http://veja.abril.com.br/220709/voces-nao-entendem-china-p-017.shtml
REVISTA VEJA - Edição 2122 / 22 de julho de 2009
Entrevista XINRAN XUE
"Vocês não entendem a China"
A escritora que criou um programa de rádio para mostrar os problemas das mulheres chinesas diz que o mundo critica seu país sem levar em conta suas raízes culturais
Thaís Oyama
Ernani d’Almeida
"Os ocidentais cometem o mesmo erro do governo chinês: acham que é só modernizar as ruas para modernizar o país"
Por quase uma década, Xinran Xue, hoje com 51 anos, recebeu mais de uma centena de cartas tristes por dia. Apresentadora de um programa de rádio voltado para mulheres, ela tornou-se depositária de ouvintes que lhe confiaram suas pequenas e grandes tragédias – abafadas, quando não provocadas, pelos anos de totalitarismo comunista. Algumas dessas experiências, Xinran havia sofrido na própria pele: seus pais foram presos durante a Revolução Cultural e ela passou a infância num quartel da Guarda Vermelha. Em 2002, publicou seu primeiro livro: As Boas Mulheres da China (lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras), que reúne histórias que não puderam ir ao ar e outras que ela colheu em entrevistas – sempre feitas com uma única unha pintada de vermelho. "As chinesas não gostam de falar de sua vida. Mas são curiosas, e a unha vermelha sempre inicia uma conversa", explica. De passagem pelo Brasil, Xinran falou a VEJA.
Para escrever seu mais recente livro, Testemunhas da China, a senhora esteve diversas vezes na província de Xinjiang, onde quase 200 pessoas morreram nas últimas semanas em decorrência de conflitos étnicos. Como é a convivência entre os han (etnia majoritária na China) e os uigures (etnia majoritária em Xinjiang)? Atualmente, há muitos casais han-uigur, como resultado da política de governo que estimulou a migração de chineses han para a região. Mas as duas etnias são culturalmente muito diferentes. Os uigures sentem-se mais identificados com os muçulmanos dos países vizinhos do que com o resto da China. Têm uma mentalidade tribal, enquanto os han estão mais conectados à família. Honestamente, nós não os entendemos muito bem. Acho que nunca tentamos. É um pouco parecido com a maneira como o Ocidente enxerga o Oriente.
"Pergunte a um japonês se ele pode questionar o imperador ou a um sul-coreano se a filha pode contrariar o pai. Também na China há aspectos que não são políticos, mas culturais"
Não seria a maneira como o Ocidente enxerga a China? Não estou falando só da China. Acho que há desconhecimento também em relação ao Japão, à Coreia do Sul, a Cingapura, à Malásia – lugares que têm as mesmas raízes culturais que a China. Ainda que em países como o Japão e a Coreia do Sul você enxergue um verniz ocidental, se você entrar nas casas dos japoneses e dos coreanos, verá que não existe igualdade de direitos entre homens e mulheres e que eles não assimilaram preceitos democráticos.
Pergunte a um japonês se é possível questionar o imperador. Pergunte a um sul-coreano se uma filha pode contrariar o pai. Pergunte em Cingapura se alguém pode contestar o governo. Também no regime chinês, há aspectos que não são políticos, mas culturais.
Mas em nenhum desses países tais comportamentos implicam as consequências que têm na China. Concordo. Não existe liberdade de religião na China, não existe liberdade de expressão, não existe liberdade de imprensa. Nosso sistema jurídico está longe de ser independente e os direitos individuais mais básicos são desrespeitados. Mas não se pode esquecer que a China perdeu 100 anos por causa da guerra civil e do ideário comunista. Não podemos simplificar a história. Quando vemos uma árvore cujas folhas estão machucadas e cujos galhos estão doentes, não basta dizer: vamos limpar as folhas e os galhos. É preciso lembrar que essa árvore tem raízes, ainda que não possamos vê-las. É preciso tempo para que as coisas mudem.
A senhora quer dizer que é cedo demais para que a democracia chegue à China? Vou repetir uma lição que recebi de uma camponesa de Hunan, região onde nasceu Mao Tsé-tung. Entrevistei-a em 1995, quando já era jornalista, achava que sabia tudo, mas na verdade era ainda muito ingênua. A mulher trabalhava num campo de arroz. Perguntei a ela o que escolheria se eu lhe oferecesse três coisas: liberdade e democracia; marido e filhos; ou terra e dinheiro. Ela me olhou como quem diz: "Ah, você está tentando me enganar!". Respondeu que terra e dinheiro pertencem aos homens, não às mulheres. Sobre marido e filhos, disse: "Marido é quem manda em tudo e os filhos são a minha rotina", querendo dizer que aquilo ela já tinha. Então, perguntou: "Mas quanto é a garrafa de liberdade?". Eu fiquei atônita: "Como assim?". Ela repetiu: "Quanto custa essa garrafa de óleo que você quer vender?". Foi aí que eu entendi: em chinês, a pronúncia da palavra óleo (you) é muito parecida com a de liberdade (ziyou). Ela achou que eu estava querendo lhe vender óleo.
Quando ela entendeu que a senhora se referia a liberdade, o que achou da oferta? Mas ela não entendia essa palavra! Eu tive de explicar-lhe o que era e o fiz da forma que considerei mais simples. Disse algo como: "Bem, liberdade é você ter o direito de contrariar o seu marido quando você acha que ele fez algo errado. Liberdade é você ter o direito de dizer: ‘Eu quero algo para mim, não para o meu marido ou para os meus filhos – um vestido bonito, uma comida gostosa ou um dia de descanso’". Achei que, colocando desse modo, ela fosse entender. Em vez disso, olhou para mim e respondeu: "Que mulher tola você é! Isso não existe". Eu falei sobre liberdade, que é uma palavra muito mais fácil. Imagine se eu tivesse
falado sobre democracia...
Dito assim, parece que a democracia é algo que o Ocidente tenta impingir aos chineses, sem que eles queiram. Não, não. Eu concordo totalmente com a ideia ocidental de liberdade e democracia e sei que nós precisamos disso. Mas a questão é que há trinta anos esse conceito não existia na China. Os atuais governantes não foram educados à luz desse conceito. O mesmo se pode dizer dos professores. É ainda muito recente a geração de professores que aprendeu inglês e, portanto, tem acesso a pontos de vista do Ocidente. Acredito que, às vezes, os ocidentais cometem o mesmo erro que os governantes chineses, que pensam que basta modernizar as ruas para modernizar o país.
"A Guarda Vermelha entrou em casa e fez uma fogueira com tudo o que dizia ser ‘reacionário’: livros, brinquedos e até minhas tranças, ‘um penteado burguês’. A guarda cortou-as e jogou-as no fogo"
A senhora mora desde 1997 na Inglaterra. Não tem problemas para entrar na China? Tenho muitos problemas. Recentemente, eles deram um visto de dois anos a meu marido, que é inglês, e negaram o visto para mim. Isso me doeu muito. Quando finalmente consegui o visto, em novembro do ano passado, uma oficial chinesa tentou me barrar na alfândega. Ela abriu meu passaporte e disse: "Por que você é contra a China? Eu vi você na BBC, e a BBC odeia a China". Eu lhe perguntei se havia entendido o que eu dissera na TV e ela respondeu que isso não importava: o que importava é que eu não deveria ter falado com pessoas que odeiam a China.
A senhora resolveu deixar seu país num momento em que apresentava um programa de rádio de enorme sucesso, no qual era permitido que centenas de chinesas falassem pela primeira vez de seus problemas. O que motivou a decisão? Ouvir aquelas mulheres e acompanhar o desenrolar de suas histórias, muitas vezes trágico, deixou-me emocionalmente exaurida. Fiquei doente, tinha de tomar remédios para dormir. Os telefonemas, os relatos de abusos, os suicídios, as cartas de suicídio que elas deixavam para mim... Eu me sentia tão impotente! Ainda tenho aquelas vozes na minha cabeça. Aqui no Brasil, encenaram capítulos do meu livro As Boas Mulheres da China. Apesar de as atrizes falarem em português, uma língua que não entendo, o que eu ouvia eram as mulheres chinesas chorando. Isso me aniquila. Sei que é porque eu misturo o sofrimento delas com a minha própria história. Diante da encenação, não consegui me controlar. Normalmente, consigo – ao menos durante o dia. Mas, à noite, os pesadelos voltam.
Que tipo de pesadelo a atormenta? São tantos... Durante a Revolução Cultural, meus pais foram presos, acusados de ser capitalistas porque haviam trabalhado com estrangeiros e falavam inglês. Os guardas vermelhos entraram em casa e fizeram uma fogueira com tudo o que diziam ser "reacionário" ou "burguês": livros do meu pai, meus brinquedos e até minhas tranças. Eu usava duas tranças, amarradas com fitas. A guarda gritou que era um penteado burguês. Cortou-as e jogou-as no fogo também. Depois disso, fui levada, com meu irmão mais novo, para um quartel da Guarda Vermelha. Vivi lá por seis anos e meio. Como nossos pais eram considerados reacionários, éramos chamados de "crianças negras" e não podíamos brincar com as outras. Dormíamos no chão. Muitas noites, os guardas vinham, no escuro, pegavam uma criança e a levavam para o quarto ao lado. Era a hora dos abusos, dos espancamentos... Eu ouvia o choro e os gritos e ficava tão assustada que meu corpo todo tremia. A cada noite eu achava que seria a minha vez. Era aterrorizante. Acho que escapei porque era muito pequena. Até hoje, quando meu marido está viajando, não durmo sem colocar minha bolsa, minhas chaves, tíquetes de avião, qualquer coisa assim, ao lado da cama. Faço isso para não entrar em pânico quando acordar no meio da noite – para lembrar que não estou mais lá e quem eu sou agora. Não consigo me livrar disso. Procurei psicólogos, mas não funcionou. Acho que eles eram ocidentais demais para me entender.
O que, por exemplo, eles não entendiam? Bem, faz parte do tratamento você falar tudo. E isso eu ainda não consigo. Nem ao meu filho contei tudo o que aconteceu comigo durante a Revolução Cultural.
Por quê? Porque acho que, se eu contar, não terei mais condição de continuar vivendo.
Seu irmão passou pela mesma experiência na infância. Como ele vive hoje? Sinto que ele desistiu de tudo. Vive em Pequim, não tem confiança nele, não faz nada. Sei que sofre muito, embora não fale. Nunca mais o vi chorar desde aquele episódio do frango. (Ela relata a história em seu primeiro livro: o irmão tinha pouco mais de 2 anos quando, por ocasião de uma celebração nacional, serviram frango assado no quartel da Guarda Vermelha em que ambos viviam. Ao ver os outros comendo, o irmão começou a chorar, gritando que também queria. Alguém, furtivamente, deu-lhe um pedaço, mas um guarda viu a cena, arrancou a carne das suas mãos, atirou-a ao chão e pisoteou-a. Gritou: "Filhotes de cachorros imperialistas não comem frango!")
Seus pais já leram seus livros? Não. E minha mãe nunca perguntou o que aconteceu comigo durante esse período em que ficamos separadas. Não tem coragem, e eu também não tenho. Em 2004, sentamos uma diante da outra durante horas, mas não conseguimos falar sobre isso. Sei que esse silêncio se repete em muitas famílias. E é um dos motivos pelos quais muitos jovens chineses não sabem sequer o que foi a Revolução Cultural.
O regime comunista de Mao Tsé-tung teve efeitos devastadores na vida de muitas pessoas, como a senhora. E na China, que marcas ele deixou? Acho que a China, hoje, é como um quadro de Picasso: tem nariz, olhos, boca, mas tudo está fora do lugar. Ficou isolada por tanto tempo e, agora, tudo está surgindo de uma vez. Talvez uma resposta melhor seja esta: antes dos anos 80, a China era um garoto sujo e esfomeado. Nunca teve a chance de tomar um banho quente, de vestir uma roupa limpa, de forrar o estômago. Se você oferece a esse menino, em uma mão, um pão duro e velho, e na outra mão, um cardápio com nomes de pratos desconhecidos e maravilhosos, qual dos dois ele vai preferir?
O primeiro? Certamente. Ele está faminto! O cardápio pode ter comidas deliciosas, mas ele não entende o que está escrito lá e não consegue esperar para que aquele papel se transforme em comida. E não adianta alguém dizer que ele tem de comer um prato do cardápio porque é melhor para ele. Antes de dizer isso, as pessoas têm de entender a urgência dos chineses.
domingo, agosto 30, 2009
sábado, agosto 29, 2009
POR DENTRO DO COFRE DO MST
REPOTAGEM DA REVISTA VEJA, Edição 2128 / 2 de setembro de 2009
http://veja.abril.com.br/020909/por-dentro-cofre-mst-p-64.shtml
POR DENTRO DO COFRE DO MST
VEJA teve acesso às movimentações bancárias de quatro entidades
ligadas aos sem-terra. Elas revelam como o governo e organizações
internacionais acabam financiando atividades criminosas do movimento
Policarpo Junior e Sofia Krause
Assertivos do ponto de vista ideológico, os líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra são evasivos quan-do perguntados de onde vêm os recursos que sustentam as invasões de fazendas e manifestações que o MST promove em todo o Brasil. Em geral, respondem que o dinheiro é proveniente de doações de simpatizantes, da colaboração voluntária dos camponeses e da ajuda de organismos humanitários. Mentira. O cofre da organização começa a ser aberto e, dentro dele, já foram encontradas as primeiras provas concretas daquilo de que sempre se desconfiou e que sempre foi negado: o MST é movido por dinheiro, muito dinheiro, captado basicamente nos cofres públicos e junto a entidades internacionais. Em outras palavras, ao ocupar um ministério, invadir uma fazenda, patrocinar um confronto com a polícia, o MST o faz com dinheiro de impostos pagos pelos brasileiros e com o auxílio de estrangeiros que não deveriam imiscuir-se em assuntos do país.
VEJA teve acesso às informações bancárias de quatro organizações não governamentais (ONGs) apontadas como as principais caixas-fortes do MST. A análise dos dados financeiros da Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca), da Confederação das Coo-perativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab), do Centro de Formação e Pesquisas Contestado (Cepatec) e do Instituto Técnico de Estudos Agrários e Cooperativismo (Itac) revela que o MST montou, controla e tem a seu dispor uma gigantesca e intrincada rede de abastecimento e distribuição de recursos, públicos e privados, que transitam por dezenas de ONGs espalhadas pelo Brasil:
• As quatro entidades-cofre receberam 20 milhões de reais em doações do exterior entre 2003 e 2007. A contabilização desses recursos não foi devidamente informada à Receita Federal.
• As quatro entidades-cofre repassaram uma parte considerável do dinheiro a empresas de transporte, gráficas e editoras vinculadas a partidos políticos e ao MST. Há coincidências entre as datas de transferência do dinheiro ao Brasil e as campanhas eleitorais de 2004 e 2006.
• As quatro entidades-cofre receberam 43 milhões de reais em convênios com o governo federal de 2003 a 2007. Existe uma grande concentração de gastos às vésperas de manifestações estridentes do MST.
• As quatro entidades-cofre promovem uma recorrente interação financeira com associações e cooperativas de trabalhadores cujos dirigentes são ligados ao MST.
• As quatro entidades-cofre registram movimentações ban-cárias estranhas, com vul-tosos saques na boca do caixa, indício de tentativa de ocultar desvios de dinheiro.
Entre 2003 e 2008, segundo levantamentos oficiais, cerca de trinta entidades de trabalhadores rurais receberam do governo federal o equivalente a 145 milhões de reais. O dinheiro é repassado em forma de convênios, normalmente para cursos de treinamento. O Tribunal de Contas da União já identificou irregularidades em vários desses cursos. São desvios como cadastros de pessoas que não participaram de aula alguma e despesas que não existiram justificadas com notas frias. A Anca, por exemplo, teve os bens bloqueados pela Justiça após a constatação de que uma parte dos recursos de um convênio milionário assinado com o Ministério da Educação, para alfabetizar jovens, foi parar nos cofres do MST. Teoricamente, a Anca, a Concrab, o Cepatec e o Itac são organizações independentes, sem nenhum vínculo oficial entre si ou com o MST. Mas só teoricamente. A quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico das entidades-cofre mostra que elas fazem parte de um mesmo corpo, são uma coisa só, bem organizada e estruturada para dificultar o rastreamento do dinheiro que recebem e administram sem controle legal algum.
Eis um exemplo da teia que precisa ser vencida para tentar entender como os recursos deixam o cofre da entidade e viajam por caminhos indiretos ao MST. Uma das beneficiárias de repasses da Anca é a gráfica Expressão Popular. Seus sócios são todos ligados ao MST, como Suzana Angélica Paim Figueiredo, advogada do escritório do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, que atua em causas de interesse do MST. Suzana faz parte da banca que defende o terrorista italiano Cesare Battisti, preso no Brasil. A advogada ainda é presidente de uma segunda editora, a Brasil de Fato, que também recebe recursos da Anca, também presta serviços ao MST e tem como conselheiro ninguém menos que João Pedro Stedile, líder-mor do MST, um dos principais defensores da não extradição de Battisti. Anca, Brasil de Fato e MST, embora sem vínculos aparentes, funcionavam no mesmo conjunto de salas em São Paulo. Procurada, a advogada Suzana não quis esclarecer que tipo de serviço as gráficas prestaram à Anca. Indagadas, o máximo que as três entidades admitem é que existe uma parceria entre elas. Essa parceria, ao que tudo indica, serve inclusive para ocultar as atividades do departamento financeiro do movimento sem-terra.
Além de funcionarem nos mesmos endereços, como é o caso da Itac e da Concrab, e de dividirem os mesmos assessores e telefones, como a Anca e a gráfica, as entidades curiosamente recorrem aos mesmos contadores e advogados – eles também, ressalte-se, integrantes de cooperativas ligadas ao MST. A análise dos dados sigilosos revela que Ilton Vieira Flores, o contador da Anca, o cofre principal do MST, é um dos responsáveis pelo Cepatec, outra fonte de arrecadação de dinheiro do movimento. O contador também é diretor da Cooperbio – um excelente exemplo, aliás, de como as ONGs ligadas ao MST se entranharam no governo. A cooperativa, que tem como função intermediar recursos para associações de trabalhadores rurais que se dedicam à fabricação de matéria-prima para a produção de biocombustíveis, assinou convênios milionários com a Petrobras. O presidente da Cooperbio, Romário Rossetto, é primo do presidente da Petrobras Biocombustível, o petista Miguel Rossetto, ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, uma das principais fontes de recursos da Anca, do Cepatec, da Concrab e do Itac.
Há muito que desvendar a respeito do verdadeiro uso pelo MST do dinheiro público e das verbas provenientes do exterior. A Anca, por exemplo, é investigada desde 2005 por suas ligações com o movimento. A quebra do sigilo mostra que funcionários da entidade realizaram saques milionários em dinheiro em datas que coincidem com manifestações promovidas pelo MST e também com períodos eleitorais. Outra coincidência: tabulando os gastos das entidades, resta evidente que parte expressiva dos recursos é destinada a pessoas físicas ou jurídicas vinculadas ao MST. Há também transferências bancárias suspeitíssimas. Em agosto de 2007, 153 000 reais do Cepatec foram parar na conta de Márcia Carvalho Sales, uma vendedora de cosméticos residente na periferia de Brasília. "Não sei do que se trata, não sei o que é Cepatec e não movimento a conta no banco há mais de três anos", diz a comerciária. O Cepatec também não quis se pronunciar.
Para fugir a responsabilidades legais, o MST, embora seja onipresente, não existe juridicamente. Não tem cadastro na Receita Federal, e, portanto, não pode receber verbas oficiais. "Por isso, eles usam essas entidades como fachada", diz o senador Alvaro Dias, do PSDB do Paraná, que presidiu a CPI da Terra há quatro anos e, apesar de quebrar o sigilo das ONGs suspeitas, nunca conseguiu ter acesso aos dados bancários. Aliados históricos do PT, os sem-terra encontraram no governo Lula uma fonte inesgotável de recursos para subsidiar suas atividades. Uma parcela grande dos convênios com as entidades ligadas ao MST destina-se, no papel, à qualificação de mão de obra. Mas é quase impossível averiguar se esse é mesmo o fim da dinheirama. "Hoje o MST só sobrevive para parasitar o estado e conseguir meios para se sustentar", diz o historiador Marco Antonio Villa.
O MST sempre utilizou o enfrentamento como peça de marketing do movimento. No governo passado, os sem-terra chegaram a organizar uma marcha que reuniu 100 000 pessoas em um protesto em Brasília, além de invadirem a fazenda do presidente da República com direito a transmissão televisiva. No governo Lula, a relação começou tensa, mas foi se acalmando à medida que aumentavam os repasses de dinheiro e pessoas ligadas ao movimento eram nomeadas para chefiar os escritórios regionais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O MST passou, então, a concentrar os ataques à iniciativa privada, especialmente ao agronegócio. Os escritórios do Incra se tornaram suporte para ações contra produtores rurais, muitos deles personagens influentes na base aliada do governo. Além disso, os assentamentos contribuíram para aumentar a taxa de desmatamento e as ONGs ligadas à reforma agrária se tornaram um ralo pelo qual o dinheiro público é desviado. Esse estado de coisas levou à instalação de uma CPI no Senado e, ato contínuo, a um recuo do Planalto nos afagos aos sem-terra. A pretexto da crise econômica mundial, o governo cortou mais de 40% da verba prevista para os programas de reforma agrária. Cedendo à pressão de ruralistas, tirou das mãos do MST o comando de escritórios estratégicos do Incra, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Pernambuco, e colocou no lugar pessoas indicadas por ruralistas. Por fim, o golpe mais dolorido: fechou a milionária torneira dos convênios.
