou semi-feudais, por meio de uma reforma agrária, para então, tendo o capitalismo se desenvolvido, lutar pelo socialismo. Para Caio Prado, a tarefa política da atualidade era lutar para estabelecer a economia nacional, completando a transformação que se desenrolava desde primórdios do século XIX.
O principal argumento desses autores eram as particularidades da história brasileira. Dito de outra maneira, eles afirmavam que as formulações que serviam para a Europa não eram adequadas ao Brasil justamente pelo fato deste possuir uma história que se diferenciava completamente da européia. De certa maneira, trata-se de argumento perfeitamente válido. Com efeito, a história de cada país tem suas particularidades, que a distingue dos demais. No entanto, ele apenas servia para justificar uma interpretação da história que, sob o pretexto de fundar-se nessas particularidades, introduz uma visão que se opõe frontalmente a qualquer mudança ou, no mais das vezes, fundamenta uma concepção reformista ou etapista da história. Neste caso, não se nega o diretamente socialismo, mas afirma-se que o mesmo era algo ao que se chegaria num futuro não muito próximo. Mas, antes, era preciso percorrer algumas etapas ou proceder algumas reformas na sociedade.
A forma ensaística da historiografia brasileira deriva, assim, de um posicionamento político por parte dos historiadores. Ela é, assim, a forma própria dessa posição política contrária ao socialismo e ao marxismo. É, sob este aspecto, a forma própria de expressar este posicionamento político. Consideremos o caso de Caio Prado para melhor ilustrar isto.
Caio Prado Jr. elaborou um ensaio justamente com o objetivo de oferecer uma interpretação da história brasileira que se contrapusesse à formulação de que o socialismo constituiria o futuro do país, ao menos o futuro imediato. Daí produzir uma interpretação da história do Brasil que postulava que o traço distintivo do processo histórico brasileiro era a constituição de uma economia nacional. Economia colonial/produção voltada para o mercado externo e economia nacional/produção voltada para o mercado interno eram os dois pólos entre os quais se moveria a história do Brasil. Como ele destacou, a transformação da economia colonial em economia nacional era o fio condutor ou a linha mestra da história do Brasil.
A conseqüência desta formulação era de que, nas condições existentes no Brasil, a proposta de socialismo era prematura. Caio Prado afirmou isto em algumas poucas oportunidades, é verdade, mas o suficiente para que se perceba que isto se encontrava no centro das suas formulações. É verdade, por outro lado, que, se este autor não afirmou isto aberta e explicitamente com freqüência, na prática o fez, ao indicar que a evolução histórica do Brasil, as transformações por que passava, o conduzia em direção ao estabelecimento de uma economia nacional. Para ele, a tarefa política dos brasileiros era lutar para que este processo se completasse.
Caio Prado explicitou em Diretrizes a essência da sua obra, ao afirmar:
Supor por exemplo que seja possível no Brasil e nas circunstâncias atuais um regime socialista com a entrega a órgãos estatais da responsabilidade pela direção e manejamento total das forças produtivas do país, é se não fantasia de visionário, certamente maneira disfarçada de entravar as reformas que desde já se impõe e que não precisam aguardar um socialismo ainda irrealizável (PRADO JR., 1954, p. 235-236).
Um pouco mais adiante: “Essas forças não são ainda ou não são sobretudo as do socialismo que começa apenas a esboçar-se entre nós e precisará aguardar ainda, para amadurecer, um largo processo das forças produtivas que não será possível sem a preliminar destruição do sistema colonial” (PRADO JR., 1954, p. 236). Como se pode observar, nos trechos acima encontramos duas questões anteriormente assinaladas. Primeiro, a oposição ao socialismo, considerando uma proposta prematura nas condições do Brasil. Segundo, esta oposição não é frontal, mas a posterga para o futuro. Antes, é preciso superar certas etapas para, então, lutar-se pelo socialismo.
Por fim, anteriormente assinalamos que o caráter ensaístico da historiografia brasileira aparece com mais intensidade na primeira metade do século XX. Com efeito, aos poucos, este caráter ensaístico perde força. Isto aparece claramente no livro Formação histórica do Brasil, de Sodré, do início da década de 60. Sodré acompanha, em linhas gerais, o processo histórico brasileiro, tratando dos seus temas maiores. No entanto, ele guarda uma característica dos ensaios propriamente. Pretende, indicando as particularidades da história brasileira, indicar que existiriam etapas a serem transpostas antes de se colocar a questão do socialismo (SODRÉ, 1967).
CONCLUSÃO
Ao longo do texto procuramos chamar a atenção para o fato de os historiadores brasileiros do século XX, até, mais ou menos, a década de 60, optaram pelo ensaio, de um modo geral, em função do objetivo político que tinham em mente. Sob este aspecto, tinham uma tese a defender.
O ensaio pressupõe uma tese, em torno da qual se elabora a interpretação da história do Brasil. Menos do que fazer uma interpretação da história do Brasil com base em documentos, os historiadores tinham uma tese a defender: de que a história do Brasil não caminhava na direção do socialismo ou que o socialismo não constituía uma alternativa válida para as condições do país. Era preciso demonstrar que nossa história possuía determinadas características que a afastavam do modelo proposto por aqueles que defendiam a solução socialista.
Iniciamos o texto indicando que ele havia sido motivado pela crítica feita pela Escola do Rio à historiografia brasileira. Chamamos a atenção, também, para o fato de que estava em questão a superação desta historiografia. Pretendem esta escola superar a historiografia vigente contrapondo-lhe estudos fundados em uma ampla e farta documentação, sem fazer generalizações e, principalmente, assinalando que, em função da organização da pós-graduação, verificou-se a profissionalização dos historiadores, com métodos e fundamentação teórica que superaria o “amadorismo” que até então dominaria na prática historiográfica. Os novos historiadores não afirmam explicitamente isto, mas o fazem implicitamente ao destacarem a profissionalização do historiador com a disseminação dos cursos de pós-graduação.
Esta crítica, em última análise, despolitiza a questão, trazendo o debate para o campo acadêmico. De nosso ponto de vista, no entanto, a superação da historiografia até então dominante somente pode ser feita em decorrência da compreensão do papel político que ela desempenhou ao longo do século XX.
Por fim, a lamentação de que os historiadores atuais são menos afeitos aos ensaios macrointerpretativos, preferindo-se as monografias técnicas, pontuais e específicas apenas revela uma incompreensão do papel político desempenhado pela historiografia brasileira de grande parte do século XX. Derrotado o socialismo, a historiografia brasileira não precisa manter seu caráter ensaístico.
REFERÊNCIAS
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RICUPERO, Bernardo. Caio Prado e a nacionalização do marxismo no Brasil. São Paulo: Departamento de Ciência Política da USP; FAPESP, Ed. 34, 2000.
SODRÉ, Nelson Werneck. Formação da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944.
_______ Formação histórica do Brasil. 4ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1967.
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HISTÓRIA
domingo, outubro 31, 2010
sábado, agosto 07, 2010
O TAYLORISMO E A QUESTÃO DO TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE
Itamar Flávio da Silveira
Suelem Halim Nardo de Carvalho
Luis Fernando Pessoa Alexandre
INTRODUÇÃO
Neste capítulo procuramos fazer considerações
sobre o taylorismo e as questões relacionadas a ele
focalizando as ideias abordadas por Frederick Winslow
Taylor na obra Princípios de Administração
Científica. Entendemos também ser oportuna uma
análise da obra de Taylor salientando a revolução da
produtividade, tendo em vista a necessidade de
pesquisas para preencherem os pontos lacunares que
ainda restam sobre a importância de Taylor para o
desenvolvimento industrial no início século XX.
Pretendemos contribuir para mostrar de forma preliminar
a biografia de Taylor e suas principais contribuições
para o desenvolvimento das ideias e, com elas, da
própria indústria. Naturalmente, não deixaremos de
abordar também as críticas que sua obra recebeu; para tanto elaboramos este texto
que está dividido em duas seções, conforme segue.
A primeira seção está subdividida em dois itens: 1) Uma breve biografia de
Taylor focalizando alguns fatos e episódios que marcaram a sua vida e; 2) uma
abordagem preliminar sobre o tema do trabalho na sociedade capitalista e a
importância do maior aproveitamento do tempo de labor para uma maior oferta de
bens e serviços à sociedade.
A segunda seção, também será subdividida em duas partes: 1) Abordagem do
Taylorismo concernente ao tema do gerenciamento científico da produção e as suas
consequências positivas para a sociedade e para os trabalhadores envolvidos no
1 Extraído de: SILVA, Moacir José da e SILVEIRA, Itamar Flávio da. (organizadores).
HISTÓRIA ECONÔMICA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. Maringá: EDUEM, 2010.
Frederick Winslow Taylor
(1856-1915)
processo produtivo e; 2) retomada das ideias e argumentos que se contrapuseram a
aplicação dos princípios de Taylor na produção.
DADOS BIOGRÁFICOS DE FREDERICK WINSLOW TAYLOR
Frederick Winslow Taylor conhecido como o Pai da organização científica do
trabalho, nasceu na Filadélfia, EUA, em 1856. Pertenceu a uma família de classe
média, o que lhe propiciou uma boa formação escolar. Aos 18 anos, por enfrentar um
sério problema na visão, ele interrompeu os seus estudos para então trabalhar numa
oficina mecânica como aprendiz em máquinas-ferramentas e na fabricação de
modelos para moldagens. Aos 22 anos Taylor ingressa numa fábrica onde passa por
diversos setores, o que resultou num alargamento da sua visão geral do
funcionamento de uma fábrica. Nesta fábrica, Taylor, em seis anos, tendo iniciado
como operário, galgou e logrou o posto de engenheiro-chefe.
Em 1880, Taylor entra para o curso de Engenharia do Stevens Institute,
formando-se em 1885. Em 1895 ingressa na “American Society of Mechanical
Engineers” (Associação Americana de Engenharia Mecânica) apresentando trabalhos
de significativa importância. Taylor, ao longo de sua vida, registrou 50 valiosas
patentes sobre invenções de máquinas, ferramentas e processos de trabalho. Foi um
homem de grande capacidade de ação, tendo como lema desde cedo oferecer
resultados ao invés de razões. Com a obra de Taylor, a produção econômica recebe
uma base nova, tentou reduzir cada arte manual, ou oficio, a movimentos elementares
que pudessem ser exatamente cronometrados, descritos e ensinados a qualquer
pessoa.
Ainda no cargo de capataz, Taylor já começara a aplicar processos científicos
no processo de produção: deve-se a ele o descobrimento e as variações que influem
no corte de metais. Ele vivia fazendo milhares de experimentos, o que lhe permitiu
uma vasta publicação de trabalhos em entidades bem conceituadas de sua época. Em
1901, Taylor para com seu trabalho remunerado e vai dedicar-se à pesquisa. Em
1903, publica um trabalho de grande relevância que ele chamava de filosofia da
direção, Administração de oficinas. Em 1906, é eleito presidente da “American Society
of Mechanical Engineers” e daí em diante não para mais com suas publicações.
Somente a partir de 1911 os trabalhos de Taylor passam a interessar à
sociedade e ao público em geral; foi quando ele publicou Princípios de
Administração Científica (1976), obra com a qual alcançou renome mundial e que,
em poucos anos, fora traduzida para diversas línguas, sendo até hoje estudada e
analisada por administradores e gestores de todo o mundo, devido à sua linguagem
vivaz e descritiva. Vale lembrar que, mesmo tendo prestado uma grande contribuição
à humanidade, com as técnicas de aumento da produtividade, Taylor foi muito mais
criticado do que propriamente elogiado.
As principais obras de Taylor foram: Notas sobre as correias, 1893 (apud,
Taylor, 1976); Um sistema de gratificação por peça, 1895 (apud, Taylor, 1976);
Administração de oficinas, 1903 (apud, Taylor, 1976); A arte de cortar metais, 1906
(apud, Taylor, 1976); e, o clássico, Princípios de administração científica, 1911 (1976).
POR QUE RETOMAR O TAYLORISMO?
O Taylorismo traz uma grande novidade para as relações de produção,
subvertendo a formulação teórica de Karl Marx de que as classes distintas teriam
interesses opostos e irreconciliáveis; se no Manifesto Comunista (1848), de Karl
Marx e Frederic Engels, o trabalhador só poderia ter atendidas as suas necessidades
com o fim da propriedade privada, para Taylor (1976) o interesse do patrão não
precisa necessariamente ser antagônico ao de seus funcionários. Com o
desencadeamento da revolução da produtividade, algo muito interessante se tornara
explícito: a humanidade não estava fadada a viver numa sociedade socialista, como a
maioria dos teóricos do período previa.