As ONGs ligadas ao MST chegaram a receber quase 40 milhões de reais em um único ano. No início do governo Lula, em 2003, esses repasses não alcançavam 15 milhões de reais. No ano seguinte, cresceram substancialmente, ultrapassando os 23 milhões de reais. Em 2005, o valor aumentou novamente, atingindo 38 milhões de reais. No segundo mandato, as denúncias de irregularidades envolvendo entidades ligadas aos sem-terra ganharam força. E o dinheiro federal para elas foi minguando. Em 2007, ano de abertura da CPI, os repasses às ONGs ficaram em 28 milhões de reais. No ano passado, as entidades receberam 13 milhões. E, nos oito primeiros meses deste ano, os cofres das ONGs do MST acolheram menos de 7 milhões de reais em convênios com o governo federal. Como reação, a trégua com o governo também minguou. No início de agosto, 3 000 militantes invadiram a sede do Ministério da Fazenda. A ação em Brasília foi comandada pela nova coordenadora nacional do MST, Marina dos Santos, vinculada a setores mais radicais do movimento. No protesto, o MST exigiu o assentamento imediato de famílias que estão acampadas. Nos bastidores, negocia a retomada dos repasses para as ONGs e a recuperação do comando das unidades do Incra. Em conversas reservadas, existem até ameaças de criar problemas para a candidatura presidencial da ministra Dilma Rousseff. O governo Lula agora experimenta o gosto da chantagem de uma organização bandida que cresceu sob seus auspícios.
Com reportagem de Otávio Cabral
http://veja.abril.com.br/020909/por-dentro-cofre-mst-p-64.shtml
POR DENTRO DO COFRE DO MST
VEJA teve acesso às movimentações bancárias de quatro entidades
ligadas aos sem-terra. Elas revelam como o governo e organizações
internacionais acabam financiando atividades criminosas do movimento
Policarpo Junior e Sofia Krause
Assertivos do ponto de vista ideológico, os líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra são evasivos quan-do perguntados de onde vêm os recursos que sustentam as invasões de fazendas e manifestações que o MST promove em todo o Brasil. Em geral, respondem que o dinheiro é proveniente de doações de simpatizantes, da colaboração voluntária dos camponeses e da ajuda de organismos humanitários. Mentira. O cofre da organização começa a ser aberto e, dentro dele, já foram encontradas as primeiras provas concretas daquilo de que sempre se desconfiou e que sempre foi negado: o MST é movido por dinheiro, muito dinheiro, captado basicamente nos cofres públicos e junto a entidades internacionais. Em outras palavras, ao ocupar um ministério, invadir uma fazenda, patrocinar um confronto com a polícia, o MST o faz com dinheiro de impostos pagos pelos brasileiros e com o auxílio de estrangeiros que não deveriam imiscuir-se em assuntos do país.
VEJA teve acesso às informações bancárias de quatro organizações não governamentais (ONGs) apontadas como as principais caixas-fortes do MST. A análise dos dados financeiros da Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca), da Confederação das Coo-perativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab), do Centro de Formação e Pesquisas Contestado (Cepatec) e do Instituto Técnico de Estudos Agrários e Cooperativismo (Itac) revela que o MST montou, controla e tem a seu dispor uma gigantesca e intrincada rede de abastecimento e distribuição de recursos, públicos e privados, que transitam por dezenas de ONGs espalhadas pelo Brasil:
• As quatro entidades-cofre receberam 20 milhões de reais em doações do exterior entre 2003 e 2007. A contabilização desses recursos não foi devidamente informada à Receita Federal.
• As quatro entidades-cofre repassaram uma parte considerável do dinheiro a empresas de transporte, gráficas e editoras vinculadas a partidos políticos e ao MST. Há coincidências entre as datas de transferência do dinheiro ao Brasil e as campanhas eleitorais de 2004 e 2006.
• As quatro entidades-cofre receberam 43 milhões de reais em convênios com o governo federal de 2003 a 2007. Existe uma grande concentração de gastos às vésperas de manifestações estridentes do MST.
• As quatro entidades-cofre promovem uma recorrente interação financeira com associações e cooperativas de trabalhadores cujos dirigentes são ligados ao MST.
• As quatro entidades-cofre registram movimentações ban-cárias estranhas, com vul-tosos saques na boca do caixa, indício de tentativa de ocultar desvios de dinheiro.
Entre 2003 e 2008, segundo levantamentos oficiais, cerca de trinta entidades de trabalhadores rurais receberam do governo federal o equivalente a 145 milhões de reais. O dinheiro é repassado em forma de convênios, normalmente para cursos de treinamento. O Tribunal de Contas da União já identificou irregularidades em vários desses cursos. São desvios como cadastros de pessoas que não participaram de aula alguma e despesas que não existiram justificadas com notas frias. A Anca, por exemplo, teve os bens bloqueados pela Justiça após a constatação de que uma parte dos recursos de um convênio milionário assinado com o Ministério da Educação, para alfabetizar jovens, foi parar nos cofres do MST. Teoricamente, a Anca, a Concrab, o Cepatec e o Itac são organizações independentes, sem nenhum vínculo oficial entre si ou com o MST. Mas só teoricamente. A quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico das entidades-cofre mostra que elas fazem parte de um mesmo corpo, são uma coisa só, bem organizada e estruturada para dificultar o rastreamento do dinheiro que recebem e administram sem controle legal algum.
Eis um exemplo da teia que precisa ser vencida para tentar entender como os recursos deixam o cofre da entidade e viajam por caminhos indiretos ao MST. Uma das beneficiárias de repasses da Anca é a gráfica Expressão Popular. Seus sócios são todos ligados ao MST, como Suzana Angélica Paim Figueiredo, advogada do escritório do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, que atua em causas de interesse do MST. Suzana faz parte da banca que defende o terrorista italiano Cesare Battisti, preso no Brasil. A advogada ainda é presidente de uma segunda editora, a Brasil de Fato, que também recebe recursos da Anca, também presta serviços ao MST e tem como conselheiro ninguém menos que João Pedro Stedile, líder-mor do MST, um dos principais defensores da não extradição de Battisti. Anca, Brasil de Fato e MST, embora sem vínculos aparentes, funcionavam no mesmo conjunto de salas em São Paulo. Procurada, a advogada Suzana não quis esclarecer que tipo de serviço as gráficas prestaram à Anca. Indagadas, o máximo que as três entidades admitem é que existe uma parceria entre elas. Essa parceria, ao que tudo indica, serve inclusive para ocultar as atividades do departamento financeiro do movimento sem-terra.
Além de funcionarem nos mesmos endereços, como é o caso da Itac e da Concrab, e de dividirem os mesmos assessores e telefones, como a Anca e a gráfica, as entidades curiosamente recorrem aos mesmos contadores e advogados – eles também, ressalte-se, integrantes de cooperativas ligadas ao MST. A análise dos dados sigilosos revela que Ilton Vieira Flores, o contador da Anca, o cofre principal do MST, é um dos responsáveis pelo Cepatec, outra fonte de arrecadação de dinheiro do movimento. O contador também é diretor da Cooperbio – um excelente exemplo, aliás, de como as ONGs ligadas ao MST se entranharam no governo. A cooperativa, que tem como função intermediar recursos para associações de trabalhadores rurais que se dedicam à fabricação de matéria-prima para a produção de biocombustíveis, assinou convênios milionários com a Petrobras. O presidente da Cooperbio, Romário Rossetto, é primo do presidente da Petrobras Biocombustível, o petista Miguel Rossetto, ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, uma das principais fontes de recursos da Anca, do Cepatec, da Concrab e do Itac.
Há muito que desvendar a respeito do verdadeiro uso pelo MST do dinheiro público e das verbas provenientes do exterior. A Anca, por exemplo, é investigada desde 2005 por suas ligações com o movimento. A quebra do sigilo mostra que funcionários da entidade realizaram saques milionários em dinheiro em datas que coincidem com manifestações promovidas pelo MST e também com períodos eleitorais. Outra coincidência: tabulando os gastos das entidades, resta evidente que parte expressiva dos recursos é destinada a pessoas físicas ou jurídicas vinculadas ao MST. Há também transferências bancárias suspeitíssimas. Em agosto de 2007, 153 000 reais do Cepatec foram parar na conta de Márcia Carvalho Sales, uma vendedora de cosméticos residente na periferia de Brasília. "Não sei do que se trata, não sei o que é Cepatec e não movimento a conta no banco há mais de três anos", diz a comerciária. O Cepatec também não quis se pronunciar.
Para fugir a responsabilidades legais, o MST, embora seja onipresente, não existe juridicamente. Não tem cadastro na Receita Federal, e, portanto, não pode receber verbas oficiais. "Por isso, eles usam essas entidades como fachada", diz o senador Alvaro Dias, do PSDB do Paraná, que presidiu a CPI da Terra há quatro anos e, apesar de quebrar o sigilo das ONGs suspeitas, nunca conseguiu ter acesso aos dados bancários. Aliados históricos do PT, os sem-terra encontraram no governo Lula uma fonte inesgotável de recursos para subsidiar suas atividades. Uma parcela grande dos convênios com as entidades ligadas ao MST destina-se, no papel, à qualificação de mão de obra. Mas é quase impossível averiguar se esse é mesmo o fim da dinheirama. "Hoje o MST só sobrevive para parasitar o estado e conseguir meios para se sustentar", diz o historiador Marco Antonio Villa.
O MST sempre utilizou o enfrentamento como peça de marketing do movimento. No governo passado, os sem-terra chegaram a organizar uma marcha que reuniu 100 000 pessoas em um protesto em Brasília, além de invadirem a fazenda do presidente da República com direito a transmissão televisiva. No governo Lula, a relação começou tensa, mas foi se acalmando à medida que aumentavam os repasses de dinheiro e pessoas ligadas ao movimento eram nomeadas para chefiar os escritórios regionais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O MST passou, então, a concentrar os ataques à iniciativa privada, especialmente ao agronegócio. Os escritórios do Incra se tornaram suporte para ações contra produtores rurais, muitos deles personagens influentes na base aliada do governo. Além disso, os assentamentos contribuíram para aumentar a taxa de desmatamento e as ONGs ligadas à reforma agrária se tornaram um ralo pelo qual o dinheiro público é desviado. Esse estado de coisas levou à instalação de uma CPI no Senado e, ato contínuo, a um recuo do Planalto nos afagos aos sem-terra. A pretexto da crise econômica mundial, o governo cortou mais de 40% da verba prevista para os programas de reforma agrária. Cedendo à pressão de ruralistas, tirou das mãos do MST o comando de escritórios estratégicos do Incra, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Pernambuco, e colocou no lugar pessoas indicadas por ruralistas. Por fim, o golpe mais dolorido: fechou a milionária torneira dos convênios.
As ONGs ligadas ao MST chegaram a receber quase 40 milhões de reais em um único ano. No início do governo Lula, em 2003, esses repasses não alcançavam 15 milhões de reais. No ano seguinte, cresceram substancialmente, ultrapassando os 23 milhões de reais. Em 2005, o valor aumentou novamente, atingindo 38 milhões de reais. No segundo mandato, as denúncias de irregularidades envolvendo entidades ligadas aos sem-terra ganharam força. E o dinheiro federal para elas foi minguando. Em 2007, ano de abertura da CPI, os repasses às ONGs ficaram em 28 milhões de reais. No ano passado, as entidades receberam 13 milhões. E, nos oito primeiros meses deste ano, os cofres das ONGs do MST acolheram menos de 7 milhões de reais em convênios com o governo federal. Como reação, a trégua com o governo também minguou. No início de agosto, 3 000 militantes invadiram a sede do Ministério da Fazenda. A ação em Brasília foi comandada pela nova coordenadora nacional do MST, Marina dos Santos, vinculada a setores mais radicais do movimento. No protesto, o MST exigiu o assentamento imediato de famílias que estão acampadas. Nos bastidores, negocia a retomada dos repasses para as ONGs e a recuperação do comando das unidades do Incra. Em conversas reservadas, existem até ameaças de criar problemas para a candidatura presidencial da ministra Dilma Rousseff. O governo Lula agora experimenta o gosto da chantagem de uma organização bandida que cresceu sob seus auspícios.
Com reportagem de Otávio Cabral
quinta-feira, agosto 20, 2009
CAIO PRADO JÚNIOR: A CONSTRUÇÃO DE UM MITO.
Claudinei Magno Magre Mendes (UNESP – C. de Assis)
INTRODUÇÃO
Criou-se um mito em torno de Caio Prado Júnior. Os anos 80 podem ser assinalados como o início desse processo, embora seus contornos definitivos tenham surgido apenas na década de 90, quando o autor passou a ser caracterizado, de maneira hegemônica, como revolucionário. É interessante observar que, até então, ele não havia sido objeto de estudos e que, quando foi caracterizado, isso se verificou nas polêmicas travadas, principalmente, no interior do Partido Comunista. Foi somente a partir da década de 80 e, particularmente, da seguinte que ele tornou objeto de estudo, vindo a predominar sua caracterização como autor revolucionário. Antes disso, temos notícia de apenas dois autores que o analisaram com mais vagar, mesmo ele não sendo o tema central dos estudos: Dante Moreira Leite, em O caráter nacional brasileiro, tese defendida em 1954 e publicada, com modificações, em 1969, e Carlos Guilherme Mota, em Ideologia da cultura brasileira (1977).
É verdade que sua biografia presta-se bastante a esse propósito. Membro de tradicional família de São Paulo ligada à cafeicultura e com grande participação na vida política brasileira, teve uma educação em tudo parecida com a dos membros de sua classe. Estudou em casa com professores particulares, depois, no Colégio São Luís e, em 1923, foi à Inglaterra, onde, em Londres, frequentou o Chelmsford College de Eastborn. Formou-se pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (1924-1928), desenvolvendo no período uma grande atividade política. Ingressou no Partido Democrático em 1928. Ainda como membro desse partido, apoiou a candidatura de Getúlio Vargas: foi preso por lhe dar vivas em uma recepção ao candidato oficial, Júlio Prestes. Desiludiu-se, todavia, com os rumos tomados pela Revolução Liberal e, em uma atitude que é considerada como sua grande travessia ou ruptura radical, rompeu com sua classe, abraçando a causa revolucionária (FERNANDES, 1991; REIS, 1999, p. 173-174). Filiou-se, em 1931, ao Partido Comunista Brasileiro e se tornou marxista. Em 1933, com 26 anos, fez uma viagem à União Soviética, experiência que resultou na obra URSS, um novo mundo, publicada no ano seguinte. Ainda em 1933, publicou Evolução Política do Brasil, livro considerado um marco na historiografia brasileira pelo fato de, pela primeira vez, introduzir as classes sociais e seus conflitos em uma interpretação da história do Brasil (MOTA, 1977, p. 28). Tornou-se, de acordo com a historiografia, um intelectual orgânico da classe operária, valendo-se do instrumental teórico marxista de maneira criativa, isto é, adaptando-o às condições particulares do Brasil (RICUPERO, 2000, p. 58) Foi um dos fundadores da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), em 1934 (SEABRA, 2008, p. 18). No ano seguinte, participou da Aliança Nacional Libertadora (ANL), como vice-presidente da secção de São Paulo (IUMATTI, 2007, p. 31). Produziu uma vasta obra, transitando por vários campos do conhecimento (história, economia, filosofia) e lançando as bases, na opinião dos estudiosos, para a compreensão da história do Brasil com o livro Formação do Brasil contemporâneo, publicado em 1942. Foi preso diversas vezes e viveu no exílio. Eleito deputado estadual pelo Partido Comunista, em 1947, foi cassado no ano seguinte. Fundou uma editora, a Brasiliense, em 1943, e uma revista, a Revista Brasiliense, em 1955. Além disso, ao longo da sua trajetória política, foi um crítico do Partido Comunista Brasileiro e da sua interpretação da história do Brasil. Apesar disso, não rompeu com o partido, nele permanecendo como militante disciplinado.
Como se pode verificar, sua biografia tem os componentes necessários para, além de se tornar nome de destaque no cenário intelectual e político do Brasil, ser caracterizado como autor revolucionário. Entretanto, ainda que sua história de vida forneça elementos para tal, não pode, evidentemente, explicá-la. Isso constituiria uma simplificação, já que a explicação não se encontra no autor, mas, na historiografia que assim o caracterizou. Por conseguinte, o foco não deve incidir sobre ele, mas, fundamentalmente, sobre as condições históricas e políticas que deu origem a esse modo de concebê-lo. Em outras palavras, a atenção deve estar voltada para a historiografia e para as questões políticas que lhe dizem respeito.
Para explicar esse processo de mitificação dividimos nossa análise em duas partes. Na primeira parte, examinamos e procuramos apreender o ponto de partida da sua obra, isto é, o móvel de sua elaboração. Pretendemos destacar as razões que o levaram a fazer semelhante interpretação da história do Brasil. Na segunda, centrada nas questões políticas da atualidade, nosso propósito é assinalar os motivos que conduziram a historiografia a caracterizá-lo como um autor revolucionário. Em outras palavras, consideramos o uso político dessa caracterização.
1. CAIO PRADO E O SENTIDO DA HISTÓRIA DO BRASIL
Em Formação do Brasil contemporâneo, como o próprio título indica, Caio Prado preocupou-se em explicar o Brasil do século XX, mostrando como ele havia se constituído.
Analisou, inicialmente, a colonização, observando que ela foi marcada pela organização de uma produção que atendesse às necessidades do mercado externo ou europeu. A esse tipo de organização denominou colônia de exploração, em oposição às colônias de povoamento, voltadas, essencialmente, para o mercado interno. Em razão de sua finalidade, a economia brasileira foi estruturada por meio da grande propriedade, da produção em larga escala, da monocultura e do trabalho escravo. De seu ponto de vista, uma economia se definia como colonial quando produzia para o mercado externo, para a satisfação de necessidades alheias.
Essa situação começou a se modificar em fins do século XVIII e início do XIX, quando o setor da economia destinado ao abastecimento do mercado interno, que denominou de agricultura de subsistência, passou a se desenvolver em decorrência, fundamentalmente, do crescimento da população e do fato de a sociedade se tornar cada vez mais complexa.
Por esse motivo, o autor escolheu esse período como momento estratégico para analisar a história brasileira. Era o momento em que a obra colonizadora dos portugueses havia esgotado suas possibilidades e o Brasil começava a se renovar (PRADO JR., 1981, p. 9-10). Seu propósito era chamar a atenção para o sentido da história do Brasil, assinalando que a linha mestra de seu desenvolvimento, conforme expressão sua, era a transição da economia colonial para a economia nacional (PRADO JR., 1977, p. 83). Portanto, retratou o Brasil contemporâneo como um organismo em transição, definido pelo “(...) passado colonial que se balanceia (...) mais as transformações que se sucederam no decorrer do centênio anterior a este e no atual” (1981, p. 10). Mais adiante completou: “Mas este novo processo histórico se dilata, se arrasta até hoje. E ainda não chegou a seu termo” (1981, p. 10).
A historiografia explicou sua interpretação como resultante da aplicação criativa do marxismo à análise da história brasileira. Em virtude disso, costuma destacar que Caio Prado foi um crítico da tese feudal do Partido Comunista, considerando que o confronto entre ele e o partido constitui a melhor maneira para se compreender sua obra. Nesse confronto, contrapõe seu marxismo ao marxismo mecanicista e esquemático dos comunistas.
No entanto, consideramos que isso não basta para explicar o modo como o autor interpretou a história brasileira. É preciso examinar essa interpretação, sobretudo, de uma perspectiva política.
É verdade que, em algumas oportunidades, Caio Prado apresentou sua interpretação por meio da crítica ao Partido Comunista. Tem-se, com isso, a impressão de que o móvel da sua elaboração foi a oposição à interpretação do Partido a respeito da história do Brasil. Assim, afirmando que a interpretação do Partido era um decalque da experiência europeia, colocou como necessário buscar a especificidade do Brasil. Recusou-se, por isso, a se valer de conceitos como feudalismo para caracterizar as relações sociais no Brasil. Ao se recusar a isso, no entanto, desconsiderou, também, outros conceitos, nunca destacados pela historiografia, como os de capitalismo e socialismo. Não podemos, infelizmente, desenvolver esta questão com a profundidade que merece. Mas, ainda que brevemente, faremos algumas considerações.
Opondo-se à interpretação do Partido Comunista, Caio Prado formulou, na verdade, outra linha de desenvolvimento para a história brasileira, a qual teria dois momentos básicos, a economia colonial e a economia nacional. Fundamentalmente, de seu ponto de vista, a história brasileira era o processo de transição de uma para outra; seu sentido era, por conseguinte, a constituição de uma economia nacional. Desse modo, lançava os pilares da tese que o Brasil contemporâneo era ainda uma economia com características coloniais que, no entanto, caminhava para a estruturação de uma economia voltada para o mercado interno e para o atendimento das necessidades da população brasileira, uma economia nacional.
A historiografia brasileira não compreendeu essa formulação de Caio Prado. Não considerou, com efeito, que, por economia colonial e economia nacional, esse autor considerava duas formas de organização social, social, da mesma maneira que o eram o feudalismo, capitalismo e socialismo. De sua perspectiva, esses dois conceitos correspondiam às formas de organização social próprias da história de países como o Brasil, assim, substituindo aquelas que eram próprias dos países europeus. A historiografia, por seu turno, entendeu que esse autor tratava da “(...) passagem da colônia para a nação, da estrutura colonial para a estrutura nacional” (NOVAES, 1986, p. 17), “(...) da transição entre a situação colonial e a situação nacional” (RICUPERO, 2000, p. 161).
Por meio da formulação de que a história do Brasil se caracterizava pela passagem da economia colonial para a economia nacional, Caio Prado chegou a duas conclusões acerca da tarefa política dos brasileiros. Primeiro, que a solução não estava na revolução democrático-burguesa, como pretendia o Partido Comunista, promovendo o desenvolvimento das relações capitalistas. Este aspecto é sempre destacado pela historiografia. Segundo, que a luta política não era em torno da revolução socialista, aspecto nunca assinalado pelos seus estudiosos. Para ele, o Brasil não era um país capitalista, mas uma economia com características coloniais. Sua superação, em razão disso, dar-se-ia pelo seu oposto ou contrário, a economia nacional. Entretanto, não são poucos os autores que concluíram que Caio Prado supunha que o Brasil poderia se desenvolver em moldes capitalistas antes de encetar uma luta contra o socialismo (SANTOS, 2001, p. 123). Diga-se de passagem, também está longe dos propósitos desse autor caracterizar a colonização do Brasil como capitalista.