A sociedade do final do século XIX e início do XX, período em que viveu Taylor,
é uma sociedade predominantemente vista como a sociedade formada por duas
classes sociais: a dos capitalistas, que possuíam e controlavam os meios de
produção, e a dos trabalhadores, considerados por Karl Marx (1988) como a classe
alienada, explorada e dependente.
Peter Drucker (2002) chama a atenção para este período da história por se
tratar da fase em que ocorreu a chamada revolução da produtividade, ignorada pela
maioria dos historiadores:
Em sua segunda fase, iniciada por volta de 1880 e culminando com o fim da
Segunda Guerra Mundial, o conhecimento em seu novo significado passou
a ser aplicado ao trabalho, resultando na Revolução da Produtividade, que
em setenta e cinco anos converteu o proletário na classe media burguesa
com renda próxima a da classe superior. Assim, a Revolução da
Produtividade venceu a guerra de classes e o comunismo. (DRUCKER,
2002, p. 4)
Segundo Drucker, a partir da Revolução da Produtividade, todas as
manifestações do capitalismo que havia, até então, se limitado a grupos restritos da
sociedade, agora se torna um capitalismo com “C” maiúsculo, um grande sistema que
em pouco tempo permeou e transformou todos os grupos da sociedade nos quais se
espalhou. “O capitalismo e a Revolução Industrial devido a sua velocidade e ao seu
alcance criaram uma civilização Mundial” (DRUCKER, 2002, p. 7).
Embora essa industrialização significasse ganhos materiais, a velocidade e a
intensidade das mudanças eram tal que chegavam a ser traumáticas, mas nem por
isso alienante, afirma Drucker (2002). Ocorrera exatamente o oposto daquilo que
previa Marx (1988), quando dizia que a alienação provocada pelo capitalismo tornaria
inevitável a exploração do proletariado, pois seu sustento estava ficando totalmente
dependente dos meios de produção pertencentes aos capitalistas, e que esses bens
se concentrariam nas mãos de poucas pessoas, empobrecendo e deixando impotente
a classe trabalhadora dentro das relações capitalistas. Esta então se veria numa
situação tão desesperadora que lhe restaria somente libertar-se do mundo que a
sufocava, fazendo então o sistema ruir sobre o seu próprio peso.
Drucker chama Karl Marx de “o falso profeta do século XIX”, mas afirma que a
maioria dos seus contemporâneos tinha a mesma visão do capitalismo; poderiam até
discordar das previsões de Marx, mas até os pensadores conhecidos como
antimarxistas aceitavam sua análise no que dizia respeito às contradições do
capitalismo.
Praticamente todas as pessoas pensantes do final do século XIX
compartilhavam da convicção de Marx, de que a sociedade capitalista era
uma sociedade de conflito de classes inevitável - e de fato, por volta de
1910 a maioria das pessoas pensantes, pelo menos na Europa (mas
também no Japão), estava se inclinando para o socialismo. (DRUCKER,
2002, p. 13).
A ideia de exploração durante as etapas da Revolução Industrial ficou tão
enraizada nas explicações da História, que historiadores e demais pensadores da área
de Humanidades, ao invés de reconhecerem os benefícios trazidos com revolução
tecnológica e da produtividade, insistem em reproduzir que este foi o período do
acirramento da luta de classes, da tentativa de alienação e dominação do proletariado.
Motta (1986) nos dá um exemplo disso quando afirma que para compreender a
História Contemporânea é necessário ver este período como o período de conflito
entre dois mundos essencialmente diversos, o do capital e o do trabalho. Não
podemos negar que tais conflitos aconteceram, mas reduzir o processo da Revolução
Industrial e a mudança que ele trouxe para toda civilização seria demasiadamente
simplificado para a compreensão da História.
Uma vez que o mundo não se transformou na forma social prevista por Karl
Marx, o que teria ocorrido para que o homem superasse as inevitáveis contradições do
capitalismo, da alienação e da subjugação da classe operária? Entender a obra de
Taylor, e suas propostas, nos permite ver de forma mais clara e mais objetiva os sinais dos obstáculos que teriam desviado a história do seu “curso natural”. Isto para nós já constitui num bom motivo retomar o tema.
O TRABALHO NO MUNDO CAPITALISTA
Esclarecer o conceito de trabalho torna-se relevante, pois é através dele que
podemos entender o porquê do taylorismo ter sido tão criticado e não raro mal
interpretado desde seu surgimento. Para o mundo capitalista o trabalho tem um
significado prático, simples e objetivo: é o meio pelo qual o homem produz riqueza e
desenvolve a sociedade. É também uma moeda de troca; homens vendem sua força
de trabalho em troca de uma quantia ou valor, comparável ao tempo, força ou
complexidade da atividade que exercem. Se filósofos, sociólogos, antropólogos,
historiadores, e demais pensadores das ciências humanas, concebessem o trabalho
sob esse prisma, acima citado, Taylor hoje teria o merecido reconhecimento da
sociedade industrial.
Através da Revolução da Produtividade, gerada com base nas experiências de
Taylor, é que foi possível a multiplicação de bens, riqueza e a melhoria real nas
condições de vida dos trabalhadores.
Com a propagação do ideário marxista o trabalho passa adquirir novos
significados e a ter novos propósitos. O trabalho não pode ser apenas uma atividade
mecânica qualquer. Marx, no Capital, destaca que:
Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao
homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a
abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos
favos de suas colméias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto
da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça antes de
construí-lo em cera. (Marx, 1988, p. 142-143)
O cerne de toda critica ao Taylorismo está aí. O gerenciamento científico da
produção, ao criar ferramentas-padrão, determinar o tempo e a maneira correta para a
realização das tarefas teria tirado do homem o que o caracterizaria como tal: sua
capacidade de pensar. Para os teóricos de orientação marxista, Taylor coisificou o
trabalhador, sendo o taylorismo mais um instrumento para alienação e exploração dos
trabalhadores pelos malévolos capitalistas.
Não é a melhor maneira de trabalhar em geral que Taylor buscava, como
Friedman parece presumir, mas uma resposta ao problema específico de
como controlar melhor o trabalho alienado – isto é, a força de trabalho
comprada e vendida. (BRAVERMAN, 1981, p. 86-87).
Na concepção marxista o trabalho dentro do capitalismo não pode ser visto
como algo bom, já que esse “trabalho” produzirá algo que não pertencerá a quem o
produziu, mas sim ao capitalista; tornando ainda o trabalhador um ser incapaz, que
não tem mais poder nem sobre si mesmo.
O ser estranho, a quem o trabalho e o produto do trabalho pertencem, ao
serviço do qual está o trabalho e para fruição do qual está o produto do
trabalho é, só pode ser o próprio homem. Se o produto do trabalho não
pertence ao trabalhador, é um poder estranho perante ele, então isso só é
possível porque ele pertence a outro homem que não o trabalhador. Se a
sua atividade é para ele tormento, então deve ser fruição para um e alegria
de viver de um outro. (MARX, 1993, p. 69).
Se analisarmos o trabalho a partir do viés marxista, será realmente impossível
enxergarmos o quão importante foi a Revolução da produtividade para o
desenvolvimento da riqueza durante o século XX. Mas seria possível um trabalho não
alienante numa sociedade tão complexa como a que vivemos hoje?
A concepção marxista de trabalho soa um tanto contraditória, pois se o homem
precisa ter conhecimento de todo o processo produtivo para não tornar-se subjugado e
alienado pelo capitalismo, ele teria que ser uma espécie de artesão. Mas Marx escreve
se reportando a uma sociedade industrial sofisticada. Como pode o homem de hoje ter
o conhecimento de determinados bens produzidos?
Um trabalhador de uma montadora de carros, por exemplo: a que preço sairia
da fábrica um automóvel se ele fosse depender do conhecimento de um só homem
para realizar as tarefas por completo? Funções tão variadas e complexas de um carro
de luxo, por exemplo, jamais teriam sido desenvolvidas se cada trabalhador da fábrica
de automóveis tivesse que conhecer todas as etapas de produção. Foi graças à busca
por maior eficiência do trabalhador e sua especialização que hoje temos uma
tecnologia tão avançada, que trouxe melhoria à vida de toda a sociedade. A produção
de alimentos, automóveis em larga escala, equipamentos hospitalares, e de todos os
bens que o mundo industrializado nos proporciona, só se torna viável através de uma
forma de trabalho tão condenada pelos críticos da revolução da produtividade.
O TAYLORISMO
Taylor (1976) inicia sua obra discorrendo acerca do desperdício que assombra
a produção dos Estados Unidos. Ele afirma que desperdícios materiais são fáceis de
detectar e corrigir, mas o maior problema são as ações desastradas, mal orientadas e
ineficientes do homem, que geram um desperdício mais trabalhoso de ser detectado,
causando no fim danos mais profundos que os primeiros. Taylor (1976) observa que
os discursos políticos dos americanos falam muito da devastação de florestas,
desperdício de forças hidráulicas, esgotamentos das jazidas de carvão, etc., mas que
não há qualquer ação em favor de se promover uma maior eficiência nacional, mesmo
com pessoas já cientes de que esta necessidade urge veementemente.
Na busca pela eliminação do desperdício e da ociosidade operária e pela
redução dos custos de produção, Taylor iniciou seus estudos sobre a Ciência da
Administração, no começo do século XX. Ele desenvolveu técnicas de racionalização
do trabalho operário e, em 1903, analisou e controlou o tempo e o movimento do
homem e da máquina em cada tarefa, para aperfeiçoá-los e racionalizá-los
gradativamente.
Na sua obra maior, um dos objetivos de Taylor era mostrar como a falta de
eficiência dentro das empresas gerava um desperdício assombroso, e como este
acarretava em danos significativos, tanto para a empresa, quanto para a sociedade em
geral. Para combater tal falta de eficiência o autor diz que o remédio não é a busca de homens perfeitos para ocuparem as funções na empresa. Ele acreditava que a
solução para a ineficiência estava na administração das empresas e que esta
administração científica (regida por normas, princípios e leis claramente definidas)
geraria a competência que se deseja de um corpo de funcionários:
No passado, o homem estava em primeiro lugar; no futuro, o sistema terá a
primazia. Isso, entretanto, não significa, absolutamente, que os homens
competentes não sejam necessários. Pelo contrário, o maior objetivo de
uma grande organização é o aperfeiçoamento de seus homens de primeira
ordem; e sob direção racional, o homem atingirá o mais alto posto, de modo
mais seguro e rápido que em qualquer outra distinção. (TAYLOR, 1976, p.
27)
Taylor deixa claro que o principal objetivo da Administração deve ser assegurar
o máximo de prosperidade ao patrão e ao empregado. Ele tem a consciência da
relação tensa, e até conflituosa, que ocorre muitas vezes entre patrões e empregados,
e afirma que isso pode e deve ser mudado. Para ele, um lado só atingirá o máximo de
prosperidade se o mesmo ocorrer do outro lado.
O que o trabalhador mais deseja são salários mais altos, por outro lado, o
maior desejo do empregador é a maior produtividade a custos mais baixos. Estas duas
afirmações parecem refletir desejos antagônicos, como crê a maioria dos teóricos.
Mas, para Taylor, a realização de um dos lados, só torna-se possível através
realização do outro. A maior prosperidade de ambos será atingida quando cada
homem e cada máquina oferecerem o melhor rendimento possível, isso acontece
quando a empresa dedica-se à formação e ao aperfeiçoamento do seu pessoal, de
modo que os homens possam executar suas tarefas com um ritmo mais acelerado e
com maior eficiência os mais diversos tipos de trabalho.
Se você e seu operário se tornaram tão adestrados que juntos fazem dois
pares de sapatos por dia, enquanto seu competidor e o operário dele fazem
somente um par, é claro que, depois de ter vendido os dois pares de
sapatos, você poderá pagar ao seu operário mais do que o seu concorrente,
que produz somente um par, cabendo a você ainda lucro maior que a seu
competidor. (TAYLOR, 1976, p. 31).
Taylor viu-se envolto num grande problema ao subir para o posto de
contra-mestre, pois seus colegas de trabalho os procuravam contentes dizendo que
como ele conhecia a maneira certa de agir, sendo ele chefe, certamente, não iria
importuná-los. Mas como Taylor assumiu a postura de que se estava naquela função
era porque a fabrica exigia que ele buscasse um melhor rendimento, logo surgiram
desavenças sérias entre ele e os funcionários subordinados. Em função do
endurecimento das regras na fábrica, Taylor foi por diversas vezes ameaçado.
Como meio de se livrar das exigências do novo chefe, os funcionários
inventavam mecanismos de quebrar as máquinas ou inutilizá-las temporariamente
para acusá-lo de estar forçando as máquinas produzirem mais do que a real
capacidade que possuíam.