À primeira vista, poder-se-ia supor a afirmação de que o Brasil tendia para o estabelecimento da economia nacional e não do socialismo decorreu da sua interpretação da história do Brasil. No entanto, é o inverso que se verifica. Foi sua posição política contrária ao socialismo e às soluções radicais que o levou a interpretar a história do Brasil dessa maneira. Foi sua oposição ao socialismo e a conseqüente busca de uma alternativa a ele que constitui o elemento gerador da sua obra, seu impulso vital, sua razão de ser. Assim, ao elaborar sua interpretação Caio Prado não teve em conta simplesmente se contrapor à interpretação do Partido Comunista. Seu propósito ia além: oferecer uma resposta à proposta de socialismo (Ver MENDES, 2008).
É importante ressaltar também que Caio Prado não se opôs ao socialismo de maneira direta e explícita. Sua oposição se fez de modo indireto e oblíquo, por meio da afirmação, retomada em várias oportunidades, que a proposta de socialismo era prematura nas condições existentes no Brasil. Não negou, portanto, em tese, a luta pelo socialismo. Apenas postergou-a para um futuro incerto, posterior ao estabelecimento da economia nacional. Acrescente-se não se tratar de uma opinião conjuntural, mas da formulação que norteou a elaboração da sua obra.
Essas observações não têm por intenção criticar ou polemizar com Caio Prado. De nosso ponto de vista, a maneira de superar sua interpretação não é confrontando-a com outra, mas considerando-a historicamente. Isso significa assinalar que sua interpretação foi formulada no interior de um contexto histórico e com uma motivação política clara. Sua atuação política, lastreada por essa interpretação, faz parte do passado e, dessa perspectiva, a crítica e a polêmica não têm sentido. Vivemos, de fato, um momento histórico distinto, quando o socialismo não constitui uma alternativa histórica, graças, inclusive, à sua obra e à de outros autores que conjuraram a ameaça do socialismo. Sob esse aspecto, Caio Prado foi vitorioso.
Se, dessa perspectiva, sua atuação política e sua obra fazem parte do passado, no entanto, sua interpretação da história do Brasil, em suas linhas gerais, permanece dominante, especialmente seu fundamento: a caracterização de colônia como produção voltada para o mercado externo. Entretanto, as razões da sua permanência não são as mesmas que lhe deram origem. Ao contrário, são circunstâncias históricas novas que prolongam sua existência. Atualmente, a questão não se refere ao socialismo. Agora, trata-se de examinar a historiografia e buscar entender as razões que a levaram a caracterizá-lo como um autor revolucionário. O destaque é, então, o uso político de Caio Prado. Ou seja, não estamos diante de uma interpretação equivocada da sua obra, mas de uma caracterização que está em consonância com as questões do nosso tempo.
2. A HISTORIOGRAFIA SOBRE CAIO PRADO
Chamamos a atenção para o fato de que, ao longo da trajetória política e intelectual de Caio Prado, o socialismo constituiu uma questão real, que ele enfrentou, fundamentalmente, por meio dos seus escritos. Neles combateu o socialismo, colocando, em seu lugar, o que denominou economia nacional. Diversos autores interpretaram essa formulação afirmando que pretendia a estruturação da nação. Todavia, acreditamos ter ficado claro que, para ele, economia nacional constituía uma forma de organização econômica e social. Também não cabe debater se o Brasil se encontrava ou não preparado para o socialismo no período compreendido entre as décadas de 30 a 60, quando grande parte da sua obra foi produzida. Independentemente disso, o socialismo era uma questão da sua época e que impunha uma resposta, que o apoiasse ou se lhe opusesse. Também destacamos que, atualmente, o socialismo não constitui mais uma perspectiva histórica. Sob este aspecto, a obra de Caio Prado perdeu sua razão de ser. Entretanto, curiosamente, precisamente quando isso ocorreu, verificou-se um grande interesse por sua obra. Ao mesmo tempo, sua caracterização como autor revolucionário adquiriu contornos definitivos, tornando-se hegemônica. Mais do que hegemônica, única.
Evidentemente, Caio Prado sempre foi considerado um autor marxista e comunista. Entretanto, sua figura como autor revolucionário nem sempre sobressaiu nas análises anteriores à década de 90. É fato que essa caracterização apareceu em 1982 (IGLÉSIAS), aliás, título do seu texto: “Um historiador revolucionário”. Mas, de um modo geral, predominou a figura do historiador (NOVAIS, 1986).
Duas questões devem ser observadas. A primeira: ao longo da sua trajetória política, a obra de Caio Prado não foi analisada. A nosso ver, isso se explica pelo fato de que o papel que então desempenhava nas lutas políticas era o ponto principal, tornando-se, nesse momento, irrelevante o seu estudo. A segunda: a partir de um dado momento, surgiu um grande interesse por seus escritos. Sem dúvida alguma, em grande parte, sua morte despertou esse interesse, mas ela é insuficiente para explicar sua caracterização como autor revolucionário.
Esse crescente interesse diz respeito às novas circunstâncias históricas do final da década de 80 e início da seguinte. Com efeito, com a derrocada do socialismo, uma nova questão se colocou: enfrentar o capitalismo, única forma social então vigente. Liberto das ameaças do socialismo, o capitalismo entrara em uma nova etapa. Teve início uma ruptura dos controles criados pela intervenção do Estado e o capital passou a buscar as preocupações que haviam limitado sua ação desde, ao menos, a crise de 29, a construção do Estado do Bem-Estar e a guerra fria. Nesse momento, a crítica ao capitalismo adquiriu uma nova feição, agora em função de uma nova circunstância: sem a possibilidade de sua transformação revolucionária. A crítica resume-se, em última instância, à proposição de instrumentos que limitassem a ação do capital. Decorre disso o fato de a crítica ao capitalismo ter assumido a forma de crítica ao neoliberalismo e à globalização, que passaram a encarnar as novas tendências do capitalismo. Surgiu, então, uma reação a esse impulso do capital e, por isso, não é casual que, a partir dessa época, tenha se acentuado na sociedade uma posição que se poderia definir como “de esquerda”. Pode-se mesmo afirmar que a sociedade, como um todo, inclinou-se “para a esquerda”. Esta constitui sua característica mais recente. Assim, fica patente que a sociedade brasileira, se não desejava o socialismo, também não queria o capitalismo, ao menos em sua forma liberal.
Foi precisamente nesse momento que ganhou corpo a caracterização de Caio Prado como um autor revolucionário. Tendo cumprido seu papel no combate ao socialismo, ele passou a ser destacado como um crítico do capitalismo. Tratava-se de atualizá-lo, transformá-lo em um autor revolucionário, cuja vida esteve dedica à transformação da sociedade. Este foi o papel desempenhado pela historiografia: adequar esse autor às novas demandas políticas. O historiador que havia lançado as bases para a compreensão da colonização, por exemplo, foi suplantado pelo revolucionário. Desse modo, o combate ao capitalismo em sua forma liberal foi levado adiante pela historiografia por meio da construção de uma imagem de Caio Prado adequada aos novos tempos. A partir de então, não é sua interpretação da história do Brasil que desempenhou um papel político, mas a imagem que dele se criou. Com isso, sua obra se converteu em objeto de estudos e ele se tornou um dos autores mais analisados nas duas últimas décadas.
Todavia, ainda que a imagem que se criou de Caio Prado esteja em completa oposição ao papel que desempenhou ao longo da sua trajetória, sua obra possui um componente que a torna atual e, sob certos aspectos, faz com que não se encontre em desacordo com seu uso político atualmente, por paradoxal que possa parecer. Existe, com efeito, uma faceta em sua obra, bastante descurada por seus estudiosos: sua oposição ao capitalismo. Não se trata, ressalte-se, de um autor que, crítico do capitalismo, fosse partidário do socialismo. Sua crítica ao capitalismo decorria da sua posição contrária ao socialismo, mas, como adversário do socialismo, não necessariamente defendia o capitalismo. Ele foi, assim, adversário, ao mesmo tempo, do socialismo e do capitalismo. Poder-se-ia caracterizar sua posição como uma oposição ao socialismo vinda da esquerda. Talvez seu texto de 1947, “Fundamentos econômicos da revolução brasileira”, seja aquele que melhor ilustra esse ponto de vista.
2.1. “FUNDAMENTOS ECONÔMICOS DA REVOLUÇÃO BRASILEIRA”: o anticapitalismo via antisocialismo.
Em “Fundamentos”, Caio Prado afirmou que a revolução brasileira não seria feita por meio do “fomento do capitalismo” ou por intermédio de uma “revolução democrático-burguesa”. Para ele, a situação em que o país se encontrava e o atraso da sua economia não derivavam da debilidade do capitalismo brasileiro, mas de suas características coloniais. A seu ver, a burguesia capitalista não tinha interesse em livrar a economia brasileira de suas contingências coloniais por se beneficiar dessa situação. Além disso, entendia que a livre concorrência e a iniciativa privada, elementos fundamentais do capitalismo, não eram “(...) de modo algum fatores capazes de dar conta da tarefa de reestruturação da economia brasileira nos moldes em que isto se faz necessário”, pois implicavam em uma perda considerável de esforços e um desperdício de energias e convulsões periódicas que o país estava longe de poder suportar. Acrescentou que os tempos eram outros (PRADO JR., 1947, p. 6).
Não é nesse novo mundo da árdua luta inter-imperialista, em que o Brasil já ficou tão para trás, que se repetirá aqui a epopéia do capitalismo norte-americano com que tantas vezes nos acenam as forças conservadoras desejosas de nos iludir com miragens tentadoras. O mundo liberal do século XIX está definitivamente morto; e não será no Brasil que ele ressuscitará. As molas propulsoras do capitalismo (o enérgico individualismo e o forte estímulo da iniciativa privada) não funcionam mais no mundo moderno; nem cabem mais nele. Não será agora no Brasil, onde nunca existiram, que irão se constituir para realizar a grande tarefa de reestruturação e transformação da face do país (PRADO JR., 1947, p. 6).
Evitou, no entanto, cair no extremo oposto, alertando que não estava afirmando que havia soado a última hora do capitalismo no Brasil. Segundo ele, a iniciativa privada tinha ainda muito a realizar. No entanto, destacou que não se poderia deixar a livre iniciativa ao seu arbítrio. Antes, deveria ser “(...) estritamente regularizada e encaminhada para aqueles setores da atividade onde a necessidade dela se faça mais sentir frente aos interesses gerais do país. E complementada e substituída sempre que convier e pela ação direta do Estado ou de seus órgãos representativos dos interesses da coletividade” (PRADO JR., 1947, p. 6). Concluiu: “Em suma, trata-se de aproveitar o capitalismo naquilo que ele ainda oferece de positivo nas condições atuais do Brasil; e contê-lo, e o suprimir mesmo no que possa se opor às reformas que o país necessita. E ao mesmo tempo, ir preparando os elementos necessários para a futura construção do socialismo brasileiro” (PRADO JR., 1947, p. 6. Grifos nossos).
Como se pode perceber, Caio Prado não apenas afirmou que o capitalismo era inviável nas condições históricas existentes como também entendeu que a livre iniciativa deveria, no Brasil, ser controlada, dirigida, no sentido de subordiná-la aos parâmetros estabelecidos pela economia nacional. Assim, a iniciativa privada continuaria existindo, mas seu móvel não seria o lucro e sim o atendimento das necessidades da população brasileira. Em última análise, pretendia uma sociedade baseada, ao menos parcialmente, na iniciativa privada, mas funcionando como uma economia nacional.
Acreditamos residir nesse ponto o grande sucesso de Caio Prado; essa parece ser a razão pela qual é considerado o mais importante historiador brasileiro. No entanto, reside também aí o fato de ele ter se tornado um autor bastante estudado recentemente e de ser caracterizado, na maioria das vezes, como um autor revolucionário. Em suma, seu sucesso deriva do fato de ele ter se oposto tanto ao socialismo quanto ao capitalismo.
CONCLUSÃO
Ao longo do texto, chamamos a atenção para dois momentos distintos da trajetória de Caio Prado. Quanto ao primeiro, representado pela época em que ele elaborou sua obra e desenvolveu uma grande atividade política, procuramos ressaltar que esta foi concebida enquanto oposição ao socialismo e, portanto, sua interpretação da história do Brasil tem nesse posicionamento sua razão de ser. Foi uma luta foi vitoriosa, já que o socialismo tornou uma coisa do passado. É então que tem início o segundo momento, aquele em que a historiografia atualiza sua obra. A questão já não é a oposição ao socialismo, com a qual, sem que isso ficasse explícito, amplos setores da população se identificassem. Caso contrário, não se tornaria a maior referência entre os historiadores e demais cientistas sociais. A partir desse momento, sua biografia se torna o elemento central, e sua obra, interpretada como revolucionária, assume a comprovação de sua caracterização como autor revolucionário. Isso explica a necessidade de se insistir em caracterizá-la como uma obra marxista, cujo autor estaria interessado na transformação da sociedade.
No entanto, como procuramos salientar, Caio Prado talvez tenha sido o autor que melhor expressou a sociedade brasileira. Sob este aspecto, pode-se afirmar que o que se verifica atualmente com ele não deixa de ser um desdobramento da sua posição política e da sua obra. Justamente por isso, dos autores que tiveram uma atuação com estes componentes, ninguém melhor do que ele soube expressar os impasses de uma nação que, tendo chegado atrasada ao capitalismo na sua forma industrial, considerou tanto o socialismo quanto o capitalismo como ameaças.
REFERÊNCIAS
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_______ O Programa da Aliança Nacional Libertadora. In: Revista Escrita/Ensaio, São Paulo, n. 10, 1987.
REIS, José Carlos. Anos 60: Caio Prado Jr. A reconstrução crítica do sonho de emancipação e autonomia nacional. In: As identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC. 2ª edição. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
RICUPERO, B. Caio Prado Jr. e a nacionalização do marxismo no Brasil. São Paulo: Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo; FAPESP; Ed. 34, 2000.
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SEABRA, M. Caio Prado Jr. e os primeiros anos da AGB. In: IUMATTI, P.; SEABRA; M.; HEIDEMANN, H.D. (orgs.) Caio Prado Jr. e a Associação dos Geógrafos Brasileiros. São Paulo: AGB; IEB; USP, FAPESP, 2008.
INTRODUÇÃO
Criou-se um mito em torno de Caio Prado Júnior. Os anos 80 podem ser assinalados como o início desse processo, embora seus contornos definitivos tenham surgido apenas na década de 90, quando o autor passou a ser caracterizado, de maneira hegemônica, como revolucionário. É interessante observar que, até então, ele não havia sido objeto de estudos e que, quando foi caracterizado, isso se verificou nas polêmicas travadas, principalmente, no interior do Partido Comunista. Foi somente a partir da década de 80 e, particularmente, da seguinte que ele tornou objeto de estudo, vindo a predominar sua caracterização como autor revolucionário. Antes disso, temos notícia de apenas dois autores que o analisaram com mais vagar, mesmo ele não sendo o tema central dos estudos: Dante Moreira Leite, em O caráter nacional brasileiro, tese defendida em 1954 e publicada, com modificações, em 1969, e Carlos Guilherme Mota, em Ideologia da cultura brasileira (1977).
É verdade que sua biografia presta-se bastante a esse propósito. Membro de tradicional família de São Paulo ligada à cafeicultura e com grande participação na vida política brasileira, teve uma educação em tudo parecida com a dos membros de sua classe. Estudou em casa com professores particulares, depois, no Colégio São Luís e, em 1923, foi à Inglaterra, onde, em Londres, frequentou o Chelmsford College de Eastborn. Formou-se pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (1924-1928), desenvolvendo no período uma grande atividade política. Ingressou no Partido Democrático em 1928. Ainda como membro desse partido, apoiou a candidatura de Getúlio Vargas: foi preso por lhe dar vivas em uma recepção ao candidato oficial, Júlio Prestes. Desiludiu-se, todavia, com os rumos tomados pela Revolução Liberal e, em uma atitude que é considerada como sua grande travessia ou ruptura radical, rompeu com sua classe, abraçando a causa revolucionária (FERNANDES, 1991; REIS, 1999, p. 173-174). Filiou-se, em 1931, ao Partido Comunista Brasileiro e se tornou marxista. Em 1933, com 26 anos, fez uma viagem à União Soviética, experiência que resultou na obra URSS, um novo mundo, publicada no ano seguinte. Ainda em 1933, publicou Evolução Política do Brasil, livro considerado um marco na historiografia brasileira pelo fato de, pela primeira vez, introduzir as classes sociais e seus conflitos em uma interpretação da história do Brasil (MOTA, 1977, p. 28). Tornou-se, de acordo com a historiografia, um intelectual orgânico da classe operária, valendo-se do instrumental teórico marxista de maneira criativa, isto é, adaptando-o às condições particulares do Brasil (RICUPERO, 2000, p. 58) Foi um dos fundadores da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), em 1934 (SEABRA, 2008, p. 18). No ano seguinte, participou da Aliança Nacional Libertadora (ANL), como vice-presidente da secção de São Paulo (IUMATTI, 2007, p. 31). Produziu uma vasta obra, transitando por vários campos do conhecimento (história, economia, filosofia) e lançando as bases, na opinião dos estudiosos, para a compreensão da história do Brasil com o livro Formação do Brasil contemporâneo, publicado em 1942. Foi preso diversas vezes e viveu no exílio. Eleito deputado estadual pelo Partido Comunista, em 1947, foi cassado no ano seguinte. Fundou uma editora, a Brasiliense, em 1943, e uma revista, a Revista Brasiliense, em 1955. Além disso, ao longo da sua trajetória política, foi um crítico do Partido Comunista Brasileiro e da sua interpretação da história do Brasil. Apesar disso, não rompeu com o partido, nele permanecendo como militante disciplinado.
Como se pode verificar, sua biografia tem os componentes necessários para, além de se tornar nome de destaque no cenário intelectual e político do Brasil, ser caracterizado como autor revolucionário. Entretanto, ainda que sua história de vida forneça elementos para tal, não pode, evidentemente, explicá-la. Isso constituiria uma simplificação, já que a explicação não se encontra no autor, mas, na historiografia que assim o caracterizou. Por conseguinte, o foco não deve incidir sobre ele, mas, fundamentalmente, sobre as condições históricas e políticas que deu origem a esse modo de concebê-lo. Em outras palavras, a atenção deve estar voltada para a historiografia e para as questões políticas que lhe dizem respeito.
Para explicar esse processo de mitificação dividimos nossa análise em duas partes. Na primeira parte, examinamos e procuramos apreender o ponto de partida da sua obra, isto é, o móvel de sua elaboração. Pretendemos destacar as razões que o levaram a fazer semelhante interpretação da história do Brasil. Na segunda, centrada nas questões políticas da atualidade, nosso propósito é assinalar os motivos que conduziram a historiografia a caracterizá-lo como um autor revolucionário. Em outras palavras, consideramos o uso político dessa caracterização.
1. CAIO PRADO E O SENTIDO DA HISTÓRIA DO BRASIL
Em Formação do Brasil contemporâneo, como o próprio título indica, Caio Prado preocupou-se em explicar o Brasil do século XX, mostrando como ele havia se constituído.
Analisou, inicialmente, a colonização, observando que ela foi marcada pela organização de uma produção que atendesse às necessidades do mercado externo ou europeu. A esse tipo de organização denominou colônia de exploração, em oposição às colônias de povoamento, voltadas, essencialmente, para o mercado interno. Em razão de sua finalidade, a economia brasileira foi estruturada por meio da grande propriedade, da produção em larga escala, da monocultura e do trabalho escravo. De seu ponto de vista, uma economia se definia como colonial quando produzia para o mercado externo, para a satisfação de necessidades alheias.
Essa situação começou a se modificar em fins do século XVIII e início do XIX, quando o setor da economia destinado ao abastecimento do mercado interno, que denominou de agricultura de subsistência, passou a se desenvolver em decorrência, fundamentalmente, do crescimento da população e do fato de a sociedade se tornar cada vez mais complexa.
Por esse motivo, o autor escolheu esse período como momento estratégico para analisar a história brasileira. Era o momento em que a obra colonizadora dos portugueses havia esgotado suas possibilidades e o Brasil começava a se renovar (PRADO JR., 1981, p. 9-10). Seu propósito era chamar a atenção para o sentido da história do Brasil, assinalando que a linha mestra de seu desenvolvimento, conforme expressão sua, era a transição da economia colonial para a economia nacional (PRADO JR., 1977, p. 83). Portanto, retratou o Brasil contemporâneo como um organismo em transição, definido pelo “(...) passado colonial que se balanceia (...) mais as transformações que se sucederam no decorrer do centênio anterior a este e no atual” (1981, p. 10). Mais adiante completou: “Mas este novo processo histórico se dilata, se arrasta até hoje. E ainda não chegou a seu termo” (1981, p. 10).
A historiografia explicou sua interpretação como resultante da aplicação criativa do marxismo à análise da história brasileira. Em virtude disso, costuma destacar que Caio Prado foi um crítico da tese feudal do Partido Comunista, considerando que o confronto entre ele e o partido constitui a melhor maneira para se compreender sua obra. Nesse confronto, contrapõe seu marxismo ao marxismo mecanicista e esquemático dos comunistas.
No entanto, consideramos que isso não basta para explicar o modo como o autor interpretou a história brasileira. É preciso examinar essa interpretação, sobretudo, de uma perspectiva política.
É verdade que, em algumas oportunidades, Caio Prado apresentou sua interpretação por meio da crítica ao Partido Comunista. Tem-se, com isso, a impressão de que o móvel da sua elaboração foi a oposição à interpretação do Partido a respeito da história do Brasil. Assim, afirmando que a interpretação do Partido era um decalque da experiência europeia, colocou como necessário buscar a especificidade do Brasil. Recusou-se, por isso, a se valer de conceitos como feudalismo para caracterizar as relações sociais no Brasil. Ao se recusar a isso, no entanto, desconsiderou, também, outros conceitos, nunca destacados pela historiografia, como os de capitalismo e socialismo. Não podemos, infelizmente, desenvolver esta questão com a profundidade que merece. Mas, ainda que brevemente, faremos algumas considerações.
Opondo-se à interpretação do Partido Comunista, Caio Prado formulou, na verdade, outra linha de desenvolvimento para a história brasileira, a qual teria dois momentos básicos, a economia colonial e a economia nacional. Fundamentalmente, de seu ponto de vista, a história brasileira era o processo de transição de uma para outra; seu sentido era, por conseguinte, a constituição de uma economia nacional. Desse modo, lançava os pilares da tese que o Brasil contemporâneo era ainda uma economia com características coloniais que, no entanto, caminhava para a estruturação de uma economia voltada para o mercado interno e para o atendimento das necessidades da população brasileira, uma economia nacional.
A historiografia brasileira não compreendeu essa formulação de Caio Prado. Não considerou, com efeito, que, por economia colonial e economia nacional, esse autor considerava duas formas de organização social, social, da mesma maneira que o eram o feudalismo, capitalismo e socialismo. De sua perspectiva, esses dois conceitos correspondiam às formas de organização social próprias da história de países como o Brasil, assim, substituindo aquelas que eram próprias dos países europeus. A historiografia, por seu turno, entendeu que esse autor tratava da “(...) passagem da colônia para a nação, da estrutura colonial para a estrutura nacional” (NOVAES, 1986, p. 17), “(...) da transição entre a situação colonial e a situação nacional” (RICUPERO, 2000, p. 161).
Por meio da formulação de que a história do Brasil se caracterizava pela passagem da economia colonial para a economia nacional, Caio Prado chegou a duas conclusões acerca da tarefa política dos brasileiros. Primeiro, que a solução não estava na revolução democrático-burguesa, como pretendia o Partido Comunista, promovendo o desenvolvimento das relações capitalistas. Este aspecto é sempre destacado pela historiografia. Segundo, que a luta política não era em torno da revolução socialista, aspecto nunca assinalado pelos seus estudiosos. Para ele, o Brasil não era um país capitalista, mas uma economia com características coloniais. Sua superação, em razão disso, dar-se-ia pelo seu oposto ou contrário, a economia nacional. Entretanto, não são poucos os autores que concluíram que Caio Prado supunha que o Brasil poderia se desenvolver em moldes capitalistas antes de encetar uma luta contra o socialismo (SANTOS, 2001, p. 123). Diga-se de passagem, também está longe dos propósitos desse autor caracterizar a colonização do Brasil como capitalista.
À primeira vista, poder-se-ia supor a afirmação de que o Brasil tendia para o estabelecimento da economia nacional e não do socialismo decorreu da sua interpretação da história do Brasil. No entanto, é o inverso que se verifica. Foi sua posição política contrária ao socialismo e às soluções radicais que o levou a interpretar a história do Brasil dessa maneira. Foi sua oposição ao socialismo e a conseqüente busca de uma alternativa a ele que constitui o elemento gerador da sua obra, seu impulso vital, sua razão de ser. Assim, ao elaborar sua interpretação Caio Prado não teve em conta simplesmente se contrapor à interpretação do Partido Comunista. Seu propósito ia além: oferecer uma resposta à proposta de socialismo (Ver MENDES, 2008).
É importante ressaltar também que Caio Prado não se opôs ao socialismo de maneira direta e explícita. Sua oposição se fez de modo indireto e oblíquo, por meio da afirmação, retomada em várias oportunidades, que a proposta de socialismo era prematura nas condições existentes no Brasil. Não negou, portanto, em tese, a luta pelo socialismo. Apenas postergou-a para um futuro incerto, posterior ao estabelecimento da economia nacional. Acrescente-se não se tratar de uma opinião conjuntural, mas da formulação que norteou a elaboração da sua obra.
Essas observações não têm por intenção criticar ou polemizar com Caio Prado. De nosso ponto de vista, a maneira de superar sua interpretação não é confrontando-a com outra, mas considerando-a historicamente. Isso significa assinalar que sua interpretação foi formulada no interior de um contexto histórico e com uma motivação política clara. Sua atuação política, lastreada por essa interpretação, faz parte do passado e, dessa perspectiva, a crítica e a polêmica não têm sentido. Vivemos, de fato, um momento histórico distinto, quando o socialismo não constitui uma alternativa histórica, graças, inclusive, à sua obra e à de outros autores que conjuraram a ameaça do socialismo. Sob esse aspecto, Caio Prado foi vitorioso.
Se, dessa perspectiva, sua atuação política e sua obra fazem parte do passado, no entanto, sua interpretação da história do Brasil, em suas linhas gerais, permanece dominante, especialmente seu fundamento: a caracterização de colônia como produção voltada para o mercado externo. Entretanto, as razões da sua permanência não são as mesmas que lhe deram origem. Ao contrário, são circunstâncias históricas novas que prolongam sua existência. Atualmente, a questão não se refere ao socialismo. Agora, trata-se de examinar a historiografia e buscar entender as razões que a levaram a caracterizá-lo como um autor revolucionário. O destaque é, então, o uso político de Caio Prado. Ou seja, não estamos diante de uma interpretação equivocada da sua obra, mas de uma caracterização que está em consonância com as questões do nosso tempo.
2. A HISTORIOGRAFIA SOBRE CAIO PRADO
Chamamos a atenção para o fato de que, ao longo da trajetória política e intelectual de Caio Prado, o socialismo constituiu uma questão real, que ele enfrentou, fundamentalmente, por meio dos seus escritos. Neles combateu o socialismo, colocando, em seu lugar, o que denominou economia nacional. Diversos autores interpretaram essa formulação afirmando que pretendia a estruturação da nação. Todavia, acreditamos ter ficado claro que, para ele, economia nacional constituía uma forma de organização econômica e social. Também não cabe debater se o Brasil se encontrava ou não preparado para o socialismo no período compreendido entre as décadas de 30 a 60, quando grande parte da sua obra foi produzida. Independentemente disso, o socialismo era uma questão da sua época e que impunha uma resposta, que o apoiasse ou se lhe opusesse. Também destacamos que, atualmente, o socialismo não constitui mais uma perspectiva histórica. Sob este aspecto, a obra de Caio Prado perdeu sua razão de ser. Entretanto, curiosamente, precisamente quando isso ocorreu, verificou-se um grande interesse por sua obra. Ao mesmo tempo, sua caracterização como autor revolucionário adquiriu contornos definitivos, tornando-se hegemônica. Mais do que hegemônica, única.
Evidentemente, Caio Prado sempre foi considerado um autor marxista e comunista. Entretanto, sua figura como autor revolucionário nem sempre sobressaiu nas análises anteriores à década de 90. É fato que essa caracterização apareceu em 1982 (IGLÉSIAS), aliás, título do seu texto: “Um historiador revolucionário”. Mas, de um modo geral, predominou a figura do historiador (NOVAIS, 1986).
Duas questões devem ser observadas. A primeira: ao longo da sua trajetória política, a obra de Caio Prado não foi analisada. A nosso ver, isso se explica pelo fato de que o papel que então desempenhava nas lutas políticas era o ponto principal, tornando-se, nesse momento, irrelevante o seu estudo. A segunda: a partir de um dado momento, surgiu um grande interesse por seus escritos. Sem dúvida alguma, em grande parte, sua morte despertou esse interesse, mas ela é insuficiente para explicar sua caracterização como autor revolucionário.
Esse crescente interesse diz respeito às novas circunstâncias históricas do final da década de 80 e início da seguinte. Com efeito, com a derrocada do socialismo, uma nova questão se colocou: enfrentar o capitalismo, única forma social então vigente. Liberto das ameaças do socialismo, o capitalismo entrara em uma nova etapa. Teve início uma ruptura dos controles criados pela intervenção do Estado e o capital passou a buscar as preocupações que haviam limitado sua ação desde, ao menos, a crise de 29, a construção do Estado do Bem-Estar e a guerra fria. Nesse momento, a crítica ao capitalismo adquiriu uma nova feição, agora em função de uma nova circunstância: sem a possibilidade de sua transformação revolucionária. A crítica resume-se, em última instância, à proposição de instrumentos que limitassem a ação do capital. Decorre disso o fato de a crítica ao capitalismo ter assumido a forma de crítica ao neoliberalismo e à globalização, que passaram a encarnar as novas tendências do capitalismo. Surgiu, então, uma reação a esse impulso do capital e, por isso, não é casual que, a partir dessa época, tenha se acentuado na sociedade uma posição que se poderia definir como “de esquerda”. Pode-se mesmo afirmar que a sociedade, como um todo, inclinou-se “para a esquerda”. Esta constitui sua característica mais recente. Assim, fica patente que a sociedade brasileira, se não desejava o socialismo, também não queria o capitalismo, ao menos em sua forma liberal.
Foi precisamente nesse momento que ganhou corpo a caracterização de Caio Prado como um autor revolucionário. Tendo cumprido seu papel no combate ao socialismo, ele passou a ser destacado como um crítico do capitalismo. Tratava-se de atualizá-lo, transformá-lo em um autor revolucionário, cuja vida esteve dedica à transformação da sociedade. Este foi o papel desempenhado pela historiografia: adequar esse autor às novas demandas políticas. O historiador que havia lançado as bases para a compreensão da colonização, por exemplo, foi suplantado pelo revolucionário. Desse modo, o combate ao capitalismo em sua forma liberal foi levado adiante pela historiografia por meio da construção de uma imagem de Caio Prado adequada aos novos tempos. A partir de então, não é sua interpretação da história do Brasil que desempenhou um papel político, mas a imagem que dele se criou. Com isso, sua obra se converteu em objeto de estudos e ele se tornou um dos autores mais analisados nas duas últimas décadas.
Todavia, ainda que a imagem que se criou de Caio Prado esteja em completa oposição ao papel que desempenhou ao longo da sua trajetória, sua obra possui um componente que a torna atual e, sob certos aspectos, faz com que não se encontre em desacordo com seu uso político atualmente, por paradoxal que possa parecer. Existe, com efeito, uma faceta em sua obra, bastante descurada por seus estudiosos: sua oposição ao capitalismo. Não se trata, ressalte-se, de um autor que, crítico do capitalismo, fosse partidário do socialismo. Sua crítica ao capitalismo decorria da sua posição contrária ao socialismo, mas, como adversário do socialismo, não necessariamente defendia o capitalismo. Ele foi, assim, adversário, ao mesmo tempo, do socialismo e do capitalismo. Poder-se-ia caracterizar sua posição como uma oposição ao socialismo vinda da esquerda. Talvez seu texto de 1947, “Fundamentos econômicos da revolução brasileira”, seja aquele que melhor ilustra esse ponto de vista.
2.1. “FUNDAMENTOS ECONÔMICOS DA REVOLUÇÃO BRASILEIRA”: o anticapitalismo via antisocialismo.
Em “Fundamentos”, Caio Prado afirmou que a revolução brasileira não seria feita por meio do “fomento do capitalismo” ou por intermédio de uma “revolução democrático-burguesa”. Para ele, a situação em que o país se encontrava e o atraso da sua economia não derivavam da debilidade do capitalismo brasileiro, mas de suas características coloniais. A seu ver, a burguesia capitalista não tinha interesse em livrar a economia brasileira de suas contingências coloniais por se beneficiar dessa situação. Além disso, entendia que a livre concorrência e a iniciativa privada, elementos fundamentais do capitalismo, não eram “(...) de modo algum fatores capazes de dar conta da tarefa de reestruturação da economia brasileira nos moldes em que isto se faz necessário”, pois implicavam em uma perda considerável de esforços e um desperdício de energias e convulsões periódicas que o país estava longe de poder suportar. Acrescentou que os tempos eram outros (PRADO JR., 1947, p. 6).
Não é nesse novo mundo da árdua luta inter-imperialista, em que o Brasil já ficou tão para trás, que se repetirá aqui a epopéia do capitalismo norte-americano com que tantas vezes nos acenam as forças conservadoras desejosas de nos iludir com miragens tentadoras. O mundo liberal do século XIX está definitivamente morto; e não será no Brasil que ele ressuscitará. As molas propulsoras do capitalismo (o enérgico individualismo e o forte estímulo da iniciativa privada) não funcionam mais no mundo moderno; nem cabem mais nele. Não será agora no Brasil, onde nunca existiram, que irão se constituir para realizar a grande tarefa de reestruturação e transformação da face do país (PRADO JR., 1947, p. 6).
Evitou, no entanto, cair no extremo oposto, alertando que não estava afirmando que havia soado a última hora do capitalismo no Brasil. Segundo ele, a iniciativa privada tinha ainda muito a realizar. No entanto, destacou que não se poderia deixar a livre iniciativa ao seu arbítrio. Antes, deveria ser “(...) estritamente regularizada e encaminhada para aqueles setores da atividade onde a necessidade dela se faça mais sentir frente aos interesses gerais do país. E complementada e substituída sempre que convier e pela ação direta do Estado ou de seus órgãos representativos dos interesses da coletividade” (PRADO JR., 1947, p. 6). Concluiu: “Em suma, trata-se de aproveitar o capitalismo naquilo que ele ainda oferece de positivo nas condições atuais do Brasil; e contê-lo, e o suprimir mesmo no que possa se opor às reformas que o país necessita. E ao mesmo tempo, ir preparando os elementos necessários para a futura construção do socialismo brasileiro” (PRADO JR., 1947, p. 6. Grifos nossos).
Como se pode perceber, Caio Prado não apenas afirmou que o capitalismo era inviável nas condições históricas existentes como também entendeu que a livre iniciativa deveria, no Brasil, ser controlada, dirigida, no sentido de subordiná-la aos parâmetros estabelecidos pela economia nacional. Assim, a iniciativa privada continuaria existindo, mas seu móvel não seria o lucro e sim o atendimento das necessidades da população brasileira. Em última análise, pretendia uma sociedade baseada, ao menos parcialmente, na iniciativa privada, mas funcionando como uma economia nacional.
Acreditamos residir nesse ponto o grande sucesso de Caio Prado; essa parece ser a razão pela qual é considerado o mais importante historiador brasileiro. No entanto, reside também aí o fato de ele ter se tornado um autor bastante estudado recentemente e de ser caracterizado, na maioria das vezes, como um autor revolucionário. Em suma, seu sucesso deriva do fato de ele ter se oposto tanto ao socialismo quanto ao capitalismo.
CONCLUSÃO
Ao longo do texto, chamamos a atenção para dois momentos distintos da trajetória de Caio Prado. Quanto ao primeiro, representado pela época em que ele elaborou sua obra e desenvolveu uma grande atividade política, procuramos ressaltar que esta foi concebida enquanto oposição ao socialismo e, portanto, sua interpretação da história do Brasil tem nesse posicionamento sua razão de ser. Foi uma luta foi vitoriosa, já que o socialismo tornou uma coisa do passado. É então que tem início o segundo momento, aquele em que a historiografia atualiza sua obra. A questão já não é a oposição ao socialismo, com a qual, sem que isso ficasse explícito, amplos setores da população se identificassem. Caso contrário, não se tornaria a maior referência entre os historiadores e demais cientistas sociais. A partir desse momento, sua biografia se torna o elemento central, e sua obra, interpretada como revolucionária, assume a comprovação de sua caracterização como autor revolucionário. Isso explica a necessidade de se insistir em caracterizá-la como uma obra marxista, cujo autor estaria interessado na transformação da sociedade.
No entanto, como procuramos salientar, Caio Prado talvez tenha sido o autor que melhor expressou a sociedade brasileira. Sob este aspecto, pode-se afirmar que o que se verifica atualmente com ele não deixa de ser um desdobramento da sua posição política e da sua obra. Justamente por isso, dos autores que tiveram uma atuação com estes componentes, ninguém melhor do que ele soube expressar os impasses de uma nação que, tendo chegado atrasada ao capitalismo na sua forma industrial, considerou tanto o socialismo quanto o capitalismo como ameaças.
REFERÊNCIAS
FERNANDES, F. Obra de Caio Prado nasce da rebeldia moral. In: Folha de São Paulo, 07/09/1991.
IGLÉSIAS, F. Um historiador revolucionário. In: Caio Prado Júnior: historiador. São Paulo: Ática, 1982.
IUMATTI, P. T. Caio Prado Jr. Uma trajetória intelectual. São Paulo: Brasiliense, 2007.
LEITE, D. M. O caráter nacional brasileiro. São Paulo: Pioneira, 1969.
MENDES, C. M. M. Política e história em Caio Prado Júnior. São Luís/MA: UEMA, 2008.
MOTA, C. G. Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974). São Paulo: Ática, 1977.
NOVAES, F. A. Caio Prado Jr. na historiografia brasileira. In: MORAES, R.; ANTUNES, R.; FERRANTE, V.B. (orgs.) Inteligência brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1986.
PRADO JR., C. Formação do Brasil contemporâneo. 17ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1981.
_______ A Revolução Brasileira. 5ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1977.
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_______ O Programa da Aliança Nacional Libertadora. In: Revista Escrita/Ensaio, São Paulo, n. 10, 1987.
REIS, José Carlos. Anos 60: Caio Prado Jr. A reconstrução crítica do sonho de emancipação e autonomia nacional. In: As identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC. 2ª edição. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
RICUPERO, B. Caio Prado Jr. e a nacionalização do marxismo no Brasil. São Paulo: Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo; FAPESP; Ed. 34, 2000.
SANTOS, R. Caio Prado Júnior na cultura política brasileira. Rio de Janeiro: Mauad; FAPERJ, 2001.
SEABRA, M. Caio Prado Jr. e os primeiros anos da AGB. In: IUMATTI, P.; SEABRA; M.; HEIDEMANN, H.D. (orgs.) Caio Prado Jr. e a Associação dos Geógrafos Brasileiros. São Paulo: AGB; IEB; USP, FAPESP, 2008.
sexta-feira, outubro 17, 2008
A Inabalável Fé na Burocracia
Wednesday, October 15, 2008
Rodrigo Constantino
“O propósito da política não é solucionar problemas, mas achar problemas para justificar a expansão do poder do governo e um aumento nos impostos.” (Thomas Sowell)
O que o leitor pensaria de alguém que sempre recorre ao mesmo instrumento de fé quando algo dá errado, ainda que ele nunca leve aos objetivos desejáveis? Trata-se de uma postura no mínimo irracional, tamanha a insistência num meio claramente ineficaz. No entanto, é justamente isso que os crentes da burocracia fazem, de forma assustadoramente repetida. Cada nova crise recebe o diagnóstico de que faltou mais governo, mais regulação e mais supervisão burocrática, mesmo que a tendência de crescimento do governo ocorra concomitante ao agravamento das crises. A desconfiança em relação ao livre mercado e a ingênua fé no governo parecem crenças totalmente blindadas contra os fatos e a lógica.
Naturalmente, esta crise atual não é exceção à regra. Esses crentes no “deus” governo logo partiram para o ataque ao livre mercado, alegando que faltou mais regulação contra a ganância do setor privado. Não obstante a paradoxal premissa de que burocratas não são gananciosos também, resta questionar que falta de regulação foi essa, já que os principais setores atingidos pela crise eram ultra-regulados. Por que esses críticos do liberalismo se recusam a comentar o excesso de regulação dos setores em crise? Por que não dizem nada sobre as regras e incentivos criados pelo próprio governo para estimular o crédito imobiliário nas faixas de baixa-renda? Por que fazem vista grossa ao fato de que países conhecidos por uma vasta e detalhada parafernália burocrática, como a França e a Rússia, estão sofrendo também com a crise? É um constrangedor silêncio por parte dos defensores de mais regulação como solução desta crise.
Se as entidades regulatórias existem para evitar crises como a atual, onde estava a Securities and Exchange Commission (SEC), o Federal Reserve System (FED), o Office of Federal Housing Enterprise Oversight (OFHEO) e demais agências governamentais? Se o vigia dorme com freqüência no posto de vigilância, então é preciso mais vigias para vigiar os outros vigias? E se isso não resolve, então é necessário mais e mais vigias, ad infinitum? Será que questionar a eficiência e os incentivos dos vigias existentes é pecado? A missão da OFHEO é promover o setor imobiliário e um sólido sistema de financiamento de casas, garantindo a segurança e solidez da Fannie Mae e Freddie Mac. O OFHEO tem como meta preservar uma estrutura de capital adequada para estas duas government-sponsored enterprises. Onde estavam então esses poderosos burocratas, já que o epicentro da crise se deu justamente nesse setor e nessas empresas semi-estatais? Para uma base de capital de apenas US$ 100 bilhões, estas empresas, contando com garantidas do governo, levantaram US$ 5 trilhões em dívidas. Será que faltou mesmo regulação do governo? Esses incompetentes burocratas serão demitidos?
Isso sem falar das ações diretas do governo americano, tentando artificialmente inflar o setor imobiliário. Em 1977 foi criado o Comunity Reinvestment Act (CRA), com o objetivo de obrigar bancos a emprestar uma parte dos seus ativos às comunidades carentes. Em 1994, o governo estendeu as metas do CRA, e em 2005, após um escândalo contábil envolvendo a Freddie Mac, o governo resolveu punir a empresa demandando mais crédito hipotecário para as classes de baixa-renda.