Taylor, através de um exemplo bem simples, nos faz refletir sobre a cobrança
dos empregadores por aumento da produtividade. Ele cita que num jogo de
basquetebol, por exemplo, os jogadores dão o máximo de si e se esforçam por todos
os meios para conseguir marcar mais pontos e garantir a tão sonhada vitória para sua
equipe. O sentimento de grupo é tanto que se numa competição os colegas
perceberem que determinado membro da equipe não se esforçou o quanto era capaz,
é considerado como um traidor, sendo tratado com desprezo pelos companheiros e
pela torcida que o assiste.
Por que, então, pergunta Taylor, um trabalhador sai para o seu dia de trabalho,
recebe para tal, e sem o menor pudor esforça-se para fazer o menos possível, produz
muito menos do que é capaz e ainda repreende quem tenta fazer com maior agilidade
e eficiência? Afirma que a vadiagem tomou conta generalizadamente das indústrias e
empresas de construção e que isso era o maior perigo para as classes trabalhadoras
de sua época. Taylor acreditava que, para reverter tal quadro, necessitaria de uma
relação íntima entre os operários e a gerencia da empresa, pois a eliminação da cera,
decisão deliberada de produzir menos do que poderia produzir, reduziria o custo de
produção, ampliaria os mercados consumidores, asseguraria salários mais altos,
menos horas de serviço com melhores condições de trabalho.
Mas a perspectiva de Taylor de que os patrões deveriam exigir mais eficiência
de seus operários foi criticada severamente pelos teóricos que analisam o trabalho na
sociedade capitalista. Herry Braverman (1981), por exemplo, um dos maiores críticos
de Taylor, afirma que o taylorismo não é uma ciência do trabalho, e sim uma ciência
do trabalho para os outros, uma tentativa de controle do trabalhador para torná-lo
alienado. Quanto a esse gerenciamento das tarefas Braverman ressalta:
O controle foi o aspecto essencial de gerencia através de sua história, mas
com Taylor ele adquiriu dimensões sem precedentes (...). Taylor elevou o
conceito de controle a um plano inteiramente novo quando asseverou como
uma necessidade absoluta para gerencia adequada à imposição ao
trabalhador da maneira rigorosa pela qual o trabalho deve ser executado
(...). A gerência insistia ele, só podia ser um empreendimento frustrado e
limitado se deixasse ao trabalhador qualquer decisão sobre o trabalho.Seu
sistema era tão somente um meio para que a gerência efetuasse o controle
do modo concreto de execução de toda atividade no trabalho, desde a mais
simples a mais complicada. Nesse sentido ele foi o pioneiro de uma
revolução muito maior na divisão do trabalho que qualquer outra havida.
(BRAVERMAN, 1981, p. 86)
Taylor vê como fonte da vadiagem a formação de ideias errôneas por parte dos
trabalhadores e falta de uma gerência ativa que mostre que tais conceitos estão
equivocados, além, evidentemente do controle do processo produtivo por parte da
gerência da fábrica.
Os trabalhadores faziam muita cera por acreditarem que se eles e as máquinas
dessem um maior rendimento ocorreria um alto índice desemprego. Então, para
proteger seus próprios interesses, agiam deliberadamente para produzir bem menos
do que poderiam. Não conseguiam ter a percepção do que, de fato, ocorre quando se
aumenta a produtividade:
Por exemplo, o caso dos sapatos, O uso da máquina para executar tarefas
que eram realizadas pelas mãos deu como resultado a confecção de
sapatos por uma fração do preço antigo de custo e venda tão razoável, que
todos os homens, mulheres e crianças das classes operárias compram um
ou dois pares de sapatos por ano e andam sempre calçados, enquanto
antigamente o operário, adquiria, talvez um par de sapatos a cada cinco
anos e permanecia a maior parte do tempo descalço, usando os sapatos
somente como objeto de luxo ou em caso de grande necessidade. A
despeito de ter aumentado enormemente a produção de cada operário, com
o uso das máquinas, o consumo de sapatos tem crescido de tal modo que,
proporcionalmente, há mais trabalhadores na indústria de calçados que
antes. (TAYLOR, 1976, p. 35).
O sistema de administração utilizado também auxiliava no fazer “cera” dos
operários porque se utilizava de métodos ineficientes nos quais os funcionários
desperdiçavam grande parte de seu esforço. Na época de Taylor estava em vigor o
sistema de pagamento por peça: os patrões procuravam ganhar o máximo na hora de
fixar o preço da tarefa e os trabalhadores procuravam ganhar ao fazer parecer que
não se podia produzir mais que um determinado número de peças por dia. Os
operários em seu conjunto planejavam os trabalhos que deviam ser executados e
estabeleciam o ritmo para a máquina, que correspondia mais ou menos a um terço da
razoável produção diária.
Quando um trabalhador ingressava na fábrica era desde cedo instruído, pelos
seus companheiros, sobre o quê e quanto fazer na função designada. Essas eram
instruções das quais os operários consideravam muito sérias já que devido ao
desemprego que enfrentavam acreditavam que quanto menos produzissem mais
postos de trabalho teriam no mercado.
O sistema de pagamento por peça era danoso para as empresas, e Taylor,
acredita ser ele o culpado em grande parte pelo acirramento dos conflitos entre
patrões e empregados e da indolência dos operários, pois os operários poderiam
entender que ao produzir em maior quantidade não ganhariam a mais por isso, porque
o preço final do produto cairia e, como consequência, eles não tirariam nenhum
proveito.
Quando Taylor ocupou o cargo de chefe de oficina, empenhou-se em modificar
o sistema de administração para tentar mostrar que patrões e empregados teriam um
só interesse, ao contrário do que os teóricos marxistas e sindicalistas procuravam
mostravam. Para Taylor, enquanto patrões e empregados visualizassem ter interesses
diferentes, era impossível que ambos os lados obtivessem os ganhos reais que
poderiam. E foi no campo administrativo que ele conseguiu obter grandes êxitos,
fazendo uma completa reorganização da empresa.
Com a utilização da Administração Científica Taylor (1976) acreditava que a
maioria dos infortúnios que acirrava a relação entre operário e empregador estaria
eliminada. Não se tratava de conceber sua teoria de gerenciamento como milagrosa,
mas ele afirmava que a prosperidade dependia de muitos fatores externos as leis da
empresa. Fatores estes que estão inteiramente fora do controle do gerenciamento
científico.
Certos indivíduos nascem preguiçosos e ineficientes e outros ambiciosos e
grosseiros, como há vicio e crime, também sempre haverá pobreza, miséria
e infelicidade. Nenhum sistema de administração, nenhum expediente sob o
controle dum homem ou grupo de homens podem assegurar prosperidade
permanente a trabalhadores ou patrões. (TAYLOR, 1976, p. 43)
Taylor sustentava que o método científico de Administração poderia em
períodos de crise, torná-la menor, mais curta e menos atroz; e, em fases de calmaria,
patrões e trabalhadores teriam mais prosperidade e felicidade, porque se sentiriam
livre de discórdias e dissensões.
A ignorância do empresário quanto ao tempo necessário para realização de
cada atividade é outro fator que ajudava o operário no propósito de deliberadamente
reduzir sua produtividade. A pergunta constante de Taylor era qual a quantidade de
trabalho razoável que um trabalhador deveria produzir em um dia e qual a melhor
forma para realizá-la. Foi então que Taylor tomou para si a tarefa de descobrir um
tempo-padrão para realização de tarefas e passar isso aos funcionários pagando a
eles um prêmio em forma de salário extraordinário se fizesse sua função como o
especificado.
Taylor consegue permissão do presidente da companhia em que trabalhava
para investir, certa quantia, num estudo minucioso estudo científico do tempo
necessário para fazer diversos trabalhos. Estes estudos trouxeram tantos ganhos para
empresa que Taylor conseguiu autorização para continuar com eles por mais vinte e
seis anos. Taylor cronometrava o tempo e analisava matematicamente todas as
variações que o produto podia apresentar, preocupando-se também com os materiais,
ferramentas e instalações para aperfeiçoar seus métodos.
Apesar de toda a dedicação de Taylor para tornar seus estudos uma ciência do
trabalho, ele é citado muitas vezes, a exemplo de Moraes Neto (1991) como o autor de
maior contribuição para exploração do trabalhador dentro das indústrias.
O conhecimento é no caso do taylorismo, apenas um suporte para que o
capital, por um lado explore as particularidades do homem enquanto
máquina, e por outro, aperfeiçoe o mecanismo de controle dos passos do
trabalhador coletivo (exemplo: utilização de computadores para
mapeamento de produtividade). (MORAES NETO, 1991, p. 41)
O taylorismo visava à racionalização da produção, a fim de possibilitar o
aumento da produtividade no trabalho, evitando o desperdício de tempo,
economizando mão-de-obra, suprimindo gestos desnecessários e comportamentos
supérfluos no interior do processo produtivo. Em sua observação criteriosa, Taylor
concretizou de forma exemplar a noção de tempo útil.
Segundo Taylor, na medida em que o processo de produção fabril se torna
cada vez mais complexo, não poderia ser deixado a cargo dos próprios trabalhadores,
sempre resistentes à mudança. Ele insiste na necessidade de separar o pensar, do
executar a produção. Segundo ele, sem um método objetivo de ação, o trabalhador
fica à deriva, desperdiçando tempo e energia, além, obviamente, da decisão
deliberada de optar pela baixa produtividade.
A preocupação maior de Taylor é a desordem na forma da realização das
tarefas na fábrica, quando deixadas inteiramente nas mãos dos operários. Nesse
sentido, a aplicação de suas técnicas visa separar o trabalho intelectual
(planejamento, concepção e direção) do trabalho manual (execução) no interior do
processo produtivo. Dentro dessa perspectiva, cada tarefa é decomposta em
movimentos elementares e ritmados, em consonância com as máquinas, possuindo
assim uma ciência que deve ser posta em prática pela direção da empresa, que agora
passa a ter tanta responsabilidade no processo produtivo, quanto o operário.
O uso do cronômetro, por exemplo, tem por finalidade eliminar o tempo morto
ou desperdiçado com movimentos desnecessários que cansava o trabalhador e não
incrementava a produção. Cada operário realiza a sua tarefa, individualmente, como
atividade distinta daquela do operário vizinho, e elimina-se o trabalho em grupo,
gerador de corporativismo, discussões e pressões, responsáveis pela queda de
produção.
Taylor argumenta que no sistema de administração, então vigente, o bom êxito
da empresa dependia quase que inteiramente da iniciativa do operário e, como já
exposto anteriormente, esta iniciativa parecia não ocorrer. Com a implantação do
sistema de gerenciamento científico, obtém-se uma uniformidade na produção.
A idéia da tarefa é, quiçá, o mais importante elemento na administração
cientifica. O trabalho de cada operário é completamente planejado pela
direção pelo menos, com um dia de antecedência e cada homem recebe, na
maioria dos casos, instruções escritas completas que minudenciam a tarefa
de que é encarregado e também os meios para realizá-la. (TAYLOR, 1976,
p. 51)
Em suma podemos destacar como principais pontos da Administração
científica: a substituição do método produtivo, até então empírico por um método
científico, onde cada instrumento e movimento do trabalhador foram previamente
estudados e definidos, de tal forma que o trabalhador, ao fim da jornada diária
conseguisse atingir maior produção e menor fadiga; a eliminação do critério individual
de produção de cada trabalhador por critérios aferidos através de experimentos. A
partir de então o trabalhador não mais escolheria o método e as ferramentas que
achassem mais adequados. Haveria uma seleção e aperfeiçoamento científico do
trabalhador, que é estudado, instruído, e treinado para realização de cada tarefa;
havendo uma cooperação da administração com os trabalhadores, juntos
desenvolvem o trabalho de acordo com as leis científicas, ao invés de deixar a
resolução de cada problema a critério individual do trabalhador.
Taylor acreditava que ao entregar ao trabalhador uma tarefa diária, na qual já
se definida o tempo para realização de cada etapa, deixaria este trabalhador mais
satisfeito, por proporcionar a ele no curso do dia apreciar seu próprio progresso. Para
obter a colaboração dos funcionários, foram estabelecidos remuneração e prêmios
extras. A produção individual, até o nível de 100% de eficiência no tempo padrão
(tempo médio que um operário leva para executar as tarefas), era remunerada
conforme o número de peças produzidas. Acima dessa porcentagem, a remuneração
por pela seria acrescida de um prêmio de produtividade ou incentivo salarial, que
aumentava à medida que a eficiência do operário era elevada, ou seja, quando o
trabalhador consegue realizar a tarefa determinada dentro do tempo-limite
especificado, ele recebe um aumento de 30 a 100% do seu salário habitual.
Além de racionalizar o trabalho do operário, Taylor tentou mudar o
comportamento dos supervisores, chefes, gerentes e diretores que ainda trabalhavam
nos velhos padrões, criando, assim, a Administração Científica, que foi rapidamente
aplicada na indústria americana, estendendo-se a todos os países e campos de
atividades.