Esses são apenas alguns exemplos, entre muitos, que mostram como o governo e sua extensa burocracia estão com suas impressões digitais em todas as cenas do crime nessa crise. Como disse Thomas Sowell, os esforços de financiamento das entidades governamentais para obter mais financiamento do governo são o equivalente político de uma máquina de movimento perpétuo. A burocracia luta para estar sempre em constante crescimento. E como o mesmo Sowell notou, nós sempre pagamos muito caro aos burocratas pelo que eles são, mas muito pouco pelo que nós gostaríamos que eles fossem. O principal motivo disso é esta inabalável fé na burocracia e no governo. Muitos esquecem que o governo é uma abstração, e o que existe de fato são homens que concentram poder. Esses homens são imperfeitos também, possuem interesses particulares, são vítimas de ignorância, vaidade, inveja e todas as paixões que atuam sobre os demais seres humanos. A crença de que o governo é capaz de resolver todas as falhas do livre mercado beira à ingenuidade infantil. Thomas Sowell pergunta, de forma retórica: “Como alguém pode ler história e ainda confiar nos políticos?” A resposta é que esta crença é totalmente calcada na fé irracional, e não nos fatos. Seria análogo à criança que, por ignorância, ainda acredita que o Papai Noel traz seus presentes, e não os próprios pais. Questionamentos sinceros e algum olhar crítico dos fatos logo iriam refutar esta crença. Mas muitos desejam acreditar, por motivos puramente emocionais, ainda que a crença seja claramente falsa. É justamente o que ocorre em relação à fé na burocracia. Os fatos bradam contra esta crença tola, mas a ideologia acaba falando mais alto, e os crentes precisam seguir acreditando que o governo milagroso salvará o mundo, mesmo que suas ações sejam parte das causas dos problemas. Os crentes entram em fase de negação diante dos argumentos contrários, preferindo rotas de fuga, como a repetição de chavões vazios ou os rótulos pejorativos aos que pensam de forma diferente. Quando um dado ou argumento é apresentado, o crente na burocracia acaba vítima de dissonância cognitiva. Para evitar a dor da contradição, ele impede tais dados de chegar ao cérebro. Ele foge de uma reflexão honesta. Mais ou menos o que acontece com um crente fanático da Igreja Universal, quando mostram o vídeo do Bispo Macedo, fundador da seita, rindo enquanto conta dinheiro, ou ensinando os pastores a enganar os pobres coitados. Troca o deus, mas o fanatismo é o mesmo. E o engodo também. Os crentes da burocracia onisciente e clarividente depositam toda a fé no governo, transferindo o poder sobre seus destinos aos burocratas poderosos. O estatismo não passa de uma seita moderna, tão perigosa e irracional quanto às religiões retrógradas e fanáticas. Estamos assistindo a mais um episódio lamentável de devoção desses crentes, que pedem mais governo para resolver uma crise criada ou ampliada pelo próprio governo. Seria como usar sanguessugas para curar a leucemia! Será que já não passou da hora de questionar esta fé na onipotência do governo?
Não obstante o que vimos acima, mostrando como havia muita regulação, e como esse excesso burocrático é parte das causas da crise, quase todos pedem mais governo para resolver os problemas. Vários pacotes foram anunciados, rios de dinheiro foram injetados nos mercados, várias instituições foram salvas, medidas regulatórias extras foram adotadas, e nada parece surtir o efeito desejável. A crise segue se agravando, as bolsas batem recorde de baixa, os mercados de crédito continuam estressados. Mas curiosamente a fé na capacidade milagrosa dos governos continua inabalável. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, chegou a propor a “refundação do capitalismo”. É preciso lembrar urgentemente que o capitalismo não é um produto do brilhantismo de alguns políticos, mas sim fruto de uma ordem espontânea, de baixo para cima. Precisamos de mais Mises e Hayek, e menos Keynes. Precisamos derrubar esta fé tola na burocracia. Ou isso, ou o capitalismo realmente estará ameaçado.
Rodrigo Constantino
“O propósito da política não é solucionar problemas, mas achar problemas para justificar a expansão do poder do governo e um aumento nos impostos.” (Thomas Sowell)
O que o leitor pensaria de alguém que sempre recorre ao mesmo instrumento de fé quando algo dá errado, ainda que ele nunca leve aos objetivos desejáveis? Trata-se de uma postura no mínimo irracional, tamanha a insistência num meio claramente ineficaz. No entanto, é justamente isso que os crentes da burocracia fazem, de forma assustadoramente repetida. Cada nova crise recebe o diagnóstico de que faltou mais governo, mais regulação e mais supervisão burocrática, mesmo que a tendência de crescimento do governo ocorra concomitante ao agravamento das crises. A desconfiança em relação ao livre mercado e a ingênua fé no governo parecem crenças totalmente blindadas contra os fatos e a lógica.
Naturalmente, esta crise atual não é exceção à regra. Esses crentes no “deus” governo logo partiram para o ataque ao livre mercado, alegando que faltou mais regulação contra a ganância do setor privado. Não obstante a paradoxal premissa de que burocratas não são gananciosos também, resta questionar que falta de regulação foi essa, já que os principais setores atingidos pela crise eram ultra-regulados. Por que esses críticos do liberalismo se recusam a comentar o excesso de regulação dos setores em crise? Por que não dizem nada sobre as regras e incentivos criados pelo próprio governo para estimular o crédito imobiliário nas faixas de baixa-renda? Por que fazem vista grossa ao fato de que países conhecidos por uma vasta e detalhada parafernália burocrática, como a França e a Rússia, estão sofrendo também com a crise? É um constrangedor silêncio por parte dos defensores de mais regulação como solução desta crise.
Se as entidades regulatórias existem para evitar crises como a atual, onde estava a Securities and Exchange Commission (SEC), o Federal Reserve System (FED), o Office of Federal Housing Enterprise Oversight (OFHEO) e demais agências governamentais? Se o vigia dorme com freqüência no posto de vigilância, então é preciso mais vigias para vigiar os outros vigias? E se isso não resolve, então é necessário mais e mais vigias, ad infinitum? Será que questionar a eficiência e os incentivos dos vigias existentes é pecado? A missão da OFHEO é promover o setor imobiliário e um sólido sistema de financiamento de casas, garantindo a segurança e solidez da Fannie Mae e Freddie Mac. O OFHEO tem como meta preservar uma estrutura de capital adequada para estas duas government-sponsored enterprises. Onde estavam então esses poderosos burocratas, já que o epicentro da crise se deu justamente nesse setor e nessas empresas semi-estatais? Para uma base de capital de apenas US$ 100 bilhões, estas empresas, contando com garantidas do governo, levantaram US$ 5 trilhões em dívidas. Será que faltou mesmo regulação do governo? Esses incompetentes burocratas serão demitidos?
Isso sem falar das ações diretas do governo americano, tentando artificialmente inflar o setor imobiliário. Em 1977 foi criado o Comunity Reinvestment Act (CRA), com o objetivo de obrigar bancos a emprestar uma parte dos seus ativos às comunidades carentes. Em 1994, o governo estendeu as metas do CRA, e em 2005, após um escândalo contábil envolvendo a Freddie Mac, o governo resolveu punir a empresa demandando mais crédito hipotecário para as classes de baixa-renda.
Esses são apenas alguns exemplos, entre muitos, que mostram como o governo e sua extensa burocracia estão com suas impressões digitais em todas as cenas do crime nessa crise. Como disse Thomas Sowell, os esforços de financiamento das entidades governamentais para obter mais financiamento do governo são o equivalente político de uma máquina de movimento perpétuo. A burocracia luta para estar sempre em constante crescimento. E como o mesmo Sowell notou, nós sempre pagamos muito caro aos burocratas pelo que eles são, mas muito pouco pelo que nós gostaríamos que eles fossem. O principal motivo disso é esta inabalável fé na burocracia e no governo. Muitos esquecem que o governo é uma abstração, e o que existe de fato são homens que concentram poder. Esses homens são imperfeitos também, possuem interesses particulares, são vítimas de ignorância, vaidade, inveja e todas as paixões que atuam sobre os demais seres humanos. A crença de que o governo é capaz de resolver todas as falhas do livre mercado beira à ingenuidade infantil. Thomas Sowell pergunta, de forma retórica: “Como alguém pode ler história e ainda confiar nos políticos?” A resposta é que esta crença é totalmente calcada na fé irracional, e não nos fatos. Seria análogo à criança que, por ignorância, ainda acredita que o Papai Noel traz seus presentes, e não os próprios pais. Questionamentos sinceros e algum olhar crítico dos fatos logo iriam refutar esta crença. Mas muitos desejam acreditar, por motivos puramente emocionais, ainda que a crença seja claramente falsa. É justamente o que ocorre em relação à fé na burocracia. Os fatos bradam contra esta crença tola, mas a ideologia acaba falando mais alto, e os crentes precisam seguir acreditando que o governo milagroso salvará o mundo, mesmo que suas ações sejam parte das causas dos problemas. Os crentes entram em fase de negação diante dos argumentos contrários, preferindo rotas de fuga, como a repetição de chavões vazios ou os rótulos pejorativos aos que pensam de forma diferente. Quando um dado ou argumento é apresentado, o crente na burocracia acaba vítima de dissonância cognitiva. Para evitar a dor da contradição, ele impede tais dados de chegar ao cérebro. Ele foge de uma reflexão honesta. Mais ou menos o que acontece com um crente fanático da Igreja Universal, quando mostram o vídeo do Bispo Macedo, fundador da seita, rindo enquanto conta dinheiro, ou ensinando os pastores a enganar os pobres coitados. Troca o deus, mas o fanatismo é o mesmo. E o engodo também. Os crentes da burocracia onisciente e clarividente depositam toda a fé no governo, transferindo o poder sobre seus destinos aos burocratas poderosos. O estatismo não passa de uma seita moderna, tão perigosa e irracional quanto às religiões retrógradas e fanáticas. Estamos assistindo a mais um episódio lamentável de devoção desses crentes, que pedem mais governo para resolver uma crise criada ou ampliada pelo próprio governo. Seria como usar sanguessugas para curar a leucemia! Será que já não passou da hora de questionar esta fé na onipotência do governo?
Não obstante o que vimos acima, mostrando como havia muita regulação, e como esse excesso burocrático é parte das causas da crise, quase todos pedem mais governo para resolver os problemas. Vários pacotes foram anunciados, rios de dinheiro foram injetados nos mercados, várias instituições foram salvas, medidas regulatórias extras foram adotadas, e nada parece surtir o efeito desejável. A crise segue se agravando, as bolsas batem recorde de baixa, os mercados de crédito continuam estressados. Mas curiosamente a fé na capacidade milagrosa dos governos continua inabalável. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, chegou a propor a “refundação do capitalismo”. É preciso lembrar urgentemente que o capitalismo não é um produto do brilhantismo de alguns políticos, mas sim fruto de uma ordem espontânea, de baixo para cima. Precisamos de mais Mises e Hayek, e menos Keynes. Precisamos derrubar esta fé tola na burocracia. Ou isso, ou o capitalismo realmente estará ameaçado.
segunda-feira, outubro 06, 2008
INTRODUÇÃO DO LIVRO POLÍTICA E HISTÓRIA EM CAIO PRADO JR
INTRODUÇÃO DO LIVRO POLÍTICA E HISTÓRIA EM CAIO PRADO JR., DE
CLADINEI MAGNO MAGRE MENDES, EDITADO PELA UEMA, EM 2008.
INTRODUÇÃO
Caio Prado Jr., não sem razão, é considerado pela grande maioria dos
estudiosos o mais importante dos historiadores brasileiros. Suas obras encontram-se
entre as que são reputadas como as mais significativas para a compreensão da história
brasileira. Dentre elas, Formação do Brasil contemporâneo é tida, mesmo por seus mais
ardorosos adversários, como a que causou maior impacto nos estudos históricos
brasileiros, ou seja, seria a obra decisiva sobre a história do Brasil. Além disso, a
interpretação da história do Brasil que o autor formula nesse livro manteve-se
hegemônica durante décadas. Mesmo nas novas maneiras de se conceber a história
brasileira que surgiram depois dele, encontramos determinadas formulações básicas de
sua autoria. Talvez a maior prova do seu sucesso seja o fato de que basta enunciar
aquela que é considerada a mais importante das suas contribuições para os estudos
sobre a época colonial – o “sentido da colonização” – para que todos o identifiquem
como seu autor. Com efeito, não existe maior consagração para um escritor do que ser
reconhecido pela simples menção à expressão que melhor caracteriza sua obra.
Este lugar de destaque alcançado por Caio Prado na historiografia brasileira
tem sido a justificativa de muitos estudiosos que examinam sua obra sob múltiplos
aspectos: político, econômico, social, filosófico, ideológico, etc. O lugar que ele
alcançou parece ser a razão maior para que tenha se tornado um dos autores mais
estudados nas duas últimas décadas.
Quanto a nós, diferentemente dos estudiosos que justificam seu estudo pela
importância que ele adquiriu, estamos mais interessados, justamente, em compreender
os motivos que o levaram a semelhante consagração e a alcançar essa grande
notoriedade no cenário cultural e político brasileiro. Evidentemente, reconhecemos que
se trata de um personagem com múltiplas qualidades, tanto no plano pessoal como no
intelectual, mas as descartamos como elementos explicativos de semelhante fenômeno.
De nosso ponto de vista, a explicação para o respeito e a consideração que, com toda
razão, se lhe tributa encontra-se na junção autor-sociedade. Mais do que isso: como
Caio Prado se destacou justamente como um pensador da política brasileira, é na
relação política entre ele e a sociedade de sua época que julgamos encontrar os motivos
que o levaram a obter tal sucesso e a percorrer tal trajetória intelectual.
Acreditamos, com efeito, que Caio Prado soube, melhor do que qualquer outro
autor, responder às exigências da sua época, fazendo-se uma espécie de intérprete das
tendências dominantes na sociedade. No entanto, sua obra historiográfica não faz dele
apenas um grande historiador. Considerá-lo apenas por este viés redunda em uma
visão parcial de sua trajetória intelectual e política. Mais do que um historiador, ele foi
um homem político, que atuou principalmente por meio de sua função de historiador.
Podemos dizer que foi um autor que fez da história um instrumento de luta política.
Sob este aspecto, como já salientado, seu sucesso não encontra similar no Brasil.
Em razão disso, acreditamos que, para se entender o papel de destaque que teve
na historiografia brasileira, o caminho mais acertado é o estudo de seu pensamento
político, que se encontra estribado em dois grandes pilares: o da sua interpretação da
história do Brasil e o da proposta política que, por meio de seus escritos, fez à
sociedade brasileira.
Centramos nossa análise justamente nos seus livros de história e nos seus textos
de intervenção política porque é neles, mais do que nos demais, que Caio Prado
explicita o seu pensamento político, possibilitando a sua apreensão. Nosso
procedimento se justifica por ter sido nos seus livros de história que ele exerceu sua
ação política de forma mais eficaz. Realmente, foi como historiador que se tornou
conhecido e foi por meio dos seus livros de história que teve uma influência
extraordinária.
Ao longo de nossas leituras, percebemos que, para analisar o seu pensamento
político, era necessário fazer uma leitura de seus textos em ordem cronológica, de
forma a apreender o significado de cada um deles no conjunto da sua produção
intelectual. Pudemos, com isso, verificar quais formulações novas Caio Prado fez e
quais abandonou no processo de constituição do seu pensamento político
Dentre as constatações a que chegamos e que julgamos essenciais para a
compreensão do seu pensamento político, encontra-se a percepção de que houve uma
ruptura fundamental entre Evolução política do Brasil, de 1933, e Formação do Brasil
contemporâneo, publicado em 1942. Trata-se de uma questão importante, nem sempre
percebida, ainda que muitas vezes intuída, pelos seus estudiosos. Evolução é, a rigor, o
único livro marxista de Caio Prado e, em Formação, ele modifica claramente sua
concepção de história.
É verdade que já se chamou a atenção para a existência de uma diferença entre
eles. Todavia, esta é atribuída a uma compreensão mais heterodoxa do marxismo e,
principalmente, à sua aproximação com a Geografia. Evidentemente, tal aproximação é
importante em sua trajetória intelectual, mas não explica a mudança. Caio Prado
aproximou-se da Geografia justamente para buscar elementos que lhe permitissem
romper com o marxismo e abandonar a luta de classes como fator explicativo da
história brasileira. Em suma, a mudança em seu posicionamento político ocorreu por
meio de uma aproximação com a Geografia. Embora constituam faces de uma mesma
moeda, em última instância, foi a mudança no seu posicionamento político que o levou
a se aproximar da Geografia.
A leitura cronológica e comparativa das obras de Caio Prado permite-nos
identificar, em sua participação na Aliança Nacional Libertadora, em 1935, o momento
de ruptura com a sua concepção de história fundada na luta de classes e que se
encontra expressa em Evolução. Neste livro, que ele escreve movido pela sua recente
adesão ao Partido Comunista e ao marxismo e, muito provavelmente, sob o impulso de
um grande otimismo quanto às transformações sociais, a luta de classes constitui o fio
condutor da explicação da história. Entretanto, pouco tempo depois, envolve-se nas
atividades da Aliança Nacional Libertadora, uma frente política de luta pela libertação
nacional que, pelas suas próprias características, busca a união e não o confronto entre
amplos setores da sociedade. Não se trata, portanto, da libertação de uma classe, mas
de toda a nação. A partir de então, o pensamento político de Caio Prado se modifica
radicalmente. Esta nova direção consubstancia-se na obra Formação do Brasil
contemporâneo, na qual a luta de classes como linha mestra desaparece. Uma
comparação entre os artigos que publicou em 1935 acerca do programa da Aliança
Nacional e o livro Formação permite-nos, inclusive, afirmar que este último já se
encontra em gérmen naqueles.
Com base nessa constatação, pudemos interpretar a obra de Caio Prado sob
outra luz e perceber o imenso papel desempenhado pelo conceito de “sentido da
colonização” na sua interpretação da história do Brasil e, por extensão, em suas
formulações políticas. Menos do que uma explicação do processo colonial, este conceito
tinha como objetivo articular os dois pólos ou as duas formas sociais extremas entre as
quais, segundo sua maneira de conceber, transitaria o processo histórico brasileiro.
Com efeito, para ele, o processo histórico brasileiro caracterizar-se-ia justamente pela
passagem de uma economia colonial para uma economia nacional. De seu ponto de
vista, as características da economia colonial haviam sido dadas pelo sentido da
colonização, isto é, o de produzir para atender às necessidades do mercado externo. O
estabelecimento da economia nacional, cuja produção seria organizada para o
atendimento das necessidades da população, constituía a maneira de superar essas
características coloniais da economia brasileira.
Ao afirmar que a história do Brasil se caracterizava justamente por esta
transformação, Caio Prado pretendia, embora nunca o tenha explicitado, ir muito além
de uma interpretação alternativa da história brasileira. Sua intenção era romper com a
interpretação baseada na seqüência feudalismo-capitalismo-socialismo. Em última
análise, defendia a tese de que, diferentemente da Europa, por exemplo, a história do
Brasil possuía outras características. Assim, ele não estava em luta apenas contra o
marxismo esquemático e mecanicista do Partido Comunista, como querem muitos dos
seus estudiosos. Ainda que seu interlocutor fosse o Partido Comunista, a verdade é que
sua interpretação vai além das formulações desse partido, já que afirma que, pelas
condições existentes no Brasil, sua evolução histórica caracterizava-se pela
transformação da economia colonial em economia nacional.
Desse modo, para Caio Prado, a economia nacional era uma forma de
estruturação da sociedade, fato que seus estudiosos não perceberam. Ao contrário,
interpretaram esta proposição como se ele estivesse tratando da constituição da Nação,
da organização da economia brasileira (nacional) e assim por diante. Por economia
nacional, Caio Prado entendia uma forma específica de organização da economia:
aquela fundada na produção voltada para o atendimento das necessidades da
população brasileira.
Por conseguinte, segundo a maneira de Caio Prado compreender a história
brasileira, o Brasil havia conhecido, ou estava conhecendo, basicamente, duas formas
de estruturação ou organização da sua economia ou sociedade. A primeira, a colonial,
que havia sido estabelecida por meio da colonização e que, ainda à época da
publicação do livro Formação, era a dominante. A segunda, a nacional, que estava em
vias de se constituir, mediante a superação da forma colonial.
Por isso, Formação do Brasil contemporâneo é um marco decisivo na trajetória
política e intelectual de Caio Prado. Neste livro de ruptura, encontramos todos os
elementos e motivos que o levaram a alcançar um grande sucesso e a exercer uma
imensa influência sobre os estudos históricos: uma nova concepção de história, que
substituía a luta de classes por uma política de conciliação entre amplos setores sociais;
a concepção de que a libertação almejada era a da nação, ao invés de uma classe; a
concepção de que o foco e o estímulo da transformação era o mercado interno; por fim,
a concepção de que a transformação social decorreria da ação do Estado.
Estas considerações preliminares expressam o fio condutor dos seis textos que
compõem o livro e que são resultantes do estudo que, ao menos desde 1996, estamos
realizando, de modo sistemático, sobre o pensamento político de Caio Prado Jr. Três
deles já foram publicados, mas temos pelo menos dois motivos para incluí-los neste
volume. O primeiro é que, com exceção da resenha, eles tiveram uma circulação
restrita. O segundo, e o mais importante, é que, de certa maneira, eles deixam mais
claros os escritos posteriores.
O primeiro texto para o qual queremos chamar a atenção é “Caio Prado Jr. e a
história do Brasil. A colonização como produção para o mercado externo”. Ainda que
elaborado alguns anos atrás - foi redigido em 1996, como parte de um capítulo da
nossa tese de doutorado, e publicado separadamente em 1997 –, esse artigo é
fundamental para a compreensão das questões tratadas nos demais, uma vez que, nele,
assinalamos a estreita ligação entre a interpretação da história do Brasil contida em
Formação e a proposta política do autor. Basicamente, essa proposta consiste na
afirmação de que a superação das características coloniais da economia brasileira se
faria por meio do estabelecimento de uma economia nacional. A nosso ver, essa ligação
é essencial para a compreensão do pensamento político de Caio Prado.
Outro texto que consideramos fundamental para se compreender as questões
tratadas neste livro diz respeito ao marxismo e foi escrito por ocasião das
comemorações dos cento e cinqüenta anos de publicação de O Manifesto do Partido
Comunista. Embora não seja específico sobre Caio Prado, ele contém reflexões que
orientaram nossos estudos sobre seu pensamento político, especialmente o papel,
decisivo do nosso ponto de vista, desempenhado por partidos e intelectuais que, no
seio da esquerda e, freqüentemente, no interior do próprio marxismo, combateram
tanto a proposta de socialismo como a própria doutrina marxista. Destacamos também
nossa concepção de que, atualmente, menos do que fazer uma crítica, é fundamental
realizar uma avaliação histórica do papel desempenhado pelos partidos e intelectuais
de esquerda em todo esse processo.