Quando foi funcionário na Bethlehem Steel Works, estando com mais ou
menos três anos de trabalho na empresa, Taylor conseguiu realizar com apenas 140
homens o que antes de seus métodos era realizado somente por um total de 400 a
600 homens. Conseguindo também uma redução da utilização de material e das
ferramentas. Mesmo pagando gratificação pelos trabalhos realizados pelos
funcionários, Taylor conseguiu fazer com que fosse poupada a quantia de 78.000
dólares por ano na empresa. A quebra de máquinas provocada por ação deliberada ou
por descuido dos operários também chegou ao fim quando Taylor propôs que se
descontasse no salário do responsável pela máquina cada dano que a ela ocorresse.
Taylor, por ter sido um grande observador, e trabalhado em funções das mais
simples até os cargos mais altos dentro de uma empresa, conhecia o universo do
trabalho e do trabalhador. Toda sua teoria foi construída em cima da observação
dessa vivência, levando em conta a necessidade dos trabalhadores, porém
enxergando suas mazelas que resultava em danos para toda a sociedade.
Durante os três anos que ficou no cargo de contramestre Taylor conseguiu que
a produção da fábrica dobrasse, sendo, em função disto, promovido. Através dos
métodos adotados por Taylor tornou-se possível salários mais altos aos funcionários,
melhor rentabilidade ao capitalista e produtos acabados com preços mais acessíveis
aos consumidores já que houve um grande aumento de produtividade.
Com Taylor, pela primeira vez na História, o trabalho que anteriormente era
negligenciado passa a merecer uma atenção sistemática em seus mínimos detalhes.
Ele cria um método científico de organização do trabalho e sua técnica se disseminou
pelas indústrias do mundo todo. Com aplicação ampla, seus princípios ultrapassaram
as fronteiras e penetraram em todo o mundo do trabalho de forma geral, inclusive na
União Soviética e tal era a pretensão de Taylor, quando publicou Princípios de
Administração Científica (1976):
Os exemplos escolhidos são de tal ordem que, é de acreditar-se,
interessam a engenheiros e diretores de empresas industriais e
manufatureiras, como também a todos os que nelas trabalhem. Esperamos,
contudo, ter deixado claro que os mesmos princípios, com resultados iguais,
podem ser aplicados em qualquer atividade social: na direção de nossos
lares, na gerencia de nossas fazendas, na administração de nossas casas
comerciais, grades e pequenas, na administração de igrejas, de institutos
filantrópicos, de universidades e de serviços públicos. (TAYLOR, 1976, p.
28)
AS CRITÍCAS AO TAYLORISMO
A obra Princípios de Administração Científica (1976) de Taylor, quando foi
publicada, já era alvo de muitas críticas, tanto em relação ao sistema administrativo,
quanto aos métodos de produção propostos. Isso fica claro quando vemos na obra
dois capítulos dedicados ao tema: “Críticas ao Sistema” e “Respostas as Criticas ao
Sistema”. Podemos dizer que o taylorismo até hoje é mal interpretado e distorcido, por
uma visão equivocada de um dos acontecimentos mais marcantes para mudança de
vida do homem que foi a revolução da produtividade.
Poucas figuras na história intelectual tiveram o impacto de Taylor – e tão
poucas foram tão obstinadamente mal compreendidas ou citadas
erroneamente com tanta freqüência. Em parte, Taylor sofreu porque a
História provou que ele estava certo e os intelectuais errados. (DRUCKER,
2002, p. 15)
Peter Drucker acreditava que a reputação de Taylor sofreu porque ele ousou
aplicar o conhecimento ao estudo do trabalho, o que era um anátema para os
sindicatos de seu tempo. Estes sindicatos então trataram de promover uma gigantesca
campanha para retirar da História Americana a grandeza da obra de Taylor. O
discurso de Taylor de que não havia trabalho qualificado em operações manuais,
mas apenas trabalho, e que todo ele pode ser analisado, criando-se a melhor forma
de produzir, com tempo pré-determinado e as ferramentas adequadas, foi considerado
um discurso quase que criminoso.
Nos sindicatos de trabalhadores americanos que congregavam os
empregados da indústria bélica, por exemplo, seus membros eram uma espécie de
dos donos dos saberes, tinham o monopólio do conhecimento de cada arte. Impunham
um período de aprendizado que exigia de cinco a sete anos de seus aprendizes e não
tinham um treinamento sistemático, nem estudo do trabalho. Não era permitido a
esses aprendizes que anotassem nada do que viam e tudo que aprendessem deveria
ser mantido em sigilo. Imagine em tal contexto o que Taylor, que criara uma teoria do
gerenciamento científico da produção, teve que enfrentar ao publicar seus estudos.
Mas os sindicatos mais respeitados e poderosos na América de Taylor eram
aqueles dos arsenais e estaleiros estatais que, antes da Primeira Guerra
Mundial, centralizavam toda a produção de defesa em tempo de paz. Esses
sindicatos eram monopólios de artesanato: a participação neles era restrita
a filhos e parentes dos membros. Eles exigiam um aprendizado de cinco a
sete anos, mas não tinham treinamento sistemático, nem estudo do
trabalho. Não era permitido anotar nada; não havia nem mesmo plantas ou
outros desenho do trabalho a ser feito. Os membros tinham que jurar
segredo e não podiam discutir seu trabalho com não membros. A afirmação
de Taylor, de que o trabalho podia ser estudado, analisado e dividido em
uma série de movimentos repetitivos simples _ cada um dos quais devia ser
executado de uma maneira certa, no seu melhor tempo e com suas
ferramentas corretas _ era de fato um ataque frontal aos sindicatos.
(DRUCKER, 2002, p. 16).
Taylor foi atacado pelos dois lados: por parte dos trabalhadores através dos
seus sindicatos e por parte dos industriais, através que suas organizações. Os
trabalhadores por acreditarem que Taylor baratearia seus trabalhos e os industriais,
que chegavam a acusá-lo de socialista, chamando-o de “o criador de casos”, por
propor Taylor, que os lucros obtidos com a Gerência Científica devessem ser
repassados aos operários.
Os críticos argumentam que os princípios de super especialização do
taylorismo foram criados para robotizar o operário, fazendo-o perder a liberdade e a
iniciativa de estabelecer sua própria maneira de trabalhar e permitindo encará-lo como
a manifestação concreta do tempo ao ser transformado em mercadoria. A revolução
da produtividade de Taylor seria, para seus críticos, a forma de roubar dos
trabalhadores o pouco que liberdade que sobrevivera à Revolução Industrial. Em uma
frase seria “o sistema que paga para que os trabalhadores não pensem”. Observamos
o que diz Moraes Neto (1991), que é um acadêmico que faz moderadas críticas ao
gerenciamento científico.
O taylorismo tem um poderoso lado perverso: com a simplificação das
tarefas, em questão de dias ou de horas um novo operário não-qualificado é
capaz de dar conta da tarefa - e por que não com um salário mais baixo?
Com a apropriação do saber operário, ele cria a sujeição do trabalhador aos
ditames do planejador, já não competindo àquele discutir o mérito das
ordens por este emitidas. Organizar, agora, é controlar e vigiar até mesmo
os mínimos detalhes da execução da tarefa, determinando o que e como
fazer em um curto espaço de tempo. Segundo Taylor, a vantagem do
método é que ele “beneficia” os mais produtivos e “pune” os indolentes.
(MORAES NETO, 1991, p. 42)
Uma questão que chama atenção é a crítica dos intelectuais de ciências
humanas e de ciências sociais aplicadas em relação à cobrança pela produtividade
que os donos dos meios de produção fazem aos funcionários. Quando pagamos por
algum bem ou serviço esperamos que ele seja feito da melhor forma e com o preço
mais acessível possível. É a mais pura e antiga certeza nas relações de troca. Por que
nas relações trabalhistas isso deveria proceder de maneira diferente? O dono dos
meios de produção compra o tempo do trabalhador e tem o direito, como qualquer
consumidor, de cobrar por melhores serviços e por maior produtividade.
Taylor não tornou o homem um escravo irracional da máquina, apenas mostrou
que era possível que um mesmo funcionário, com a mesma força e o mesmo tempo,
multiplicasse sua capacidade de produção. E fez isso melhorando as condições de
trabalho dos funcionários. Estudou as melhores ferramentas, métodos menos
danosos, posturas adequadas e os tempos de descanso necessários.
O filósofo norte-americano, Marshall Berman (1986), em seu livro Tudo que é
sólido desmancha no ar, expõe a seguinte crítica sobre o trabalho no mundo
capitalista:
Na mesma instância em que a humanidade domina a natureza, o homem
parece escravizar-se a outros homens ou à sua própria infâmia. Até a pura
luz da ciência parece incapaz de brilhar senão no escuro pano de fundo da
ignorância. Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar de vida
intelectual às forças materiais, estupidificando a vida humana ao nível da
força material. (MARSHALL, 1986, p.19)
Frederick Winslow Taylor foi responsável por uma grande mudança na História
e o resultado de seus estudos foi responsável por gerar um grande aumento no lucro
das empresas onde seu método vigorou, mas graças a esse grande aumento na
produtividade, ele também foi responsável pela melhoria das condições de vida dos
trabalhadores. Os maiores beneficiados, como consequência deste aprimoramento da
produtividade, são os consumidores, que passaram a ter acesso à compra de bens,
anteriormente, sem a menor possibilidade de preços tão acessíveis.
Os teóricos da área de Administração também criticam a Teoria de Taylor
afirmando que a mesma é incompleta, por julgá-la um método de robotização do
trabalhador. Alegam que o taylorismo vê os trabalhadores apenas como uma máquina
e não como um ser psicossocial. Mas, apesar de todas essas acusações, podemos
ver até muitas e diferentes teorias administrativas hoje adotadas em todo mundo,
porém, a base é sempre os princípios do taylorismo.
CONCLUSÃO
À guisa de conclusão, podemos afirmar que o Taylorismo consiste num
conjunto de medidas que se focalizavam em: 1) o combate do desperdício de tempo
de trabalho dentro da fábrica; 2) a eficiência produtiva através de movimentos e
ferramentas adequadas e; 3) a erradicação da vadiagem e do vandalismo dentro das
unidades fabris.
Podemos afirmar também que essas mudanças de procedimentos resultaram
numa fantástica situação em que se tornou possível o aumento da produção e da
produtividade do trabalho, possibilitando melhor remuneração aos trabalhadores,
melhor remuneração do capital e produtos com preços significativamente mais baixos
e com melhor qualidade oferecidos no mercado. Com esses resultados positivos
poderíamos concluir que Frederic Winslow Taylor se tornara um homem admirado e
aclamado pelos intelectuais devido às facilidades com que suas teses passaram do
âmbito da ciência pura para a aplicação nas fábricas propiciando grandes benefícios
para a humanidade. Mas, não foi o que efetivamente ocorreu.
A despeito de todos os resultados positivos de seus métodos, Taylor foi um dos
homens mais odiados pelos intelectuais do século XX. Mas a que se deve essa
animosidade intelectual contra ele? Talvez ao próprio alcance de suas teses.
Indiscutivelmente, ocorreram grandes ganhos à humanidade, mas essa vitória real
implicou na derrubada da grande tese da literatura marxista. O Taylorismo solapou as
bases da luta de classes: patrões e empregados não estavam, de acordo com os
novos métodos de gerenciamento da produção, em uma luta que inevitavelmente
resultaria na eliminação dos primeiros: donos da força de trabalho e donos dos meios
de produção espantosamente tinham interesses convergentes.
Taylor era um homem muito simples e, provavelmente, não tenha tido tempo
para estudar os longos textos de Karl Marx sobre mais-valia e luta de classes. Despido
de um referencial teórico que só via saída para os conflitos sociais na revolução
socialista, procurou fazer as coisas da forma em que as percebiam no seu dia-a-dia no
chão de fábrica. Atuou tenazmente para reduzir os obstáculos que impediam um
aumento da produtividade do trabalhador e, consequentemente, da produção como
um todo.
Ao observar que existiam nas fábricas ações deliberadas, por parte dos
operários, para produzir menos do que se poderia, Taylor procurou fazer com que os
procedimentos de trabalho fossem organizados cientificamente de forma que
impedissem a prática de cera no trabalho. Com métodos apropriados para gerenciar a
produção, os patrões poderiam controlar o trabalho dos operários dentro das fábricas.
Eram medidas simples que tiravam o controle da produção por parte dos
trabalhadores, que até então agiam de forma coorporativa para produzir muito menos
do que era possível.