É exatamente isso que procuramos fazer com relação a Caio Prado. Não
estamos interessados em fazer uma crítica de seus textos ou mesmo da sua atuação
política. Sua produção e sua atuação fazem parte de um processo que pertence ao
passado e, por isso, já não cabe fazer uma crítica ou travar uma polêmica com o
historiador ou o homem político. Inclusive, cabe aqui uma passagem de Spinoza que
orienta nosso estudo: “Não rir, não lamentar, não odiar. Compreender.” Entretanto,
apesar de serem parte de um processo que pertence a uma outra época histórica, suas
formulações têm enorme repercussão na atualidade. Portanto, o interesse em
compreender historicamente Caio Prado implica entender também a razão pela qual,
ainda hoje, suas formulações continuam a usufruir de um enorme prestígio entre os
historiadores. Por isso, no conjunto das questões abordadas, colocamos para o debate
nossas reflexões não apenas sobre o papel histórico desempenhado por ele, mas
também sobre a abrangência de sua trajetória política e intelectual.
Quanto aos textos que estamos publicando pela primeira vez, queremos
destacar que, em “Considerações sobre o estudo do pensamento político de Caio Prado
Jr.”, procuramos fazer, a um só tempo, uma crítica da historiografia a ele relativa e uma
reflexão sobre as questões metodológicas que envolvem o estudo do seu pensamento
político. Com efeito, nas considerações sobre qualquer historiografia e, no caso
específico, sobre os estudos acerca de Caio Prado, é preciso investigar seus aspectos
metodológicos, de forma a compreender o ponto de partida dos estudiosos. Ao mesmo
tempo, ao examinar essa historiografia, com especial atenção para o seu ponto de
partida metodológico, cabe um debate acerca do caminho mais adequado para o seu
entendimento. Por conseguinte, as considerações feitas são resultantes tanto da análise
que fizemos de sua obra com o objetivo de apreender o seu pensamento político como
do confronto com a forma como os demais autores o abordaram.
No texto “Reflexões sobre a Independência do Brasil na obra de Caio Prado Jr.”
abordamos as várias questões que têm se colocado para nós no estudo do seu
pensamento político. A primeira delas diz respeito à mudança verificada na concepção de história deCaio Prado quando comparamos os livros Evolução política do Brasil e Formação do Brasil
contemporâneo. Ou seja, diz respeito à inflexão radical no posicionamento político de
Caio Prado, expressa no seu modo de conceber a história e, consequentemente, na sua
maneira de interpretar a história do Brasil.
Poder-se-ia abordar esta questão de várias maneiras. Optamos por examinar
como a Independência do Brasil aparece nas duas obras, mas sem nos limitamos a uma
simples comparação. De uma forma mais abrangente, centramos a análise dessa
mudança no fato de que a Independência desempenha um papel estratégico na
interpretação da história do Brasil em Evolução e em Formação. Nosso objetivo é
examinar qual é a posição estratégica que esse acontecimento ocupa em cada uma das
duas obras. Esse exame confirma a existência de duas maneiras distintas de se conceber
a história, com todas as suas implicações. A maneira diferenciada com que o autor
aborda a Independência decorre da própria avaliação que ele fez desse fato nas duas
obras, ou seja, de sua atitude para com a Independência nos livros Evolução e Formação.
Na origem dessa diferença, encontramos precisamente a mudança de posicionamento
político de Caio Prado.
A segunda questão abordada em “Reflexões sobre a Independência do Brasil na
obra de Caio Prado Jr.”, também decisiva do nosso ponto de vista, relaciona-se ao fato
de que, com Formação, ele estabelece um padrão no modo de conceber a história e que
se expressa, por exemplo, na maneira própria de ele compreender a Independência.
Essa maneira, por seu turno, acabou por determinar o enfoque dado a esse tema por
grande parte da historiografia brasileira. Mais interessante ainda é que esta maneira de
conceber a Independência foi compartilhada por historiadores das mais diferentes
tendências, o que, para nós, põe em evidência, mais uma vez, a grande preponderância
exercida – e que ainda exerce - por Caio Prado nos estudos históricos brasileiros.
Ressalte-se que nem sempre se trata de uma influência direta e imediata, mas de uma
adesão à sua maneira de conceber a história do Brasil.
Quanto à resenha e à palestra, embora menores no que diz respeito à sua
dimensão, são textos importantes para figurarem no livro. Neles procuramos
estabelecer o confronto entre nossa maneira de abordar o pensamento político de Caio
Prado e a de outros estudiosos. No texto “Caio Prado e a Revolução Russa”, ainda que
rapidamente, abordamos também a relação entre autor e sociedade, tal como a
entendemos. Evidentemente, o estudo da produção intelectual de qualquer autor
coloca sempre essa questão, mas a análise levou-nos à conclusão de que, no caso de
Caio Prado, a relação se coloca de uma maneira bastante intensa e, porque não dizer,
sintomática. A nosso ver, ao considerarmos a questão por este ângulo estamos dando
um peso também àqueles aos quais o autor se dirigia. Sob este aspecto, o estudo de
Caio Prado significa, igualmente, desvendar os homens de sua época. Afinal, como
justificar o êxito desse autor senão pelo fato de que parcela significativa dos seus
contemporâneos tenha se identificado com suas formulações?
Ao final, julgamos necessário precisar melhor algumas das constatações que se
tornaram o fio condutor da análise do pensamento político de Caio Prado.
A primeira delas diz respeito à diferença fundamental entre Evolução política,
primeiro livro de Caio Prado, e os escritos subseqüentes no que diz respeito à
concepção da história, à interpretação da história do Brasil e ao seu posicionamento
político. Embora estejamos tratando aqui de uma única mudança, entendemos que ela
se expressa nesses três aspectos, dos quais o último é o determinante. Trata-se de uma
questão fundamental, por isso nunca é demais reiterá-la. Por meio da comparação
entre Evolução e Formação poderemos compreender melhor em que consiste o
pensamento político de Caio Prado e o papel histórico por ele desempenhado.
A segunda constatação é que foi nos artigos de 1935 acerca do programa da
Aliança Nacional Libertadora, mas, principalmente, no livro Formação, que Caio Prado
elaborou a maneira própria de interpretar a história do Brasil que o caracterizou e o
levou ao reconhecimento público. Note-se, além disso, que esse autor não modificou,
ao longo da sua trajetória política e intelectual, na sua essência, esse modo de
interpretar a história do Brasil. A rigor, a única modificação substancial que se verifica
em suas formulações ao longo desse período, mas que não alterou, de maneira alguma,
as linhas mestras de sua interpretação, diz respeito à questão agrária. Com efeito, de
1935, pelo menos, quando trata explicitamente dessa questão, até 1960, Caio Prado foi
partidário da reforma agrária, isto é, do parcelamento e posterior distribuição da terra.
É apenas nos textos publicados entre 1960 e 1962, na Revista Brasiliense, que ele critica a
reforma agrária. Em 1966, quando publica A Revolução Brasileira, ele aprofunda essa
crítica. Evidentemente, esta mudança no enfoque da reforma agrária deve ser
considerada em um estudo sobre seu pensamento político, já que traz consigo
conseqüências importantes. Entretanto, deixamo-la para uma outra oportunidade, pois,
como chamamos a atenção, não implica uma mudança nas linhas gerais da sua
interpretação da história do Brasil, nem da sua proposta política.
Queremos frisar, ainda, que os textos ora publicados foram elaborados ao longo
de nossa pesquisa sobre o pensamento político de Caio Prado. Além de trazerem para
o debate algumas de nossas conclusões, eles testemunham nosso esforço para
compreender o significado histórico desse autor, ou seja, o papel que desempenhou ele
na cultura e na política brasileiras
CLADINEI MAGNO MAGRE MENDES, EDITADO PELA UEMA, EM 2008.
INTRODUÇÃO
Caio Prado Jr., não sem razão, é considerado pela grande maioria dos
estudiosos o mais importante dos historiadores brasileiros. Suas obras encontram-se
entre as que são reputadas como as mais significativas para a compreensão da história
brasileira. Dentre elas, Formação do Brasil contemporâneo é tida, mesmo por seus mais
ardorosos adversários, como a que causou maior impacto nos estudos históricos
brasileiros, ou seja, seria a obra decisiva sobre a história do Brasil. Além disso, a
interpretação da história do Brasil que o autor formula nesse livro manteve-se
hegemônica durante décadas. Mesmo nas novas maneiras de se conceber a história
brasileira que surgiram depois dele, encontramos determinadas formulações básicas de
sua autoria. Talvez a maior prova do seu sucesso seja o fato de que basta enunciar
aquela que é considerada a mais importante das suas contribuições para os estudos
sobre a época colonial – o “sentido da colonização” – para que todos o identifiquem
como seu autor. Com efeito, não existe maior consagração para um escritor do que ser
reconhecido pela simples menção à expressão que melhor caracteriza sua obra.
Este lugar de destaque alcançado por Caio Prado na historiografia brasileira
tem sido a justificativa de muitos estudiosos que examinam sua obra sob múltiplos
aspectos: político, econômico, social, filosófico, ideológico, etc. O lugar que ele
alcançou parece ser a razão maior para que tenha se tornado um dos autores mais
estudados nas duas últimas décadas.
Quanto a nós, diferentemente dos estudiosos que justificam seu estudo pela
importância que ele adquiriu, estamos mais interessados, justamente, em compreender
os motivos que o levaram a semelhante consagração e a alcançar essa grande
notoriedade no cenário cultural e político brasileiro. Evidentemente, reconhecemos que
se trata de um personagem com múltiplas qualidades, tanto no plano pessoal como no
intelectual, mas as descartamos como elementos explicativos de semelhante fenômeno.
De nosso ponto de vista, a explicação para o respeito e a consideração que, com toda
razão, se lhe tributa encontra-se na junção autor-sociedade. Mais do que isso: como
Caio Prado se destacou justamente como um pensador da política brasileira, é na
relação política entre ele e a sociedade de sua época que julgamos encontrar os motivos
que o levaram a obter tal sucesso e a percorrer tal trajetória intelectual.
Acreditamos, com efeito, que Caio Prado soube, melhor do que qualquer outro
autor, responder às exigências da sua época, fazendo-se uma espécie de intérprete das
tendências dominantes na sociedade. No entanto, sua obra historiográfica não faz dele
apenas um grande historiador. Considerá-lo apenas por este viés redunda em uma
visão parcial de sua trajetória intelectual e política. Mais do que um historiador, ele foi
um homem político, que atuou principalmente por meio de sua função de historiador.
Podemos dizer que foi um autor que fez da história um instrumento de luta política.
Sob este aspecto, como já salientado, seu sucesso não encontra similar no Brasil.
Em razão disso, acreditamos que, para se entender o papel de destaque que teve
na historiografia brasileira, o caminho mais acertado é o estudo de seu pensamento
político, que se encontra estribado em dois grandes pilares: o da sua interpretação da
história do Brasil e o da proposta política que, por meio de seus escritos, fez à
sociedade brasileira.
Centramos nossa análise justamente nos seus livros de história e nos seus textos
de intervenção política porque é neles, mais do que nos demais, que Caio Prado
explicita o seu pensamento político, possibilitando a sua apreensão. Nosso
procedimento se justifica por ter sido nos seus livros de história que ele exerceu sua
ação política de forma mais eficaz. Realmente, foi como historiador que se tornou
conhecido e foi por meio dos seus livros de história que teve uma influência
extraordinária.
Ao longo de nossas leituras, percebemos que, para analisar o seu pensamento
político, era necessário fazer uma leitura de seus textos em ordem cronológica, de
forma a apreender o significado de cada um deles no conjunto da sua produção
intelectual. Pudemos, com isso, verificar quais formulações novas Caio Prado fez e
quais abandonou no processo de constituição do seu pensamento político
Dentre as constatações a que chegamos e que julgamos essenciais para a
compreensão do seu pensamento político, encontra-se a percepção de que houve uma
ruptura fundamental entre Evolução política do Brasil, de 1933, e Formação do Brasil
contemporâneo, publicado em 1942. Trata-se de uma questão importante, nem sempre
percebida, ainda que muitas vezes intuída, pelos seus estudiosos. Evolução é, a rigor, o
único livro marxista de Caio Prado e, em Formação, ele modifica claramente sua
concepção de história.
É verdade que já se chamou a atenção para a existência de uma diferença entre
eles. Todavia, esta é atribuída a uma compreensão mais heterodoxa do marxismo e,
principalmente, à sua aproximação com a Geografia. Evidentemente, tal aproximação é
importante em sua trajetória intelectual, mas não explica a mudança. Caio Prado
aproximou-se da Geografia justamente para buscar elementos que lhe permitissem
romper com o marxismo e abandonar a luta de classes como fator explicativo da
história brasileira. Em suma, a mudança em seu posicionamento político ocorreu por
meio de uma aproximação com a Geografia. Embora constituam faces de uma mesma
moeda, em última instância, foi a mudança no seu posicionamento político que o levou
a se aproximar da Geografia.
A leitura cronológica e comparativa das obras de Caio Prado permite-nos
identificar, em sua participação na Aliança Nacional Libertadora, em 1935, o momento
de ruptura com a sua concepção de história fundada na luta de classes e que se
encontra expressa em Evolução. Neste livro, que ele escreve movido pela sua recente
adesão ao Partido Comunista e ao marxismo e, muito provavelmente, sob o impulso de
um grande otimismo quanto às transformações sociais, a luta de classes constitui o fio
condutor da explicação da história. Entretanto, pouco tempo depois, envolve-se nas
atividades da Aliança Nacional Libertadora, uma frente política de luta pela libertação
nacional que, pelas suas próprias características, busca a união e não o confronto entre
amplos setores da sociedade. Não se trata, portanto, da libertação de uma classe, mas
de toda a nação. A partir de então, o pensamento político de Caio Prado se modifica
radicalmente. Esta nova direção consubstancia-se na obra Formação do Brasil
contemporâneo, na qual a luta de classes como linha mestra desaparece. Uma
comparação entre os artigos que publicou em 1935 acerca do programa da Aliança
Nacional e o livro Formação permite-nos, inclusive, afirmar que este último já se
encontra em gérmen naqueles.
Com base nessa constatação, pudemos interpretar a obra de Caio Prado sob
outra luz e perceber o imenso papel desempenhado pelo conceito de “sentido da
colonização” na sua interpretação da história do Brasil e, por extensão, em suas
formulações políticas. Menos do que uma explicação do processo colonial, este conceito
tinha como objetivo articular os dois pólos ou as duas formas sociais extremas entre as
quais, segundo sua maneira de conceber, transitaria o processo histórico brasileiro.
Com efeito, para ele, o processo histórico brasileiro caracterizar-se-ia justamente pela
passagem de uma economia colonial para uma economia nacional. De seu ponto de
vista, as características da economia colonial haviam sido dadas pelo sentido da
colonização, isto é, o de produzir para atender às necessidades do mercado externo. O
estabelecimento da economia nacional, cuja produção seria organizada para o
atendimento das necessidades da população, constituía a maneira de superar essas
características coloniais da economia brasileira.
Ao afirmar que a história do Brasil se caracterizava justamente por esta
transformação, Caio Prado pretendia, embora nunca o tenha explicitado, ir muito além
de uma interpretação alternativa da história brasileira. Sua intenção era romper com a
interpretação baseada na seqüência feudalismo-capitalismo-socialismo. Em última
análise, defendia a tese de que, diferentemente da Europa, por exemplo, a história do
Brasil possuía outras características. Assim, ele não estava em luta apenas contra o
marxismo esquemático e mecanicista do Partido Comunista, como querem muitos dos
seus estudiosos. Ainda que seu interlocutor fosse o Partido Comunista, a verdade é que
sua interpretação vai além das formulações desse partido, já que afirma que, pelas
condições existentes no Brasil, sua evolução histórica caracterizava-se pela
transformação da economia colonial em economia nacional.
Desse modo, para Caio Prado, a economia nacional era uma forma de
estruturação da sociedade, fato que seus estudiosos não perceberam. Ao contrário,
interpretaram esta proposição como se ele estivesse tratando da constituição da Nação,
da organização da economia brasileira (nacional) e assim por diante. Por economia
nacional, Caio Prado entendia uma forma específica de organização da economia:
aquela fundada na produção voltada para o atendimento das necessidades da
população brasileira.
Por conseguinte, segundo a maneira de Caio Prado compreender a história
brasileira, o Brasil havia conhecido, ou estava conhecendo, basicamente, duas formas
de estruturação ou organização da sua economia ou sociedade. A primeira, a colonial,
que havia sido estabelecida por meio da colonização e que, ainda à época da
publicação do livro Formação, era a dominante. A segunda, a nacional, que estava em
vias de se constituir, mediante a superação da forma colonial.
Por isso, Formação do Brasil contemporâneo é um marco decisivo na trajetória
política e intelectual de Caio Prado. Neste livro de ruptura, encontramos todos os
elementos e motivos que o levaram a alcançar um grande sucesso e a exercer uma
imensa influência sobre os estudos históricos: uma nova concepção de história, que
substituía a luta de classes por uma política de conciliação entre amplos setores sociais;
a concepção de que a libertação almejada era a da nação, ao invés de uma classe; a
concepção de que o foco e o estímulo da transformação era o mercado interno; por fim,
a concepção de que a transformação social decorreria da ação do Estado.
Estas considerações preliminares expressam o fio condutor dos seis textos que
compõem o livro e que são resultantes do estudo que, ao menos desde 1996, estamos
realizando, de modo sistemático, sobre o pensamento político de Caio Prado Jr. Três
deles já foram publicados, mas temos pelo menos dois motivos para incluí-los neste
volume. O primeiro é que, com exceção da resenha, eles tiveram uma circulação
restrita. O segundo, e o mais importante, é que, de certa maneira, eles deixam mais
claros os escritos posteriores.
O primeiro texto para o qual queremos chamar a atenção é “Caio Prado Jr. e a
história do Brasil. A colonização como produção para o mercado externo”. Ainda que
elaborado alguns anos atrás - foi redigido em 1996, como parte de um capítulo da
nossa tese de doutorado, e publicado separadamente em 1997 –, esse artigo é
fundamental para a compreensão das questões tratadas nos demais, uma vez que, nele,
assinalamos a estreita ligação entre a interpretação da história do Brasil contida em
Formação e a proposta política do autor. Basicamente, essa proposta consiste na
afirmação de que a superação das características coloniais da economia brasileira se
faria por meio do estabelecimento de uma economia nacional. A nosso ver, essa ligação
é essencial para a compreensão do pensamento político de Caio Prado.
Outro texto que consideramos fundamental para se compreender as questões
tratadas neste livro diz respeito ao marxismo e foi escrito por ocasião das
comemorações dos cento e cinqüenta anos de publicação de O Manifesto do Partido
Comunista. Embora não seja específico sobre Caio Prado, ele contém reflexões que
orientaram nossos estudos sobre seu pensamento político, especialmente o papel,
decisivo do nosso ponto de vista, desempenhado por partidos e intelectuais que, no
seio da esquerda e, freqüentemente, no interior do próprio marxismo, combateram
tanto a proposta de socialismo como a própria doutrina marxista. Destacamos também
nossa concepção de que, atualmente, menos do que fazer uma crítica, é fundamental
realizar uma avaliação histórica do papel desempenhado pelos partidos e intelectuais
de esquerda em todo esse processo.
É exatamente isso que procuramos fazer com relação a Caio Prado. Não
estamos interessados em fazer uma crítica de seus textos ou mesmo da sua atuação
política. Sua produção e sua atuação fazem parte de um processo que pertence ao
passado e, por isso, já não cabe fazer uma crítica ou travar uma polêmica com o
historiador ou o homem político. Inclusive, cabe aqui uma passagem de Spinoza que
orienta nosso estudo: “Não rir, não lamentar, não odiar. Compreender.” Entretanto,
apesar de serem parte de um processo que pertence a uma outra época histórica, suas
formulações têm enorme repercussão na atualidade. Portanto, o interesse em
compreender historicamente Caio Prado implica entender também a razão pela qual,
ainda hoje, suas formulações continuam a usufruir de um enorme prestígio entre os
historiadores. Por isso, no conjunto das questões abordadas, colocamos para o debate
nossas reflexões não apenas sobre o papel histórico desempenhado por ele, mas
também sobre a abrangência de sua trajetória política e intelectual.
Quanto aos textos que estamos publicando pela primeira vez, queremos
destacar que, em “Considerações sobre o estudo do pensamento político de Caio Prado
Jr.”, procuramos fazer, a um só tempo, uma crítica da historiografia a ele relativa e uma
reflexão sobre as questões metodológicas que envolvem o estudo do seu pensamento
político. Com efeito, nas considerações sobre qualquer historiografia e, no caso
específico, sobre os estudos acerca de Caio Prado, é preciso investigar seus aspectos
metodológicos, de forma a compreender o ponto de partida dos estudiosos. Ao mesmo
tempo, ao examinar essa historiografia, com especial atenção para o seu ponto de
partida metodológico, cabe um debate acerca do caminho mais adequado para o seu
entendimento. Por conseguinte, as considerações feitas são resultantes tanto da análise
que fizemos de sua obra com o objetivo de apreender o seu pensamento político como
do confronto com a forma como os demais autores o abordaram.
No texto “Reflexões sobre a Independência do Brasil na obra de Caio Prado Jr.”
abordamos as várias questões que têm se colocado para nós no estudo do seu
pensamento político. A primeira delas diz respeito à mudança verificada na concepção de história deCaio Prado quando comparamos os livros Evolução política do Brasil e Formação do Brasil
contemporâneo. Ou seja, diz respeito à inflexão radical no posicionamento político de
Caio Prado, expressa no seu modo de conceber a história e, consequentemente, na sua
maneira de interpretar a história do Brasil.
Poder-se-ia abordar esta questão de várias maneiras. Optamos por examinar
como a Independência do Brasil aparece nas duas obras, mas sem nos limitamos a uma
simples comparação. De uma forma mais abrangente, centramos a análise dessa
mudança no fato de que a Independência desempenha um papel estratégico na
interpretação da história do Brasil em Evolução e em Formação. Nosso objetivo é
examinar qual é a posição estratégica que esse acontecimento ocupa em cada uma das
duas obras. Esse exame confirma a existência de duas maneiras distintas de se conceber
a história, com todas as suas implicações. A maneira diferenciada com que o autor
aborda a Independência decorre da própria avaliação que ele fez desse fato nas duas
obras, ou seja, de sua atitude para com a Independência nos livros Evolução e Formação.
Na origem dessa diferença, encontramos precisamente a mudança de posicionamento
político de Caio Prado.
A segunda questão abordada em “Reflexões sobre a Independência do Brasil na
obra de Caio Prado Jr.”, também decisiva do nosso ponto de vista, relaciona-se ao fato
de que, com Formação, ele estabelece um padrão no modo de conceber a história e que
se expressa, por exemplo, na maneira própria de ele compreender a Independência.
Essa maneira, por seu turno, acabou por determinar o enfoque dado a esse tema por
grande parte da historiografia brasileira. Mais interessante ainda é que esta maneira de
conceber a Independência foi compartilhada por historiadores das mais diferentes
tendências, o que, para nós, põe em evidência, mais uma vez, a grande preponderância
exercida – e que ainda exerce - por Caio Prado nos estudos históricos brasileiros.
Ressalte-se que nem sempre se trata de uma influência direta e imediata, mas de uma
adesão à sua maneira de conceber a história do Brasil.
Quanto à resenha e à palestra, embora menores no que diz respeito à sua
dimensão, são textos importantes para figurarem no livro. Neles procuramos
estabelecer o confronto entre nossa maneira de abordar o pensamento político de Caio
Prado e a de outros estudiosos. No texto “Caio Prado e a Revolução Russa”, ainda que
rapidamente, abordamos também a relação entre autor e sociedade, tal como a
entendemos. Evidentemente, o estudo da produção intelectual de qualquer autor
coloca sempre essa questão, mas a análise levou-nos à conclusão de que, no caso de
Caio Prado, a relação se coloca de uma maneira bastante intensa e, porque não dizer,
sintomática. A nosso ver, ao considerarmos a questão por este ângulo estamos dando
um peso também àqueles aos quais o autor se dirigia. Sob este aspecto, o estudo de
Caio Prado significa, igualmente, desvendar os homens de sua época. Afinal, como
justificar o êxito desse autor senão pelo fato de que parcela significativa dos seus
contemporâneos tenha se identificado com suas formulações?
Ao final, julgamos necessário precisar melhor algumas das constatações que se
tornaram o fio condutor da análise do pensamento político de Caio Prado.
A primeira delas diz respeito à diferença fundamental entre Evolução política,
primeiro livro de Caio Prado, e os escritos subseqüentes no que diz respeito à
concepção da história, à interpretação da história do Brasil e ao seu posicionamento
político. Embora estejamos tratando aqui de uma única mudança, entendemos que ela
se expressa nesses três aspectos, dos quais o último é o determinante. Trata-se de uma
questão fundamental, por isso nunca é demais reiterá-la. Por meio da comparação
entre Evolução e Formação poderemos compreender melhor em que consiste o
pensamento político de Caio Prado e o papel histórico por ele desempenhado.
A segunda constatação é que foi nos artigos de 1935 acerca do programa da
Aliança Nacional Libertadora, mas, principalmente, no livro Formação, que Caio Prado
elaborou a maneira própria de interpretar a história do Brasil que o caracterizou e o
levou ao reconhecimento público. Note-se, além disso, que esse autor não modificou,
ao longo da sua trajetória política e intelectual, na sua essência, esse modo de
interpretar a história do Brasil. A rigor, a única modificação substancial que se verifica
em suas formulações ao longo desse período, mas que não alterou, de maneira alguma,
as linhas mestras de sua interpretação, diz respeito à questão agrária. Com efeito, de
1935, pelo menos, quando trata explicitamente dessa questão, até 1960, Caio Prado foi
partidário da reforma agrária, isto é, do parcelamento e posterior distribuição da terra.
É apenas nos textos publicados entre 1960 e 1962, na Revista Brasiliense, que ele critica a
reforma agrária. Em 1966, quando publica A Revolução Brasileira, ele aprofunda essa
crítica. Evidentemente, esta mudança no enfoque da reforma agrária deve ser
considerada em um estudo sobre seu pensamento político, já que traz consigo
conseqüências importantes. Entretanto, deixamo-la para uma outra oportunidade, pois,
como chamamos a atenção, não implica uma mudança nas linhas gerais da sua
interpretação da história do Brasil, nem da sua proposta política.
Queremos frisar, ainda, que os textos ora publicados foram elaborados ao longo
de nossa pesquisa sobre o pensamento político de Caio Prado. Além de trazerem para
o debate algumas de nossas conclusões, eles testemunham nosso esforço para
compreender o significado histórico desse autor, ou seja, o papel que desempenhou ele
na cultura e na política brasileiras
sexta-feira, setembro 05, 2008
FIQUEM RICOS!
Por Carlos Alberto Sardenberg
07/08/2008
É PRECISO QUE EMPRESAS E PESSOAS ENRIQUEÇAM
-- Fiquem Ricos!
Rosa: “Eu quero viajar mais, eu quero passar um tempo fora estudando. Dá pra chegar no fim do mês com o orçamento tranqüilo, mas a gente sempre quer alguma coisa melhor”. A frase, de uma moça, promotora de eventos, encerrou reportagem do Jornal da Globo, edição de terça-feira, sobre a emergência da classe média, apontada em pesquisa da FGV.
A escolha da personagem, um achado, levanta as questões corretas. Quem é Rosa? Uma pessoa egoísta, preocupada apenas com sua situação individual? Ou um agente de transformações sociais e econômicas para o país? Não há exclusão.
Rosa desempenha os dois papéis. Na verdade, quanto mais conseguir melhorar a sua vida, maior impacto positivo ela levará para a sociedade. É possível medir o dinamismo de um país _ e talvez seja mesmo a melhor medida _ avaliando quanto as pessoas conseguem evoluir ao longo de sua vida. Se uma pessoa começa sua atividade profissional vendendo salgadinhos de porta em porta e termina dona de uma rede de restaurantes, isso representa um êxito individual, é óbvio, mas também mostra que o país abriu a oportunidade para essa criação de valor _ para ela e para a sociedade. Do mesmo, modo se a pessoa se torna um profissional competente, produtivo, ganhou ela, ganhou a companhia onde trabalha, ganhou a sociedade. Dito assim, parece simples. Mas quando se observa o cenário nacional, parece que muita gente pensa exatamente o contrário, que o governo é o principal agente do desenvolvimento. Eis dois exemplos, dois temas em discussão dentro e fora do governo, que tratam de coisas muito diferentes, mas que resultam da mesma concepção ideológica: 1) a proposta de aumento do imposto de renda da pessoa física e 2) a proposta de criação de uma estatal pura para explorar o petróleo da camada do pré-sal. Nos dois casos, está entendido que o país melhora quando se coloca mais dinheiro nas mãos do governo. Mas se fosse assim, o Brasil deveria ser o melhor entre os emergentes, pois é aqui que está a maior carga tributária nesse grupo de nações. Também se fosse assim, os setores estatizados na economia brasileira deveriam ir melhor que os privados. É não é assim. Na verdade, a ascensão da classe média e seu modo de vida provam o contrário, que o Estado fracassa até naquelas que deveriam ser suas funções essenciais. A classe média, assim que pode, paga planos de saúde privados, coloca seus filhos em escolas particulares e compra um fundo de pensão pessoal. Por que faz isso, mesmo sabendo que, querendo ou não, paga os impostos que financiam aqueles mesmos serviços prestados pelo Estado? Porque é elitista ou porque se julga melhor atendida no privado? Olhando pelo outro lado: as empresas privadas de saúde, que hoje atendem mais de 45 milhões de pessoas, as escolas e as universidades particulares, que atendem mais alunos que as publicas, e as instituições financeiras privadas são parasitas ou companhias que geram serviço, valor e empregos? Sendo as respostas óbvias, pelo simples bom senso, deveria resultar daí uma política de redução de impostos para a classe média e, ao mesmo tempo, de melhora no ambiente de negócios para que pudessem prosperar as famílias e as empresas. No caso do petróleo do pré-sal, argumenta-se que será necessária uma estatal pura para que essa riqueza toda pertença ao povo brasileiro. Mas quem disse que pertencendo ao governo e sendo administrada pelo governo, essa coisa sempre pertence ao povo? O que o povo ganha quando o governo ocupa as estatais com seus correligionários e coloca obras em estados e cidades administrados pelos aliados políticos? Por outro lado, quem disse que as companhias privadas geram riqueza apenas para seus acionistas? Exatamente como acontece com as pessoas quando melhoram de vida, quando as empresas crescem, produzem mais, geram mais valor e empregos, é a economia local que se torna mais rica. Resumindo, um país é tão rico quanto seus cidadãos e suas empresas. Mais ainda, o que gera crescimento é o investimento e a criação de valor pelas pessoas e empresas privadas. O governo, quando transfere renda, não cria nada, apenas tira de uns e entrega a outros. O governo ajuda a criar valor quando, por exemplo, oferece boas escolas e segurança para que as pessoas vivam, trabalhem e se apropriem do fruto de seu desempenho. E quando oferece segurança jurídica e bom ambiente de negócios para as empresas, o que não faz corretamente.
Como diria Deng Xio Ping, é preciso que todos melhorem de vida e que muitos enriqueçam. Publicado em O Globo, 07 de agosto de 2008.
07/08/2008
É PRECISO QUE EMPRESAS E PESSOAS ENRIQUEÇAM
-- Fiquem Ricos!
Rosa: “Eu quero viajar mais, eu quero passar um tempo fora estudando. Dá pra chegar no fim do mês com o orçamento tranqüilo, mas a gente sempre quer alguma coisa melhor”. A frase, de uma moça, promotora de eventos, encerrou reportagem do Jornal da Globo, edição de terça-feira, sobre a emergência da classe média, apontada em pesquisa da FGV.
A escolha da personagem, um achado, levanta as questões corretas. Quem é Rosa? Uma pessoa egoísta, preocupada apenas com sua situação individual? Ou um agente de transformações sociais e econômicas para o país? Não há exclusão.
Rosa desempenha os dois papéis. Na verdade, quanto mais conseguir melhorar a sua vida, maior impacto positivo ela levará para a sociedade. É possível medir o dinamismo de um país _ e talvez seja mesmo a melhor medida _ avaliando quanto as pessoas conseguem evoluir ao longo de sua vida. Se uma pessoa começa sua atividade profissional vendendo salgadinhos de porta em porta e termina dona de uma rede de restaurantes, isso representa um êxito individual, é óbvio, mas também mostra que o país abriu a oportunidade para essa criação de valor _ para ela e para a sociedade. Do mesmo, modo se a pessoa se torna um profissional competente, produtivo, ganhou ela, ganhou a companhia onde trabalha, ganhou a sociedade. Dito assim, parece simples. Mas quando se observa o cenário nacional, parece que muita gente pensa exatamente o contrário, que o governo é o principal agente do desenvolvimento. Eis dois exemplos, dois temas em discussão dentro e fora do governo, que tratam de coisas muito diferentes, mas que resultam da mesma concepção ideológica: 1) a proposta de aumento do imposto de renda da pessoa física e 2) a proposta de criação de uma estatal pura para explorar o petróleo da camada do pré-sal. Nos dois casos, está entendido que o país melhora quando se coloca mais dinheiro nas mãos do governo. Mas se fosse assim, o Brasil deveria ser o melhor entre os emergentes, pois é aqui que está a maior carga tributária nesse grupo de nações. Também se fosse assim, os setores estatizados na economia brasileira deveriam ir melhor que os privados. É não é assim. Na verdade, a ascensão da classe média e seu modo de vida provam o contrário, que o Estado fracassa até naquelas que deveriam ser suas funções essenciais. A classe média, assim que pode, paga planos de saúde privados, coloca seus filhos em escolas particulares e compra um fundo de pensão pessoal. Por que faz isso, mesmo sabendo que, querendo ou não, paga os impostos que financiam aqueles mesmos serviços prestados pelo Estado? Porque é elitista ou porque se julga melhor atendida no privado? Olhando pelo outro lado: as empresas privadas de saúde, que hoje atendem mais de 45 milhões de pessoas, as escolas e as universidades particulares, que atendem mais alunos que as publicas, e as instituições financeiras privadas são parasitas ou companhias que geram serviço, valor e empregos? Sendo as respostas óbvias, pelo simples bom senso, deveria resultar daí uma política de redução de impostos para a classe média e, ao mesmo tempo, de melhora no ambiente de negócios para que pudessem prosperar as famílias e as empresas. No caso do petróleo do pré-sal, argumenta-se que será necessária uma estatal pura para que essa riqueza toda pertença ao povo brasileiro. Mas quem disse que pertencendo ao governo e sendo administrada pelo governo, essa coisa sempre pertence ao povo? O que o povo ganha quando o governo ocupa as estatais com seus correligionários e coloca obras em estados e cidades administrados pelos aliados políticos? Por outro lado, quem disse que as companhias privadas geram riqueza apenas para seus acionistas? Exatamente como acontece com as pessoas quando melhoram de vida, quando as empresas crescem, produzem mais, geram mais valor e empregos, é a economia local que se torna mais rica. Resumindo, um país é tão rico quanto seus cidadãos e suas empresas. Mais ainda, o que gera crescimento é o investimento e a criação de valor pelas pessoas e empresas privadas. O governo, quando transfere renda, não cria nada, apenas tira de uns e entrega a outros. O governo ajuda a criar valor quando, por exemplo, oferece boas escolas e segurança para que as pessoas vivam, trabalhem e se apropriem do fruto de seu desempenho. E quando oferece segurança jurídica e bom ambiente de negócios para as empresas, o que não faz corretamente.
Como diria Deng Xio Ping, é preciso que todos melhorem de vida e que muitos enriqueçam. Publicado em O Globo, 07 de agosto de 2008.
terça-feira, julho 08, 2008
DE OPRIMIDOS E OPRESSORES
Reinaldo Azevedo
Fiz ontem, vejam lá, algumas considerações sobre a situação africana. E recebi um comentário interessante. Na sua crueza, não é muito diferente do que pensa de seus adversários uma Marilena Chaui, por exemplo, embora ela busque colocar um pouco mais de recheio filosófico em seu rocambole filototalitário. Lá vai a questão: “Reinaldo, por que [ele acentuou esse “que”, e eu já dei essa aula...] você fica sempre do lado dos opressores e não dos oprimidos? Isso é ser de direita, ou você quer ser do contra? Explica pra nós vai.”
Se eu tivesse de escolher uma dessas duas opções ou ir para a forca, eu diria que é porque “quero ser do contra” — de fato, tem mais a ver com meu temperamento. Mas depois me ocorre que só se é “do contra”, nesta acepção que designa o sujeito que sempre reclama, quando estão plasmados consensos. Como esses consensos, especialmente na esfera dos valores morais e culturais, são de esquerda, então esse meu gosto pelo “contra” acaba assumindo, na geografia dada, uma característica que dizem ser “de direita”. Não sei se confundo o pobre leitor que fez a pergunta, mas o fato é que comecei o parágrafo para lhe dizer que sou do contra e concluo afirmando que, dados os consensos (e só nessa circunstância), sou tambem de direita.
Alguns tontinhos, especialmente alguns desafetos da mesma profissão, acreditam que, sei lá, aderi a uma moda que acho divertida. Moda? Somos quantos mesmo? Quatro? Cinco? Seis no máximo. A nossa multidão não lota uma Kombi. Mas volto à indagação do meu amigo. Não é verdade que eu esteja sempre do lado dos opressores — em causas recentes ou passadas. Nunca defendi os fascistas, mas os meus “oprimidos” não eram os comunistas. Se leio sobre Roma Antiga, por exemplo, não é que eu hostilize os povos dominados — é que acredito firmemente que a expansão da cultura latina foi um bem para a humanidade.
Se eu pudesse ter escolhido, caro leitor, talvez tivesse impedido a expansão mercantil e as grandes navegações dos séculos 15 e 16. Os europeus teriam ficado quietinhos lá no canto deles; os nossos nativos passariam a eternidade batendo o pé no chão para acordar os mortos; os africanos continuariam lá tocando a sua vidinha buliçosa, cheia de cultos animistas — sobre a expansão do Islã, ainda não decidi se teria interferido ou não: conhecendo-me um pouco, acho que sim. E os chineses? Bem, chineses, indianos, japoneses protegeriam de olhares curiosos sua sabedoria milenar, cheia de significados para... chineses, indianos e japoneses. Mas o mundo não se fez assim, entende? Não se fez.
O que é estar sempre “do lado do opressor”? É não olhar com os olhos da moral contemporânea a expansão mercantil, por exemplo? Se os povos pré-colombianos tivessem dominado uma técnica que lhes permitisse sair ao mar, colonizando outras terras, o mundo seria mais justo? Tenho sólidas razões para duvidar disso. Como rejeito essa conversa mole de “Mãe África”. Os negros escravos dos brancos portugueses e brasileiros não sofreram mais aqui do que teriam sofrido nas mãos de seus senhores. Nego, com isso, os horrores da escravidão? De jeito nenhum! Eu apenas demonstro que as noções contemporâneas que temos de igualdade e de justiça são uma construção deste tempo. E cumpre que façamos o melhor do que fizeram de nós, em vez de tentar fazer a história voltar para trás.
Mas sua pergunta não é de todo descabida. Eu, com efeito, prefiro as reformas às revoluções; prefiro os processos de construção da igualdade, preservando o que tem de ser preservado, às rupturas, que, não raro, degeneram em violência, morte e novos horrores, mas aí com a chancela moral da “libertação”. Poucos regimes foram tão essencialmente autoritários, violentos e homicidas quanto a vigência do Terror jacobino, durante a Revolução Francesa. E poucos discursos foram tão humanistas quanto o daqueles revolucionários. Fascismo e socialismo, no século passado, falavam em nome da libertação.
Talvez eu seja, contra a minha própria inclinação, um otimista e acredite, veja que coisa, no progresso, dadas certas precondições, como democracia representativa, por exemplo. E tenho algumas convicções. Não aposto em iniciativas que contrariem a economia de mercado porque acho que ela está mais bem-adaptada a alguma coisa que chamo de “espírito humano”, à falta de uma definição mais precisa.
O cérebro desse macaco sem pêlo, que somos nós, impele-nos, por alguma razão, à competição e à busca do novo. Falharam todas as tentativas de aprisioná-lo. Por que os MSTs da vida e sua pantomima revolucionária me entendiam? Porque sei que eles vão continuar a consumir alguns bilhões de recursos públicos para... nada! Ou, sim, para alguma coisa: para continuar a alimentar a própria causa. Acredito na “tal luta dos oprimidos”? Acredito, por exemplo, em quem se organiza para a formalização da mão-de-obra empregada pela agroindústria. O MST quer outra coisa: uma espécie de éden comunista, já testado e rejeitado pela história.
Veja que coisa, leitor: considero que João Pedro Stédile é, ele sim, um opressor daquela gente que ele mobiliza. Até porque o seu modelo não prevê que os “sem-terra” recebam o seu quinhão para, sei lá, cuidar da vida e progredir como seres autônomos: eles passam a pertencer a uma categoria que há de persegui-los até a morte: serão para sempre assentados sem-terra, devendo vassalagem ao seu suserano: o MST. Quem é o opressor dessa história?E arremato lembrando que o “discurso do oprimido”, como uma visão de mundo, é um contradição dada pelos próprios termos. O oprimido de verdade está esmagado pelo silêncio. Se o sujeito é dotado de uma fala organizada, então já é um ator político. E se, como tal, reivindica, ainda assim, a condição de um oprimido, ele já começou a construir o discurso do opressor — e do pior deles: aquele que busca o direito histórico ao uso legítimo da violência. Não se esqueçam de que na base do fascismo, por exemplo, estava um recalque. Diria mesmo que ele foi a explosão violenta do recalcado.
Ontem, os sem-terra se organizaram em Parauapebas, no Pará, para tentar libertar na marra um dos seus que tinham sido preso. Era seu particular senso de justiça em ação. Foram reprimidos pela Polícia, os pobrezinhos. A poucos ocorre que eles estavam lá para oprimir o estado democrático e de direito, que não se construiu da noite para o dia.
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/ 08.07.08
Fiz ontem, vejam lá, algumas considerações sobre a situação africana. E recebi um comentário interessante. Na sua crueza, não é muito diferente do que pensa de seus adversários uma Marilena Chaui, por exemplo, embora ela busque colocar um pouco mais de recheio filosófico em seu rocambole filototalitário. Lá vai a questão: “Reinaldo, por que [ele acentuou esse “que”, e eu já dei essa aula...] você fica sempre do lado dos opressores e não dos oprimidos? Isso é ser de direita, ou você quer ser do contra? Explica pra nós vai.”
Se eu tivesse de escolher uma dessas duas opções ou ir para a forca, eu diria que é porque “quero ser do contra” — de fato, tem mais a ver com meu temperamento. Mas depois me ocorre que só se é “do contra”, nesta acepção que designa o sujeito que sempre reclama, quando estão plasmados consensos. Como esses consensos, especialmente na esfera dos valores morais e culturais, são de esquerda, então esse meu gosto pelo “contra” acaba assumindo, na geografia dada, uma característica que dizem ser “de direita”. Não sei se confundo o pobre leitor que fez a pergunta, mas o fato é que comecei o parágrafo para lhe dizer que sou do contra e concluo afirmando que, dados os consensos (e só nessa circunstância), sou tambem de direita.