Como já demonstramos ao longo do texto, as mudanças operacionalizadas por
Taylor se tratavam de coisas simples que possibilitaram um incremento significativo na
produtividade de cada trabalhador. Ao aumentar significativamente a produtividade
acabou por realizar uma revolução na produção, a Revolução da Produtividade,
lançando para a classe operária a possibilidade de ter de fato os ganhos econômicos
que eram prometidos pelo socialismo, sem que houvesse necessidade da realização
de uma revolução que romperia com o status quo da sociedade da sociedade
capitalista.
A revolução socialista prometia acabar com a mais-valia e aumentar o
rendimento do trabalhador, uma vez que todo resultado de seu trabalho estaria à
disposição de quem, em tese, era o verdadeiro dono da produção. Com o taylorismo
seria possível duplicar o valor dos salários sem os desgastes e os traumas de uma
guerra civil. Podemos dizer que aquilo que a concepção marxista apontava como
inevitável, a destruição violenta da burguesia, tornou-se evitável na medida em que
houve um esfriamento nas tensões entre burguesia e proletariado.
Marx (1993) afirmava que o desenvolvimento das forças produtivas conduziria
ao acirramento da luta de classes, na medida em que os ricos ficavam cada vez mais
ricos e em número cada vez menor, enquanto que os pobres se tornariam cada vez
mais pobres e em número cada vez maior. Portanto, quanto mais aprofundassem as
relações capitalistas mais se tornaria iminente a eclosão da revolução socialista. No
entanto, os países que mais se desenvolveram, e que aprimoraram seus métodos de
produção, não viveram clima de erupção social. Inglaterra e Estados Unidos, por
exemplo, nunca estiveram em vias de cumprir as profecias de Marx.
Obviamente, o desenvolvimento das forças produtivas com a aplicação dos
princípios de gerenciamento científico, elaborados por Taylor, conduziu as economias
dos países desenvolvidos a outras situações: a classe operária tornou-se mais
abastada com a duplicação do valor dos salários e com a melhora das condições de
trabalho. O aumento da produtividade proporcionou também maior rentabilidade para
os patrões e redução do preço final dos produtos aos consumidores. Em suma, o
Taylorismo em certa medida desarmou uma espécie de bomba revolucionária a ser
acionada pela luta de classes preconizada pelo marxismo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das
Letras, 1986.
BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista. Rio de Janeiro: Zahar Editores,
1981.
CHIAVENATO. Introdução à Teoria Geral da Administração. São Paulo: McGraw-Hill
do Brasil, 1983.
DRUCKER, Peter. Sociedade pós-capitalista. São Paulo: Pioneira, 2002.
HICKS, John. Uma teoria de Histórica Econômica. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.
LANDES, David L. Prometeu desacorrentado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
MARX, Karl. O capital: crítica de economia política. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural,
1988 (Os economistas).
_________. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Lisboa: Avante, 1993.
MARX, K. & ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: IEA, 1987.
MORAES NETO, Benedito Rodrigues de. Marx, Taylor e Ford: As forças produtivas
em discussão. São Paulo: Brasiliense, 1991.
MOTA, Carlos Guilherme. História Moderna e Contemporânea. São Paulo: Moderna,
1986.
TAYLOR, Frederick Winslow. Princípios de Administração Científica. 7º edição. São
Paulo: Atlas, 1976.
FONTES E REFERENCIAIS PARA ESTUDOS TEMÁTICOS
Escreva um texto explicando porque para Taylor a relação entre empresários e
trabalhadores não é contraditória.
Escreva um texto explicando os motivos pelos quais as teorias de Taylor
propondo seu novo método de produção foram adotadas em grande parte dos países.
Itamar Flávio da Silveira
Suelem Halim Nardo de Carvalho
Luis Fernando Pessoa Alexandre
INTRODUÇÃO
Neste capítulo procuramos fazer considerações
sobre o taylorismo e as questões relacionadas a ele
focalizando as ideias abordadas por Frederick Winslow
Taylor na obra Princípios de Administração
Científica. Entendemos também ser oportuna uma
análise da obra de Taylor salientando a revolução da
produtividade, tendo em vista a necessidade de
pesquisas para preencherem os pontos lacunares que
ainda restam sobre a importância de Taylor para o
desenvolvimento industrial no início século XX.
Pretendemos contribuir para mostrar de forma preliminar
a biografia de Taylor e suas principais contribuições
para o desenvolvimento das ideias e, com elas, da
própria indústria. Naturalmente, não deixaremos de
abordar também as críticas que sua obra recebeu; para tanto elaboramos este texto
que está dividido em duas seções, conforme segue.
A primeira seção está subdividida em dois itens: 1) Uma breve biografia de
Taylor focalizando alguns fatos e episódios que marcaram a sua vida e; 2) uma
abordagem preliminar sobre o tema do trabalho na sociedade capitalista e a
importância do maior aproveitamento do tempo de labor para uma maior oferta de
bens e serviços à sociedade.
A segunda seção, também será subdividida em duas partes: 1) Abordagem do
Taylorismo concernente ao tema do gerenciamento científico da produção e as suas
consequências positivas para a sociedade e para os trabalhadores envolvidos no
1 Extraído de: SILVA, Moacir José da e SILVEIRA, Itamar Flávio da. (organizadores).
HISTÓRIA ECONÔMICA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. Maringá: EDUEM, 2010.
Frederick Winslow Taylor
(1856-1915)
processo produtivo e; 2) retomada das ideias e argumentos que se contrapuseram a
aplicação dos princípios de Taylor na produção.
DADOS BIOGRÁFICOS DE FREDERICK WINSLOW TAYLOR
Frederick Winslow Taylor conhecido como o Pai da organização científica do
trabalho, nasceu na Filadélfia, EUA, em 1856. Pertenceu a uma família de classe
média, o que lhe propiciou uma boa formação escolar. Aos 18 anos, por enfrentar um
sério problema na visão, ele interrompeu os seus estudos para então trabalhar numa
oficina mecânica como aprendiz em máquinas-ferramentas e na fabricação de
modelos para moldagens. Aos 22 anos Taylor ingressa numa fábrica onde passa por
diversos setores, o que resultou num alargamento da sua visão geral do
funcionamento de uma fábrica. Nesta fábrica, Taylor, em seis anos, tendo iniciado
como operário, galgou e logrou o posto de engenheiro-chefe.
Em 1880, Taylor entra para o curso de Engenharia do Stevens Institute,
formando-se em 1885. Em 1895 ingressa na “American Society of Mechanical
Engineers” (Associação Americana de Engenharia Mecânica) apresentando trabalhos
de significativa importância. Taylor, ao longo de sua vida, registrou 50 valiosas
patentes sobre invenções de máquinas, ferramentas e processos de trabalho. Foi um
homem de grande capacidade de ação, tendo como lema desde cedo oferecer
resultados ao invés de razões. Com a obra de Taylor, a produção econômica recebe
uma base nova, tentou reduzir cada arte manual, ou oficio, a movimentos elementares
que pudessem ser exatamente cronometrados, descritos e ensinados a qualquer
pessoa.
Ainda no cargo de capataz, Taylor já começara a aplicar processos científicos
no processo de produção: deve-se a ele o descobrimento e as variações que influem
no corte de metais. Ele vivia fazendo milhares de experimentos, o que lhe permitiu
uma vasta publicação de trabalhos em entidades bem conceituadas de sua época. Em
1901, Taylor para com seu trabalho remunerado e vai dedicar-se à pesquisa. Em
1903, publica um trabalho de grande relevância que ele chamava de filosofia da
direção, Administração de oficinas. Em 1906, é eleito presidente da “American Society
of Mechanical Engineers” e daí em diante não para mais com suas publicações.
Somente a partir de 1911 os trabalhos de Taylor passam a interessar à
sociedade e ao público em geral; foi quando ele publicou Princípios de
Administração Científica (1976), obra com a qual alcançou renome mundial e que,
em poucos anos, fora traduzida para diversas línguas, sendo até hoje estudada e
analisada por administradores e gestores de todo o mundo, devido à sua linguagem
vivaz e descritiva. Vale lembrar que, mesmo tendo prestado uma grande contribuição
à humanidade, com as técnicas de aumento da produtividade, Taylor foi muito mais
criticado do que propriamente elogiado.
As principais obras de Taylor foram: Notas sobre as correias, 1893 (apud,
Taylor, 1976); Um sistema de gratificação por peça, 1895 (apud, Taylor, 1976);
Administração de oficinas, 1903 (apud, Taylor, 1976); A arte de cortar metais, 1906
(apud, Taylor, 1976); e, o clássico, Princípios de administração científica, 1911 (1976).
POR QUE RETOMAR O TAYLORISMO?
O Taylorismo traz uma grande novidade para as relações de produção,
subvertendo a formulação teórica de Karl Marx de que as classes distintas teriam
interesses opostos e irreconciliáveis; se no Manifesto Comunista (1848), de Karl
Marx e Frederic Engels, o trabalhador só poderia ter atendidas as suas necessidades
com o fim da propriedade privada, para Taylor (1976) o interesse do patrão não
precisa necessariamente ser antagônico ao de seus funcionários. Com o
desencadeamento da revolução da produtividade, algo muito interessante se tornara
explícito: a humanidade não estava fadada a viver numa sociedade socialista, como a
maioria dos teóricos do período previa.
A sociedade do final do século XIX e início do XX, período em que viveu Taylor,
é uma sociedade predominantemente vista como a sociedade formada por duas
classes sociais: a dos capitalistas, que possuíam e controlavam os meios de
produção, e a dos trabalhadores, considerados por Karl Marx (1988) como a classe
alienada, explorada e dependente.
Peter Drucker (2002) chama a atenção para este período da história por se
tratar da fase em que ocorreu a chamada revolução da produtividade, ignorada pela
maioria dos historiadores:
Em sua segunda fase, iniciada por volta de 1880 e culminando com o fim da
Segunda Guerra Mundial, o conhecimento em seu novo significado passou
a ser aplicado ao trabalho, resultando na Revolução da Produtividade, que
em setenta e cinco anos converteu o proletário na classe media burguesa
com renda próxima a da classe superior. Assim, a Revolução da
Produtividade venceu a guerra de classes e o comunismo. (DRUCKER,
2002, p. 4)
Segundo Drucker, a partir da Revolução da Produtividade, todas as
manifestações do capitalismo que havia, até então, se limitado a grupos restritos da
sociedade, agora se torna um capitalismo com “C” maiúsculo, um grande sistema que
em pouco tempo permeou e transformou todos os grupos da sociedade nos quais se
espalhou. “O capitalismo e a Revolução Industrial devido a sua velocidade e ao seu
alcance criaram uma civilização Mundial” (DRUCKER, 2002, p. 7).
Embora essa industrialização significasse ganhos materiais, a velocidade e a
intensidade das mudanças eram tal que chegavam a ser traumáticas, mas nem por
isso alienante, afirma Drucker (2002). Ocorrera exatamente o oposto daquilo que
previa Marx (1988), quando dizia que a alienação provocada pelo capitalismo tornaria
inevitável a exploração do proletariado, pois seu sustento estava ficando totalmente
dependente dos meios de produção pertencentes aos capitalistas, e que esses bens
se concentrariam nas mãos de poucas pessoas, empobrecendo e deixando impotente
a classe trabalhadora dentro das relações capitalistas. Esta então se veria numa
situação tão desesperadora que lhe restaria somente libertar-se do mundo que a
sufocava, fazendo então o sistema ruir sobre o seu próprio peso.
Drucker chama Karl Marx de “o falso profeta do século XIX”, mas afirma que a
maioria dos seus contemporâneos tinha a mesma visão do capitalismo; poderiam até
discordar das previsões de Marx, mas até os pensadores conhecidos como
antimarxistas aceitavam sua análise no que dizia respeito às contradições do
capitalismo.
Praticamente todas as pessoas pensantes do final do século XIX
compartilhavam da convicção de Marx, de que a sociedade capitalista era
uma sociedade de conflito de classes inevitável - e de fato, por volta de
1910 a maioria das pessoas pensantes, pelo menos na Europa (mas
também no Japão), estava se inclinando para o socialismo. (DRUCKER,
2002, p. 13).
A ideia de exploração durante as etapas da Revolução Industrial ficou tão
enraizada nas explicações da História, que historiadores e demais pensadores da área
de Humanidades, ao invés de reconhecerem os benefícios trazidos com revolução
tecnológica e da produtividade, insistem em reproduzir que este foi o período do
acirramento da luta de classes, da tentativa de alienação e dominação do proletariado.
Motta (1986) nos dá um exemplo disso quando afirma que para compreender a
História Contemporânea é necessário ver este período como o período de conflito
entre dois mundos essencialmente diversos, o do capital e o do trabalho. Não
podemos negar que tais conflitos aconteceram, mas reduzir o processo da Revolução
Industrial e a mudança que ele trouxe para toda civilização seria demasiadamente
simplificado para a compreensão da História.
Uma vez que o mundo não se transformou na forma social prevista por Karl
Marx, o que teria ocorrido para que o homem superasse as inevitáveis contradições do
capitalismo, da alienação e da subjugação da classe operária? Entender a obra de
Taylor, e suas propostas, nos permite ver de forma mais clara e mais objetiva os sinais dos obstáculos que teriam desviado a história do seu “curso natural”. Isto para nós já constitui num bom motivo retomar o tema.
O TRABALHO NO MUNDO CAPITALISTA
Esclarecer o conceito de trabalho torna-se relevante, pois é através dele que
podemos entender o porquê do taylorismo ter sido tão criticado e não raro mal
interpretado desde seu surgimento. Para o mundo capitalista o trabalho tem um
significado prático, simples e objetivo: é o meio pelo qual o homem produz riqueza e
desenvolve a sociedade. É também uma moeda de troca; homens vendem sua força
de trabalho em troca de uma quantia ou valor, comparável ao tempo, força ou
complexidade da atividade que exercem. Se filósofos, sociólogos, antropólogos,
historiadores, e demais pensadores das ciências humanas, concebessem o trabalho
sob esse prisma, acima citado, Taylor hoje teria o merecido reconhecimento da
sociedade industrial.
Através da Revolução da Produtividade, gerada com base nas experiências de
Taylor, é que foi possível a multiplicação de bens, riqueza e a melhoria real nas
condições de vida dos trabalhadores.
Com a propagação do ideário marxista o trabalho passa adquirir novos
significados e a ter novos propósitos. O trabalho não pode ser apenas uma atividade
mecânica qualquer. Marx, no Capital, destaca que:
Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao
homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a
abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos
favos de suas colméias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto
da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça antes de
construí-lo em cera. (Marx, 1988, p. 142-143)
O cerne de toda critica ao Taylorismo está aí. O gerenciamento científico da
produção, ao criar ferramentas-padrão, determinar o tempo e a maneira correta para a
realização das tarefas teria tirado do homem o que o caracterizaria como tal: sua
capacidade de pensar. Para os teóricos de orientação marxista, Taylor coisificou o
trabalhador, sendo o taylorismo mais um instrumento para alienação e exploração dos
trabalhadores pelos malévolos capitalistas.
Não é a melhor maneira de trabalhar em geral que Taylor buscava, como
Friedman parece presumir, mas uma resposta ao problema específico de
como controlar melhor o trabalho alienado – isto é, a força de trabalho
comprada e vendida. (BRAVERMAN, 1981, p. 86-87).
Na concepção marxista o trabalho dentro do capitalismo não pode ser visto
como algo bom, já que esse “trabalho” produzirá algo que não pertencerá a quem o
produziu, mas sim ao capitalista; tornando ainda o trabalhador um ser incapaz, que
não tem mais poder nem sobre si mesmo.
O ser estranho, a quem o trabalho e o produto do trabalho pertencem, ao
serviço do qual está o trabalho e para fruição do qual está o produto do
trabalho é, só pode ser o próprio homem. Se o produto do trabalho não
pertence ao trabalhador, é um poder estranho perante ele, então isso só é
possível porque ele pertence a outro homem que não o trabalhador. Se a
sua atividade é para ele tormento, então deve ser fruição para um e alegria
de viver de um outro. (MARX, 1993, p. 69).
Se analisarmos o trabalho a partir do viés marxista, será realmente impossível
enxergarmos o quão importante foi a Revolução da produtividade para o
desenvolvimento da riqueza durante o século XX. Mas seria possível um trabalho não
alienante numa sociedade tão complexa como a que vivemos hoje?
A concepção marxista de trabalho soa um tanto contraditória, pois se o homem
precisa ter conhecimento de todo o processo produtivo para não tornar-se subjugado e
alienado pelo capitalismo, ele teria que ser uma espécie de artesão. Mas Marx escreve
se reportando a uma sociedade industrial sofisticada. Como pode o homem de hoje ter
o conhecimento de determinados bens produzidos?
Um trabalhador de uma montadora de carros, por exemplo: a que preço sairia
da fábrica um automóvel se ele fosse depender do conhecimento de um só homem
para realizar as tarefas por completo? Funções tão variadas e complexas de um carro
de luxo, por exemplo, jamais teriam sido desenvolvidas se cada trabalhador da fábrica
de automóveis tivesse que conhecer todas as etapas de produção. Foi graças à busca
por maior eficiência do trabalhador e sua especialização que hoje temos uma
tecnologia tão avançada, que trouxe melhoria à vida de toda a sociedade. A produção
de alimentos, automóveis em larga escala, equipamentos hospitalares, e de todos os
bens que o mundo industrializado nos proporciona, só se torna viável através de uma
forma de trabalho tão condenada pelos críticos da revolução da produtividade.
O TAYLORISMO
Taylor (1976) inicia sua obra discorrendo acerca do desperdício que assombra
a produção dos Estados Unidos. Ele afirma que desperdícios materiais são fáceis de
detectar e corrigir, mas o maior problema são as ações desastradas, mal orientadas e
ineficientes do homem, que geram um desperdício mais trabalhoso de ser detectado,
causando no fim danos mais profundos que os primeiros. Taylor (1976) observa que
os discursos políticos dos americanos falam muito da devastação de florestas,
desperdício de forças hidráulicas, esgotamentos das jazidas de carvão, etc., mas que
não há qualquer ação em favor de se promover uma maior eficiência nacional, mesmo
com pessoas já cientes de que esta necessidade urge veementemente.
Na busca pela eliminação do desperdício e da ociosidade operária e pela
redução dos custos de produção, Taylor iniciou seus estudos sobre a Ciência da
Administração, no começo do século XX. Ele desenvolveu técnicas de racionalização
do trabalho operário e, em 1903, analisou e controlou o tempo e o movimento do
homem e da máquina em cada tarefa, para aperfeiçoá-los e racionalizá-los
gradativamente.
Na sua obra maior, um dos objetivos de Taylor era mostrar como a falta de
eficiência dentro das empresas gerava um desperdício assombroso, e como este
acarretava em danos significativos, tanto para a empresa, quanto para a sociedade em
geral. Para combater tal falta de eficiência o autor diz que o remédio não é a busca de homens perfeitos para ocuparem as funções na empresa. Ele acreditava que a
solução para a ineficiência estava na administração das empresas e que esta
administração científica (regida por normas, princípios e leis claramente definidas)
geraria a competência que se deseja de um corpo de funcionários:
No passado, o homem estava em primeiro lugar; no futuro, o sistema terá a
primazia. Isso, entretanto, não significa, absolutamente, que os homens
competentes não sejam necessários. Pelo contrário, o maior objetivo de
uma grande organização é o aperfeiçoamento de seus homens de primeira
ordem; e sob direção racional, o homem atingirá o mais alto posto, de modo
mais seguro e rápido que em qualquer outra distinção. (TAYLOR, 1976, p.
27)
Taylor deixa claro que o principal objetivo da Administração deve ser assegurar
o máximo de prosperidade ao patrão e ao empregado. Ele tem a consciência da
relação tensa, e até conflituosa, que ocorre muitas vezes entre patrões e empregados,
e afirma que isso pode e deve ser mudado. Para ele, um lado só atingirá o máximo de
prosperidade se o mesmo ocorrer do outro lado.
O que o trabalhador mais deseja são salários mais altos, por outro lado, o
maior desejo do empregador é a maior produtividade a custos mais baixos. Estas duas
afirmações parecem refletir desejos antagônicos, como crê a maioria dos teóricos.
Mas, para Taylor, a realização de um dos lados, só torna-se possível através
realização do outro. A maior prosperidade de ambos será atingida quando cada
homem e cada máquina oferecerem o melhor rendimento possível, isso acontece
quando a empresa dedica-se à formação e ao aperfeiçoamento do seu pessoal, de
modo que os homens possam executar suas tarefas com um ritmo mais acelerado e
com maior eficiência os mais diversos tipos de trabalho.
Se você e seu operário se tornaram tão adestrados que juntos fazem dois
pares de sapatos por dia, enquanto seu competidor e o operário dele fazem
somente um par, é claro que, depois de ter vendido os dois pares de
sapatos, você poderá pagar ao seu operário mais do que o seu concorrente,
que produz somente um par, cabendo a você ainda lucro maior que a seu
competidor. (TAYLOR, 1976, p. 31).
Taylor viu-se envolto num grande problema ao subir para o posto de
contra-mestre, pois seus colegas de trabalho os procuravam contentes dizendo que
como ele conhecia a maneira certa de agir, sendo ele chefe, certamente, não iria
importuná-los. Mas como Taylor assumiu a postura de que se estava naquela função
era porque a fabrica exigia que ele buscasse um melhor rendimento, logo surgiram
desavenças sérias entre ele e os funcionários subordinados. Em função do
endurecimento das regras na fábrica, Taylor foi por diversas vezes ameaçado.
Como meio de se livrar das exigências do novo chefe, os funcionários
inventavam mecanismos de quebrar as máquinas ou inutilizá-las temporariamente
para acusá-lo de estar forçando as máquinas produzirem mais do que a real
capacidade que possuíam.
Taylor, através de um exemplo bem simples, nos faz refletir sobre a cobrança
dos empregadores por aumento da produtividade. Ele cita que num jogo de
basquetebol, por exemplo, os jogadores dão o máximo de si e se esforçam por todos
os meios para conseguir marcar mais pontos e garantir a tão sonhada vitória para sua
equipe. O sentimento de grupo é tanto que se numa competição os colegas
perceberem que determinado membro da equipe não se esforçou o quanto era capaz,
é considerado como um traidor, sendo tratado com desprezo pelos companheiros e
pela torcida que o assiste.
Por que, então, pergunta Taylor, um trabalhador sai para o seu dia de trabalho,
recebe para tal, e sem o menor pudor esforça-se para fazer o menos possível, produz
muito menos do que é capaz e ainda repreende quem tenta fazer com maior agilidade
e eficiência? Afirma que a vadiagem tomou conta generalizadamente das indústrias e
empresas de construção e que isso era o maior perigo para as classes trabalhadoras
de sua época. Taylor acreditava que, para reverter tal quadro, necessitaria de uma
relação íntima entre os operários e a gerencia da empresa, pois a eliminação da cera,
decisão deliberada de produzir menos do que poderia produzir, reduziria o custo de
produção, ampliaria os mercados consumidores, asseguraria salários mais altos,
menos horas de serviço com melhores condições de trabalho.
Mas a perspectiva de Taylor de que os patrões deveriam exigir mais eficiência
de seus operários foi criticada severamente pelos teóricos que analisam o trabalho na
sociedade capitalista. Herry Braverman (1981), por exemplo, um dos maiores críticos
de Taylor, afirma que o taylorismo não é uma ciência do trabalho, e sim uma ciência
do trabalho para os outros, uma tentativa de controle do trabalhador para torná-lo
alienado. Quanto a esse gerenciamento das tarefas Braverman ressalta:
O controle foi o aspecto essencial de gerencia através de sua história, mas
com Taylor ele adquiriu dimensões sem precedentes (...). Taylor elevou o
conceito de controle a um plano inteiramente novo quando asseverou como
uma necessidade absoluta para gerencia adequada à imposição ao
trabalhador da maneira rigorosa pela qual o trabalho deve ser executado
(...). A gerência insistia ele, só podia ser um empreendimento frustrado e
limitado se deixasse ao trabalhador qualquer decisão sobre o trabalho.Seu
sistema era tão somente um meio para que a gerência efetuasse o controle
do modo concreto de execução de toda atividade no trabalho, desde a mais
simples a mais complicada. Nesse sentido ele foi o pioneiro de uma
revolução muito maior na divisão do trabalho que qualquer outra havida.
(BRAVERMAN, 1981, p. 86)
Taylor vê como fonte da vadiagem a formação de ideias errôneas por parte dos
trabalhadores e falta de uma gerência ativa que mostre que tais conceitos estão
equivocados, além, evidentemente do controle do processo produtivo por parte da
gerência da fábrica.
Os trabalhadores faziam muita cera por acreditarem que se eles e as máquinas
dessem um maior rendimento ocorreria um alto índice desemprego. Então, para
proteger seus próprios interesses, agiam deliberadamente para produzir bem menos
do que poderiam. Não conseguiam ter a percepção do que, de fato, ocorre quando se
aumenta a produtividade:
Por exemplo, o caso dos sapatos, O uso da máquina para executar tarefas
que eram realizadas pelas mãos deu como resultado a confecção de
sapatos por uma fração do preço antigo de custo e venda tão razoável, que
todos os homens, mulheres e crianças das classes operárias compram um
ou dois pares de sapatos por ano e andam sempre calçados, enquanto
antigamente o operário, adquiria, talvez um par de sapatos a cada cinco
anos e permanecia a maior parte do tempo descalço, usando os sapatos
somente como objeto de luxo ou em caso de grande necessidade. A
despeito de ter aumentado enormemente a produção de cada operário, com
o uso das máquinas, o consumo de sapatos tem crescido de tal modo que,
proporcionalmente, há mais trabalhadores na indústria de calçados que
antes. (TAYLOR, 1976, p. 35).
O sistema de administração utilizado também auxiliava no fazer “cera” dos
operários porque se utilizava de métodos ineficientes nos quais os funcionários
desperdiçavam grande parte de seu esforço. Na época de Taylor estava em vigor o
sistema de pagamento por peça: os patrões procuravam ganhar o máximo na hora de
fixar o preço da tarefa e os trabalhadores procuravam ganhar ao fazer parecer que
não se podia produzir mais que um determinado número de peças por dia. Os
operários em seu conjunto planejavam os trabalhos que deviam ser executados e
estabeleciam o ritmo para a máquina, que correspondia mais ou menos a um terço da
razoável produção diária.
Quando um trabalhador ingressava na fábrica era desde cedo instruído, pelos
seus companheiros, sobre o quê e quanto fazer na função designada. Essas eram
instruções das quais os operários consideravam muito sérias já que devido ao
desemprego que enfrentavam acreditavam que quanto menos produzissem mais
postos de trabalho teriam no mercado.
O sistema de pagamento por peça era danoso para as empresas, e Taylor,
acredita ser ele o culpado em grande parte pelo acirramento dos conflitos entre
patrões e empregados e da indolência dos operários, pois os operários poderiam
entender que ao produzir em maior quantidade não ganhariam a mais por isso, porque
o preço final do produto cairia e, como consequência, eles não tirariam nenhum
proveito.
Quando Taylor ocupou o cargo de chefe de oficina, empenhou-se em modificar
o sistema de administração para tentar mostrar que patrões e empregados teriam um
só interesse, ao contrário do que os teóricos marxistas e sindicalistas procuravam
mostravam. Para Taylor, enquanto patrões e empregados visualizassem ter interesses
diferentes, era impossível que ambos os lados obtivessem os ganhos reais que
poderiam. E foi no campo administrativo que ele conseguiu obter grandes êxitos,
fazendo uma completa reorganização da empresa.
Com a utilização da Administração Científica Taylor (1976) acreditava que a
maioria dos infortúnios que acirrava a relação entre operário e empregador estaria
eliminada. Não se tratava de conceber sua teoria de gerenciamento como milagrosa,
mas ele afirmava que a prosperidade dependia de muitos fatores externos as leis da
empresa. Fatores estes que estão inteiramente fora do controle do gerenciamento
científico.
Certos indivíduos nascem preguiçosos e ineficientes e outros ambiciosos e
grosseiros, como há vicio e crime, também sempre haverá pobreza, miséria
e infelicidade. Nenhum sistema de administração, nenhum expediente sob o
controle dum homem ou grupo de homens podem assegurar prosperidade
permanente a trabalhadores ou patrões. (TAYLOR, 1976, p. 43)
Taylor sustentava que o método científico de Administração poderia em
períodos de crise, torná-la menor, mais curta e menos atroz; e, em fases de calmaria,
patrões e trabalhadores teriam mais prosperidade e felicidade, porque se sentiriam
livre de discórdias e dissensões.
A ignorância do empresário quanto ao tempo necessário para realização de
cada atividade é outro fator que ajudava o operário no propósito de deliberadamente
reduzir sua produtividade. A pergunta constante de Taylor era qual a quantidade de
trabalho razoável que um trabalhador deveria produzir em um dia e qual a melhor
forma para realizá-la. Foi então que Taylor tomou para si a tarefa de descobrir um
tempo-padrão para realização de tarefas e passar isso aos funcionários pagando a
eles um prêmio em forma de salário extraordinário se fizesse sua função como o
especificado.
Taylor consegue permissão do presidente da companhia em que trabalhava
para investir, certa quantia, num estudo minucioso estudo científico do tempo
necessário para fazer diversos trabalhos. Estes estudos trouxeram tantos ganhos para
empresa que Taylor conseguiu autorização para continuar com eles por mais vinte e
seis anos. Taylor cronometrava o tempo e analisava matematicamente todas as
variações que o produto podia apresentar, preocupando-se também com os materiais,
ferramentas e instalações para aperfeiçoar seus métodos.
Apesar de toda a dedicação de Taylor para tornar seus estudos uma ciência do
trabalho, ele é citado muitas vezes, a exemplo de Moraes Neto (1991) como o autor de
maior contribuição para exploração do trabalhador dentro das indústrias.
O conhecimento é no caso do taylorismo, apenas um suporte para que o
capital, por um lado explore as particularidades do homem enquanto
máquina, e por outro, aperfeiçoe o mecanismo de controle dos passos do
trabalhador coletivo (exemplo: utilização de computadores para
mapeamento de produtividade). (MORAES NETO, 1991, p. 41)
O taylorismo visava à racionalização da produção, a fim de possibilitar o
aumento da produtividade no trabalho, evitando o desperdício de tempo,
economizando mão-de-obra, suprimindo gestos desnecessários e comportamentos
supérfluos no interior do processo produtivo. Em sua observação criteriosa, Taylor
concretizou de forma exemplar a noção de tempo útil.
Segundo Taylor, na medida em que o processo de produção fabril se torna
cada vez mais complexo, não poderia ser deixado a cargo dos próprios trabalhadores,
sempre resistentes à mudança. Ele insiste na necessidade de separar o pensar, do
executar a produção. Segundo ele, sem um método objetivo de ação, o trabalhador
fica à deriva, desperdiçando tempo e energia, além, obviamente, da decisão
deliberada de optar pela baixa produtividade.
A preocupação maior de Taylor é a desordem na forma da realização das
tarefas na fábrica, quando deixadas inteiramente nas mãos dos operários. Nesse
sentido, a aplicação de suas técnicas visa separar o trabalho intelectual
(planejamento, concepção e direção) do trabalho manual (execução) no interior do
processo produtivo. Dentro dessa perspectiva, cada tarefa é decomposta em
movimentos elementares e ritmados, em consonância com as máquinas, possuindo
assim uma ciência que deve ser posta em prática pela direção da empresa, que agora
passa a ter tanta responsabilidade no processo produtivo, quanto o operário.
O uso do cronômetro, por exemplo, tem por finalidade eliminar o tempo morto
ou desperdiçado com movimentos desnecessários que cansava o trabalhador e não
incrementava a produção. Cada operário realiza a sua tarefa, individualmente, como
atividade distinta daquela do operário vizinho, e elimina-se o trabalho em grupo,
gerador de corporativismo, discussões e pressões, responsáveis pela queda de
produção.
Taylor argumenta que no sistema de administração, então vigente, o bom êxito
da empresa dependia quase que inteiramente da iniciativa do operário e, como já
exposto anteriormente, esta iniciativa parecia não ocorrer. Com a implantação do
sistema de gerenciamento científico, obtém-se uma uniformidade na produção.
A idéia da tarefa é, quiçá, o mais importante elemento na administração
cientifica. O trabalho de cada operário é completamente planejado pela
direção pelo menos, com um dia de antecedência e cada homem recebe, na
maioria dos casos, instruções escritas completas que minudenciam a tarefa
de que é encarregado e também os meios para realizá-la. (TAYLOR, 1976,
p. 51)
Em suma podemos destacar como principais pontos da Administração
científica: a substituição do método produtivo, até então empírico por um método
científico, onde cada instrumento e movimento do trabalhador foram previamente
estudados e definidos, de tal forma que o trabalhador, ao fim da jornada diária
conseguisse atingir maior produção e menor fadiga; a eliminação do critério individual
de produção de cada trabalhador por critérios aferidos através de experimentos. A
partir de então o trabalhador não mais escolheria o método e as ferramentas que
achassem mais adequados. Haveria uma seleção e aperfeiçoamento científico do
trabalhador, que é estudado, instruído, e treinado para realização de cada tarefa;
havendo uma cooperação da administração com os trabalhadores, juntos
desenvolvem o trabalho de acordo com as leis científicas, ao invés de deixar a
resolução de cada problema a critério individual do trabalhador.
Taylor acreditava que ao entregar ao trabalhador uma tarefa diária, na qual já
se definida o tempo para realização de cada etapa, deixaria este trabalhador mais
satisfeito, por proporcionar a ele no curso do dia apreciar seu próprio progresso. Para
obter a colaboração dos funcionários, foram estabelecidos remuneração e prêmios
extras. A produção individual, até o nível de 100% de eficiência no tempo padrão
(tempo médio que um operário leva para executar as tarefas), era remunerada
conforme o número de peças produzidas. Acima dessa porcentagem, a remuneração
por pela seria acrescida de um prêmio de produtividade ou incentivo salarial, que
aumentava à medida que a eficiência do operário era elevada, ou seja, quando o
trabalhador consegue realizar a tarefa determinada dentro do tempo-limite
especificado, ele recebe um aumento de 30 a 100% do seu salário habitual.
Além de racionalizar o trabalho do operário, Taylor tentou mudar o
comportamento dos supervisores, chefes, gerentes e diretores que ainda trabalhavam
nos velhos padrões, criando, assim, a Administração Científica, que foi rapidamente
aplicada na indústria americana, estendendo-se a todos os países e campos de
atividades.
Quando foi funcionário na Bethlehem Steel Works, estando com mais ou
menos três anos de trabalho na empresa, Taylor conseguiu realizar com apenas 140
homens o que antes de seus métodos era realizado somente por um total de 400 a
600 homens. Conseguindo também uma redução da utilização de material e das
ferramentas. Mesmo pagando gratificação pelos trabalhos realizados pelos
funcionários, Taylor conseguiu fazer com que fosse poupada a quantia de 78.000
dólares por ano na empresa. A quebra de máquinas provocada por ação deliberada ou
por descuido dos operários também chegou ao fim quando Taylor propôs que se
descontasse no salário do responsável pela máquina cada dano que a ela ocorresse.
Taylor, por ter sido um grande observador, e trabalhado em funções das mais
simples até os cargos mais altos dentro de uma empresa, conhecia o universo do
trabalho e do trabalhador. Toda sua teoria foi construída em cima da observação
dessa vivência, levando em conta a necessidade dos trabalhadores, porém
enxergando suas mazelas que resultava em danos para toda a sociedade.
Durante os três anos que ficou no cargo de contramestre Taylor conseguiu que
a produção da fábrica dobrasse, sendo, em função disto, promovido. Através dos
métodos adotados por Taylor tornou-se possível salários mais altos aos funcionários,
melhor rentabilidade ao capitalista e produtos acabados com preços mais acessíveis
aos consumidores já que houve um grande aumento de produtividade.
Com Taylor, pela primeira vez na História, o trabalho que anteriormente era
negligenciado passa a merecer uma atenção sistemática em seus mínimos detalhes.
Ele cria um método científico de organização do trabalho e sua técnica se disseminou
pelas indústrias do mundo todo. Com aplicação ampla, seus princípios ultrapassaram
as fronteiras e penetraram em todo o mundo do trabalho de forma geral, inclusive na
União Soviética e tal era a pretensão de Taylor, quando publicou Princípios de
Administração Científica (1976):
Os exemplos escolhidos são de tal ordem que, é de acreditar-se,
interessam a engenheiros e diretores de empresas industriais e
manufatureiras, como também a todos os que nelas trabalhem. Esperamos,
contudo, ter deixado claro que os mesmos princípios, com resultados iguais,
podem ser aplicados em qualquer atividade social: na direção de nossos
lares, na gerencia de nossas fazendas, na administração de nossas casas
comerciais, grades e pequenas, na administração de igrejas, de institutos
filantrópicos, de universidades e de serviços públicos. (TAYLOR, 1976, p.
28)
AS CRITÍCAS AO TAYLORISMO
A obra Princípios de Administração Científica (1976) de Taylor, quando foi
publicada, já era alvo de muitas críticas, tanto em relação ao sistema administrativo,
quanto aos métodos de produção propostos. Isso fica claro quando vemos na obra
dois capítulos dedicados ao tema: “Críticas ao Sistema” e “Respostas as Criticas ao
Sistema”. Podemos dizer que o taylorismo até hoje é mal interpretado e distorcido, por
uma visão equivocada de um dos acontecimentos mais marcantes para mudança de
vida do homem que foi a revolução da produtividade.
Poucas figuras na história intelectual tiveram o impacto de Taylor – e tão
poucas foram tão obstinadamente mal compreendidas ou citadas
erroneamente com tanta freqüência. Em parte, Taylor sofreu porque a
História provou que ele estava certo e os intelectuais errados. (DRUCKER,
2002, p. 15)
Peter Drucker acreditava que a reputação de Taylor sofreu porque ele ousou
aplicar o conhecimento ao estudo do trabalho, o que era um anátema para os
sindicatos de seu tempo. Estes sindicatos então trataram de promover uma gigantesca
campanha para retirar da História Americana a grandeza da obra de Taylor. O
discurso de Taylor de que não havia trabalho qualificado em operações manuais,
mas apenas trabalho, e que todo ele pode ser analisado, criando-se a melhor forma
de produzir, com tempo pré-determinado e as ferramentas adequadas, foi considerado
um discurso quase que criminoso.
Nos sindicatos de trabalhadores americanos que congregavam os
empregados da indústria bélica, por exemplo, seus membros eram uma espécie de
dos donos dos saberes, tinham o monopólio do conhecimento de cada arte. Impunham
um período de aprendizado que exigia de cinco a sete anos de seus aprendizes e não
tinham um treinamento sistemático, nem estudo do trabalho. Não era permitido a
esses aprendizes que anotassem nada do que viam e tudo que aprendessem deveria
ser mantido em sigilo. Imagine em tal contexto o que Taylor, que criara uma teoria do
gerenciamento científico da produção, teve que enfrentar ao publicar seus estudos.
Mas os sindicatos mais respeitados e poderosos na América de Taylor eram
aqueles dos arsenais e estaleiros estatais que, antes da Primeira Guerra
Mundial, centralizavam toda a produção de defesa em tempo de paz. Esses
sindicatos eram monopólios de artesanato: a participação neles era restrita
a filhos e parentes dos membros. Eles exigiam um aprendizado de cinco a
sete anos, mas não tinham treinamento sistemático, nem estudo do
trabalho. Não era permitido anotar nada; não havia nem mesmo plantas ou
outros desenho do trabalho a ser feito. Os membros tinham que jurar
segredo e não podiam discutir seu trabalho com não membros. A afirmação
de Taylor, de que o trabalho podia ser estudado, analisado e dividido em
uma série de movimentos repetitivos simples _ cada um dos quais devia ser
executado de uma maneira certa, no seu melhor tempo e com suas
ferramentas corretas _ era de fato um ataque frontal aos sindicatos.
(DRUCKER, 2002, p. 16).
Taylor foi atacado pelos dois lados: por parte dos trabalhadores através dos
seus sindicatos e por parte dos industriais, através que suas organizações. Os
trabalhadores por acreditarem que Taylor baratearia seus trabalhos e os industriais,
que chegavam a acusá-lo de socialista, chamando-o de “o criador de casos”, por
propor Taylor, que os lucros obtidos com a Gerência Científica devessem ser
repassados aos operários.
Os críticos argumentam que os princípios de super especialização do
taylorismo foram criados para robotizar o operário, fazendo-o perder a liberdade e a
iniciativa de estabelecer sua própria maneira de trabalhar e permitindo encará-lo como
a manifestação concreta do tempo ao ser transformado em mercadoria. A revolução
da produtividade de Taylor seria, para seus críticos, a forma de roubar dos
trabalhadores o pouco que liberdade que sobrevivera à Revolução Industrial. Em uma
frase seria “o sistema que paga para que os trabalhadores não pensem”. Observamos
o que diz Moraes Neto (1991), que é um acadêmico que faz moderadas críticas ao
gerenciamento científico.
O taylorismo tem um poderoso lado perverso: com a simplificação das
tarefas, em questão de dias ou de horas um novo operário não-qualificado é
capaz de dar conta da tarefa - e por que não com um salário mais baixo?
Com a apropriação do saber operário, ele cria a sujeição do trabalhador aos
ditames do planejador, já não competindo àquele discutir o mérito das
ordens por este emitidas. Organizar, agora, é controlar e vigiar até mesmo
os mínimos detalhes da execução da tarefa, determinando o que e como
fazer em um curto espaço de tempo. Segundo Taylor, a vantagem do
método é que ele “beneficia” os mais produtivos e “pune” os indolentes.
(MORAES NETO, 1991, p. 42)
Uma questão que chama atenção é a crítica dos intelectuais de ciências
humanas e de ciências sociais aplicadas em relação à cobrança pela produtividade
que os donos dos meios de produção fazem aos funcionários. Quando pagamos por
algum bem ou serviço esperamos que ele seja feito da melhor forma e com o preço
mais acessível possível. É a mais pura e antiga certeza nas relações de troca. Por que
nas relações trabalhistas isso deveria proceder de maneira diferente? O dono dos
meios de produção compra o tempo do trabalhador e tem o direito, como qualquer
consumidor, de cobrar por melhores serviços e por maior produtividade.
Taylor não tornou o homem um escravo irracional da máquina, apenas mostrou
que era possível que um mesmo funcionário, com a mesma força e o mesmo tempo,
multiplicasse sua capacidade de produção. E fez isso melhorando as condições de
trabalho dos funcionários. Estudou as melhores ferramentas, métodos menos
danosos, posturas adequadas e os tempos de descanso necessários.
O filósofo norte-americano, Marshall Berman (1986), em seu livro Tudo que é
sólido desmancha no ar, expõe a seguinte crítica sobre o trabalho no mundo
capitalista:
Na mesma instância em que a humanidade domina a natureza, o homem
parece escravizar-se a outros homens ou à sua própria infâmia. Até a pura
luz da ciência parece incapaz de brilhar senão no escuro pano de fundo da
ignorância. Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar de vida
intelectual às forças materiais, estupidificando a vida humana ao nível da
força material. (MARSHALL, 1986, p.19)
Frederick Winslow Taylor foi responsável por uma grande mudança na História
e o resultado de seus estudos foi responsável por gerar um grande aumento no lucro
das empresas onde seu método vigorou, mas graças a esse grande aumento na
produtividade, ele também foi responsável pela melhoria das condições de vida dos
trabalhadores. Os maiores beneficiados, como consequência deste aprimoramento da
produtividade, são os consumidores, que passaram a ter acesso à compra de bens,
anteriormente, sem a menor possibilidade de preços tão acessíveis.
Os teóricos da área de Administração também criticam a Teoria de Taylor
afirmando que a mesma é incompleta, por julgá-la um método de robotização do
trabalhador. Alegam que o taylorismo vê os trabalhadores apenas como uma máquina
e não como um ser psicossocial. Mas, apesar de todas essas acusações, podemos
ver até muitas e diferentes teorias administrativas hoje adotadas em todo mundo,
porém, a base é sempre os princípios do taylorismo.
CONCLUSÃO
À guisa de conclusão, podemos afirmar que o Taylorismo consiste num
conjunto de medidas que se focalizavam em: 1) o combate do desperdício de tempo
de trabalho dentro da fábrica; 2) a eficiência produtiva através de movimentos e
ferramentas adequadas e; 3) a erradicação da vadiagem e do vandalismo dentro das
unidades fabris.
Podemos afirmar também que essas mudanças de procedimentos resultaram
numa fantástica situação em que se tornou possível o aumento da produção e da
produtividade do trabalho, possibilitando melhor remuneração aos trabalhadores,
melhor remuneração do capital e produtos com preços significativamente mais baixos
e com melhor qualidade oferecidos no mercado. Com esses resultados positivos
poderíamos concluir que Frederic Winslow Taylor se tornara um homem admirado e
aclamado pelos intelectuais devido às facilidades com que suas teses passaram do
âmbito da ciência pura para a aplicação nas fábricas propiciando grandes benefícios
para a humanidade. Mas, não foi o que efetivamente ocorreu.
A despeito de todos os resultados positivos de seus métodos, Taylor foi um dos
homens mais odiados pelos intelectuais do século XX. Mas a que se deve essa
animosidade intelectual contra ele? Talvez ao próprio alcance de suas teses.
Indiscutivelmente, ocorreram grandes ganhos à humanidade, mas essa vitória real
implicou na derrubada da grande tese da literatura marxista. O Taylorismo solapou as
bases da luta de classes: patrões e empregados não estavam, de acordo com os
novos métodos de gerenciamento da produção, em uma luta que inevitavelmente
resultaria na eliminação dos primeiros: donos da força de trabalho e donos dos meios
de produção espantosamente tinham interesses convergentes.
Taylor era um homem muito simples e, provavelmente, não tenha tido tempo
para estudar os longos textos de Karl Marx sobre mais-valia e luta de classes. Despido
de um referencial teórico que só via saída para os conflitos sociais na revolução
socialista, procurou fazer as coisas da forma em que as percebiam no seu dia-a-dia no
chão de fábrica. Atuou tenazmente para reduzir os obstáculos que impediam um
aumento da produtividade do trabalhador e, consequentemente, da produção como
um todo.
Ao observar que existiam nas fábricas ações deliberadas, por parte dos
operários, para produzir menos do que se poderia, Taylor procurou fazer com que os
procedimentos de trabalho fossem organizados cientificamente de forma que
impedissem a prática de cera no trabalho. Com métodos apropriados para gerenciar a
produção, os patrões poderiam controlar o trabalho dos operários dentro das fábricas.
Eram medidas simples que tiravam o controle da produção por parte dos
trabalhadores, que até então agiam de forma coorporativa para produzir muito menos
do que era possível.
Como já demonstramos ao longo do texto, as mudanças operacionalizadas por
Taylor se tratavam de coisas simples que possibilitaram um incremento significativo na
produtividade de cada trabalhador. Ao aumentar significativamente a produtividade
acabou por realizar uma revolução na produção, a Revolução da Produtividade,
lançando para a classe operária a possibilidade de ter de fato os ganhos econômicos
que eram prometidos pelo socialismo, sem que houvesse necessidade da realização
de uma revolução que romperia com o status quo da sociedade da sociedade
capitalista.
A revolução socialista prometia acabar com a mais-valia e aumentar o
rendimento do trabalhador, uma vez que todo resultado de seu trabalho estaria à
disposição de quem, em tese, era o verdadeiro dono da produção. Com o taylorismo
seria possível duplicar o valor dos salários sem os desgastes e os traumas de uma
guerra civil. Podemos dizer que aquilo que a concepção marxista apontava como
inevitável, a destruição violenta da burguesia, tornou-se evitável na medida em que
houve um esfriamento nas tensões entre burguesia e proletariado.
Marx (1993) afirmava que o desenvolvimento das forças produtivas conduziria
ao acirramento da luta de classes, na medida em que os ricos ficavam cada vez mais
ricos e em número cada vez menor, enquanto que os pobres se tornariam cada vez
mais pobres e em número cada vez maior. Portanto, quanto mais aprofundassem as
relações capitalistas mais se tornaria iminente a eclosão da revolução socialista. No
entanto, os países que mais se desenvolveram, e que aprimoraram seus métodos de
produção, não viveram clima de erupção social. Inglaterra e Estados Unidos, por
exemplo, nunca estiveram em vias de cumprir as profecias de Marx.
Obviamente, o desenvolvimento das forças produtivas com a aplicação dos
princípios de gerenciamento científico, elaborados por Taylor, conduziu as economias
dos países desenvolvidos a outras situações: a classe operária tornou-se mais
abastada com a duplicação do valor dos salários e com a melhora das condições de
trabalho. O aumento da produtividade proporcionou também maior rentabilidade para
os patrões e redução do preço final dos produtos aos consumidores. Em suma, o
Taylorismo em certa medida desarmou uma espécie de bomba revolucionária a ser
acionada pela luta de classes preconizada pelo marxismo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Letras, 1986.
BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista. Rio de Janeiro: Zahar Editores,
1981.
CHIAVENATO. Introdução à Teoria Geral da Administração. São Paulo: McGraw-Hill
do Brasil, 1983.
DRUCKER, Peter. Sociedade pós-capitalista. São Paulo: Pioneira, 2002.
HICKS, John. Uma teoria de Histórica Econômica. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.
LANDES, David L. Prometeu desacorrentado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
MARX, Karl. O capital: crítica de economia política. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural,
1988 (Os economistas).
_________. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Lisboa: Avante, 1993.
MARX, K. & ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: IEA, 1987.
MORAES NETO, Benedito Rodrigues de. Marx, Taylor e Ford: As forças produtivas
em discussão. São Paulo: Brasiliense, 1991.
MOTA, Carlos Guilherme. História Moderna e Contemporânea. São Paulo: Moderna,
1986.
TAYLOR, Frederick Winslow. Princípios de Administração Científica. 7º edição. São
Paulo: Atlas, 1976.
FONTES E REFERENCIAIS PARA ESTUDOS TEMÁTICOS
Escreva um texto explicando porque para Taylor a relação entre empresários e
trabalhadores não é contraditória.
Escreva um texto explicando os motivos pelos quais as teorias de Taylor
propondo seu novo método de produção foram adotadas em grande parte dos países.
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