Alguns tontinhos, especialmente alguns desafetos da mesma profissão, acreditam que, sei lá, aderi a uma moda que acho divertida. Moda? Somos quantos mesmo? Quatro? Cinco? Seis no máximo. A nossa multidão não lota uma Kombi. Mas volto à indagação do meu amigo. Não é verdade que eu esteja sempre do lado dos opressores — em causas recentes ou passadas. Nunca defendi os fascistas, mas os meus “oprimidos” não eram os comunistas. Se leio sobre Roma Antiga, por exemplo, não é que eu hostilize os povos dominados — é que acredito firmemente que a expansão da cultura latina foi um bem para a humanidade.
Se eu pudesse ter escolhido, caro leitor, talvez tivesse impedido a expansão mercantil e as grandes navegações dos séculos 15 e 16. Os europeus teriam ficado quietinhos lá no canto deles; os nossos nativos passariam a eternidade batendo o pé no chão para acordar os mortos; os africanos continuariam lá tocando a sua vidinha buliçosa, cheia de cultos animistas — sobre a expansão do Islã, ainda não decidi se teria interferido ou não: conhecendo-me um pouco, acho que sim. E os chineses? Bem, chineses, indianos, japoneses protegeriam de olhares curiosos sua sabedoria milenar, cheia de significados para... chineses, indianos e japoneses. Mas o mundo não se fez assim, entende? Não se fez.
O que é estar sempre “do lado do opressor”? É não olhar com os olhos da moral contemporânea a expansão mercantil, por exemplo? Se os povos pré-colombianos tivessem dominado uma técnica que lhes permitisse sair ao mar, colonizando outras terras, o mundo seria mais justo? Tenho sólidas razões para duvidar disso. Como rejeito essa conversa mole de “Mãe África”. Os negros escravos dos brancos portugueses e brasileiros não sofreram mais aqui do que teriam sofrido nas mãos de seus senhores. Nego, com isso, os horrores da escravidão? De jeito nenhum! Eu apenas demonstro que as noções contemporâneas que temos de igualdade e de justiça são uma construção deste tempo. E cumpre que façamos o melhor do que fizeram de nós, em vez de tentar fazer a história voltar para trás.
Mas sua pergunta não é de todo descabida. Eu, com efeito, prefiro as reformas às revoluções; prefiro os processos de construção da igualdade, preservando o que tem de ser preservado, às rupturas, que, não raro, degeneram em violência, morte e novos horrores, mas aí com a chancela moral da “libertação”. Poucos regimes foram tão essencialmente autoritários, violentos e homicidas quanto a vigência do Terror jacobino, durante a Revolução Francesa. E poucos discursos foram tão humanistas quanto o daqueles revolucionários. Fascismo e socialismo, no século passado, falavam em nome da libertação.
Talvez eu seja, contra a minha própria inclinação, um otimista e acredite, veja que coisa, no progresso, dadas certas precondições, como democracia representativa, por exemplo. E tenho algumas convicções. Não aposto em iniciativas que contrariem a economia de mercado porque acho que ela está mais bem-adaptada a alguma coisa que chamo de “espírito humano”, à falta de uma definição mais precisa.
O cérebro desse macaco sem pêlo, que somos nós, impele-nos, por alguma razão, à competição e à busca do novo. Falharam todas as tentativas de aprisioná-lo. Por que os MSTs da vida e sua pantomima revolucionária me entendiam? Porque sei que eles vão continuar a consumir alguns bilhões de recursos públicos para... nada! Ou, sim, para alguma coisa: para continuar a alimentar a própria causa. Acredito na “tal luta dos oprimidos”? Acredito, por exemplo, em quem se organiza para a formalização da mão-de-obra empregada pela agroindústria. O MST quer outra coisa: uma espécie de éden comunista, já testado e rejeitado pela história.
Veja que coisa, leitor: considero que João Pedro Stédile é, ele sim, um opressor daquela gente que ele mobiliza. Até porque o seu modelo não prevê que os “sem-terra” recebam o seu quinhão para, sei lá, cuidar da vida e progredir como seres autônomos: eles passam a pertencer a uma categoria que há de persegui-los até a morte: serão para sempre assentados sem-terra, devendo vassalagem ao seu suserano: o MST. Quem é o opressor dessa história?E arremato lembrando que o “discurso do oprimido”, como uma visão de mundo, é um contradição dada pelos próprios termos. O oprimido de verdade está esmagado pelo silêncio. Se o sujeito é dotado de uma fala organizada, então já é um ator político. E se, como tal, reivindica, ainda assim, a condição de um oprimido, ele já começou a construir o discurso do opressor — e do pior deles: aquele que busca o direito histórico ao uso legítimo da violência. Não se esqueçam de que na base do fascismo, por exemplo, estava um recalque. Diria mesmo que ele foi a explosão violenta do recalcado.
Ontem, os sem-terra se organizaram em Parauapebas, no Pará, para tentar libertar na marra um dos seus que tinham sido preso. Era seu particular senso de justiça em ação. Foram reprimidos pela Polícia, os pobrezinhos. A poucos ocorre que eles estavam lá para oprimir o estado democrático e de direito, que não se construiu da noite para o dia.
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/ 08.07.08
quarta-feira, julho 02, 2008
ERRAR É HUMANAS
ERRAR É HUMANAS
Gustavo Ioschpe
Eu só descobri que não entendia nada de matemática quando conversava com um colega russo, no mestrado, sobre o assunto. Aquilo que pra mim exigia um grande esforço mental, de montagem de equações e de tentativa de operações algébricas, para ele era visivelmente algo automático, instintivo, como a construção de uma frase em sua língua natal. Não sei exatamente como os russos ou os asiáticos ensinam a matemática, mas hoje entendo por que o nosso ensino é tão fraco. No Brasil, não se ensina matemática.
Se ensina a resolução de problemas matemáticos.
Nossas escolas explicam a mecânica da coisa. Pra somar e subtrair, você "passa um pra lá", "tira um de lá" e pronto, está aí o resultado. Multiplicação é simples: basta decorar a tabuada e, para números maiores, adicionar a mecânica da adição. A divisão é também uma questão quase geográfica: coloque o divisor aqui, o dividendo ali, na "cadeirinha", puxe a tabuada da memória e vá seguindo até que se encontre o resultado e o "resto". Trigonometria é um exercício de decoreba de fórmulas e ângulos. Geometria é como se fosse um quebra-cabeça com algumas peças faltando: basta saber que a soma dos ângulos de um triângulo é 180 graus, ou o teorema de Pitágoras ou a fórmula do raio de uma circunferência para se resolver todo e qualquer problema.
Os problemas costumam ser de uma inutilidade total, mais na linha de "um círculo inscrito em um quadrado de lados..." do que "para colocar uma pizza em uma caixa quadrada...".
O problema é fundamentalmente filosófico, epistemológico: a maioria das pessoas entende a matemática como uma ferramenta que precisamos dominar para resolver alguns problemas do cotidiano. Mas a matemática não é isso.
A matemática é uma linguagem que descreve o mundo. Todo o mundo físico é traduzível em números, com acuidade muito maior do que a descrição feita por palavras. Além disso, a matemática é a árvore da qual brotam os frutos das ciências exatas: física, química, biologia, estatística, engenharia, medicina - nada disso seria possível sem a matemática.
Eu só fui descobrir isso quando já estava no mestrado.
De tudo que estudei na vida - e acabei estudando, na faculdade, história, ciência política, psicologia, sociologia, economia, geologia, marketing, administração, contabilidade, crítica literária, filosofia e outras que nem me lembro mais, não apenas por desejo e curiosidade próprias, mas porque o sistema americano impõe essa multidisciplinaridade - hoje vejo que a matéria mais importante é estatística. Achava a matéria um porre quando a cursei, no primeiro ano.
O que é natural, aliás: aos 18 anos, o cérebro humano está demasiadamente encharcado de hormônios para que os pensamentos possam nadar. Agora vejo que a estatística é a base de tudo, é o que possibilita a distinção entre a opinião e o fato, a aparência e a realidade (as "formas" platônicas).
Sem estatística não pode haver ciência exata nem ciência social. Cada vez mais entendemos que comportamentos que antes podiam ser debatidos apenas por filósofos, romancistas e poetas agora são explicáveis através da aplicação rigorosa de métodos estatísticos. É claro que a estatística não responde as perguntas fundamentais da existência - como viver a boa vida? - mas tampouco o faz a filosofia, com a agravante que uma filosofia desprovida de estatística é apenas um teatro para o duelo de visões antagônicas e insubstanciadas, com resultados potencialmente nocivos.
"Errar é humanas", disse um professor de história da arte da Unicamp que me acompanhava em um debate anos atrás, numa daquelas manifestações de auto-ironia que não têm sinceridade nenhuma. Não, errar não é humanas. Há muito acerto - e muito erro - naquilo que se produz nas humanas. O difícil, sem o auxílio da estatística, é separar o joio do trigo. Não é que errar seja humanas, é que a convicção do acerto só pode vir com a ajuda das exatas. Sem uma comprovação empírica, qualquer pensamento é apenas uma tese.
Os filósofos e historiadores que me lêem deve estar nauseados, mas mal sabem eles que esse axioma os cerca em todo lugar. Os remédios que eles tomam quando estão doentes só são aprovados ao passar por um processo estatístico que os separe de um placebo ineficaz. Todos os processos produtivos/industriais que geram os bens que consumimos são calibrados e controlados por ferramentas estatísticas de controle de qualidade. As peças dos carros que dirigimos são submetidas a testes estatísticos que asseguram sua confiabilidade. O computador no qual você lê esse artigo só existe por uma ferramenta estatística que determina a sua eficiência. A civilização moderna não é possível sem a estatística. E, ainda assim, está na moda praguejar contra números. Até professores renomados, como esse da Unicamp, podem falar bobagens como "os números são criações humanas e, como tal, têm uma intencionalidade" e se sentir bem, como se não estivessem cometendo um crime intelectual.
Essas idéias me vêm à mente quando vejo que filosofia e sociologia foram incluídas como matérias obrigatórias no currículo do ensino médio. Veja só: nosso sistema educacional é um fracasso tão retumbante que, na última medição em que o desempenho dos alunos foi dividido em níveis, o SAEB de 2003 apontou que 55% dos alunos da quarta série estavam em situação crítica ou muito crítica em leitura, o que quer dizer que eram praticamente analfabetos. A maioria dos alunos que faz a prova de Matemática no SAEB acha que "3/4" é 3,4, e não 0,75. Não entendem nem a notação de uma fração. Achar que esses professores, com essa qualidade, conseguirão ensinar filosofia e sociologia a esses alunos é o que os ingleses chamam de wishful thinking, um otimismo despropositado.
No primeiro semestre da faculdade, li um texto muito bom de Paulo Freire, em que ele dizia que era preciso read the word to read the world (ler a palavra para ler o mundo). Não sei se ele o escreveu em inglês ou se a tradução foi especialmente fortuita, mas o enunciado é verdadeiro: é impossível entender a complexidade do mundo se você não sabe ler. É impossível estudar filosofia se você não sabe ler. Essas aulas serão apenas uma maneira mais escancarada de se praticar o doutrinamento do marxismo rastaquera que impera em nossas escolas. Eu particularmente ficaria muito contente se os nossos alunos saíssem do ensino médio ignorantes de filosofia e sociologia, mas conseguindo ler um texto e entendendo-o, para que tomassem suas próprias conclusões filosóficas ao lerem seus próprios livros. E se fosse para incluir uma nova disciplina em nosso currículo, adoraria que fosse estatística.
A maioria dos alunos a detestaria e aprenderia muito pouco, mas talvez uma minoria conseguisse extrair daí o ferramental que lhe permitiria julgar, com a sua própria racionalidade, a veracidade das teorias com que são bombardeados na escola, nas ruas, na mídia. O que de melhor pode haver no processo educacional do que a capacidade de não apenas instigar a capacidade de questionamento dos alunos, mas também dar-lhes o instrumental que lhes permitirá solucionar esses próprios questionamentos sozinhos?
www.veja.com.br 30.06.08.
Gustavo Ioschpe
Eu só descobri que não entendia nada de matemática quando conversava com um colega russo, no mestrado, sobre o assunto. Aquilo que pra mim exigia um grande esforço mental, de montagem de equações e de tentativa de operações algébricas, para ele era visivelmente algo automático, instintivo, como a construção de uma frase em sua língua natal. Não sei exatamente como os russos ou os asiáticos ensinam a matemática, mas hoje entendo por que o nosso ensino é tão fraco. No Brasil, não se ensina matemática.
Se ensina a resolução de problemas matemáticos.
Nossas escolas explicam a mecânica da coisa. Pra somar e subtrair, você "passa um pra lá", "tira um de lá" e pronto, está aí o resultado. Multiplicação é simples: basta decorar a tabuada e, para números maiores, adicionar a mecânica da adição. A divisão é também uma questão quase geográfica: coloque o divisor aqui, o dividendo ali, na "cadeirinha", puxe a tabuada da memória e vá seguindo até que se encontre o resultado e o "resto". Trigonometria é um exercício de decoreba de fórmulas e ângulos. Geometria é como se fosse um quebra-cabeça com algumas peças faltando: basta saber que a soma dos ângulos de um triângulo é 180 graus, ou o teorema de Pitágoras ou a fórmula do raio de uma circunferência para se resolver todo e qualquer problema.
Os problemas costumam ser de uma inutilidade total, mais na linha de "um círculo inscrito em um quadrado de lados..." do que "para colocar uma pizza em uma caixa quadrada...".
O problema é fundamentalmente filosófico, epistemológico: a maioria das pessoas entende a matemática como uma ferramenta que precisamos dominar para resolver alguns problemas do cotidiano. Mas a matemática não é isso.
A matemática é uma linguagem que descreve o mundo. Todo o mundo físico é traduzível em números, com acuidade muito maior do que a descrição feita por palavras. Além disso, a matemática é a árvore da qual brotam os frutos das ciências exatas: física, química, biologia, estatística, engenharia, medicina - nada disso seria possível sem a matemática.
Eu só fui descobrir isso quando já estava no mestrado.
De tudo que estudei na vida - e acabei estudando, na faculdade, história, ciência política, psicologia, sociologia, economia, geologia, marketing, administração, contabilidade, crítica literária, filosofia e outras que nem me lembro mais, não apenas por desejo e curiosidade próprias, mas porque o sistema americano impõe essa multidisciplinaridade - hoje vejo que a matéria mais importante é estatística. Achava a matéria um porre quando a cursei, no primeiro ano.
O que é natural, aliás: aos 18 anos, o cérebro humano está demasiadamente encharcado de hormônios para que os pensamentos possam nadar. Agora vejo que a estatística é a base de tudo, é o que possibilita a distinção entre a opinião e o fato, a aparência e a realidade (as "formas" platônicas).
Sem estatística não pode haver ciência exata nem ciência social. Cada vez mais entendemos que comportamentos que antes podiam ser debatidos apenas por filósofos, romancistas e poetas agora são explicáveis através da aplicação rigorosa de métodos estatísticos. É claro que a estatística não responde as perguntas fundamentais da existência - como viver a boa vida? - mas tampouco o faz a filosofia, com a agravante que uma filosofia desprovida de estatística é apenas um teatro para o duelo de visões antagônicas e insubstanciadas, com resultados potencialmente nocivos.
"Errar é humanas", disse um professor de história da arte da Unicamp que me acompanhava em um debate anos atrás, numa daquelas manifestações de auto-ironia que não têm sinceridade nenhuma. Não, errar não é humanas. Há muito acerto - e muito erro - naquilo que se produz nas humanas. O difícil, sem o auxílio da estatística, é separar o joio do trigo. Não é que errar seja humanas, é que a convicção do acerto só pode vir com a ajuda das exatas. Sem uma comprovação empírica, qualquer pensamento é apenas uma tese.
Os filósofos e historiadores que me lêem deve estar nauseados, mas mal sabem eles que esse axioma os cerca em todo lugar. Os remédios que eles tomam quando estão doentes só são aprovados ao passar por um processo estatístico que os separe de um placebo ineficaz. Todos os processos produtivos/industriais que geram os bens que consumimos são calibrados e controlados por ferramentas estatísticas de controle de qualidade. As peças dos carros que dirigimos são submetidas a testes estatísticos que asseguram sua confiabilidade. O computador no qual você lê esse artigo só existe por uma ferramenta estatística que determina a sua eficiência. A civilização moderna não é possível sem a estatística. E, ainda assim, está na moda praguejar contra números. Até professores renomados, como esse da Unicamp, podem falar bobagens como "os números são criações humanas e, como tal, têm uma intencionalidade" e se sentir bem, como se não estivessem cometendo um crime intelectual.
Essas idéias me vêm à mente quando vejo que filosofia e sociologia foram incluídas como matérias obrigatórias no currículo do ensino médio. Veja só: nosso sistema educacional é um fracasso tão retumbante que, na última medição em que o desempenho dos alunos foi dividido em níveis, o SAEB de 2003 apontou que 55% dos alunos da quarta série estavam em situação crítica ou muito crítica em leitura, o que quer dizer que eram praticamente analfabetos. A maioria dos alunos que faz a prova de Matemática no SAEB acha que "3/4" é 3,4, e não 0,75. Não entendem nem a notação de uma fração. Achar que esses professores, com essa qualidade, conseguirão ensinar filosofia e sociologia a esses alunos é o que os ingleses chamam de wishful thinking, um otimismo despropositado.
No primeiro semestre da faculdade, li um texto muito bom de Paulo Freire, em que ele dizia que era preciso read the word to read the world (ler a palavra para ler o mundo). Não sei se ele o escreveu em inglês ou se a tradução foi especialmente fortuita, mas o enunciado é verdadeiro: é impossível entender a complexidade do mundo se você não sabe ler. É impossível estudar filosofia se você não sabe ler. Essas aulas serão apenas uma maneira mais escancarada de se praticar o doutrinamento do marxismo rastaquera que impera em nossas escolas. Eu particularmente ficaria muito contente se os nossos alunos saíssem do ensino médio ignorantes de filosofia e sociologia, mas conseguindo ler um texto e entendendo-o, para que tomassem suas próprias conclusões filosóficas ao lerem seus próprios livros. E se fosse para incluir uma nova disciplina em nosso currículo, adoraria que fosse estatística.
A maioria dos alunos a detestaria e aprenderia muito pouco, mas talvez uma minoria conseguisse extrair daí o ferramental que lhe permitiria julgar, com a sua própria racionalidade, a veracidade das teorias com que são bombardeados na escola, nas ruas, na mídia. O que de melhor pode haver no processo educacional do que a capacidade de não apenas instigar a capacidade de questionamento dos alunos, mas também dar-lhes o instrumental que lhes permitirá solucionar esses próprios questionamentos sozinhos?
www.veja.com.br 30.06.08.
quinta-feira, junho 19, 2008
RIOS QUE NUNCA SE ENCONTRAM
18 de Junho de 2008 Atualizado às 22:30h
Demétrio Magnoli
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A Câmara dos Deputados prepara-se para votar o PL 73/99, projeto de lei que institui cotas para alunos de escolas públicas e subcotas raciais nas universidades federais e nas escolas técnicas federais. Ele se apresenta como iniciativa de inclusão social, mas nada tem que ver com isso. Se quisessem promover inclusão, dobrariam as vagas nas universidades públicas, algo relativamente barato, e se limitariam a introduzir cotas para alunos de escolas públicas, como compensação provisória da calamidade que é o ensino médio oficial. O PL de cotas raciais existe para dinamitar o mito de origem do qual emana a identidade brasileira.
A nação é uma "comunidade imaginada", na expressão de Benedict Anderson. O Estado-nação surgiu na escola, com a expansão e universalização da educação pública, e se refaz o tempo todo por meio de uma narrativa de unidade difundida nas salas de aula. Língua e Literatura configuram a nação na esfera da cultura. A História inscreve a nação no tempo; a Geografia a imprime no espaço. O nosso mito de origem nasceu no Império, com o naturalista Carl Von Martius, que descreveu o Brasil como a junção de três rios: as culturas indígena, européia e africana. Ele se consolidou na República, com Gilberto Freyre, que disse que essas águas se misturaram no grande rio da nação mestiça. O PL de cotas raciais tem a função exclusiva de substituir essa narrativa por uma outra.
Nas escolas públicas, estudantes de todas as cores, oriundos de famílias da classe trabalhadora, aprendem que, como cidadãos brasileiros, têm direitos iguais. A lei das cotas veiculará a mensagem de que isso não é mais verdade. Ela separará as turmas de alunos em dois grupos, dividindo-os pela fronteira da raça. De um lado, ficarão os alunos rotulados como "brancos"; do outro, os alunos carimbados como "negros". Dos primeiros será cobrada uma "dívida histórica" contraída pelos proprietários de escravos. Aos segundos, que desempenharão o papel fraudulento de descendentes de escravos, será oferecida a renda proveniente daquela cobrança. Colegas de classe e de folguedos, que vivem nas mesmas ruas, às vezes nas mesmas casas, e cursaram juntos a mesma escola, serão julgados não pelo desempenho no mesmo exame, mas pela cor da sua pele. O PL de cotas raciais narra um mito perverso de três rios que correm paralelos, sem nunca se encontrarem.
A troca do mito do encontro pelo do desencontro é uma operação conduzida por um Estado ideológico, engajado na falsificação da identidade nacional. O Ipea divulgou a "informação" de que a "população negra" superará este ano a "população branca". Os dirigentes do órgão público agem, à revelia da lei, como militantes de sua causa. A verdade é que continua a aumentar a parcela dos que se classificam como "pardos", enquanto se reduzem as parcelas que se classificam como "brancos" e como "pretos". Nas pesquisas, os brasileiros dizem que são mestiços e rejeitam a polaridade das raças. Na mídia, os órgãos oficiais seqüestram a palavra dos cidadãos e propagam uma versão mentirosa que significa exatamente o oposto. Eles apagam os mestiços das estatísticas, erguendo diques nos rios de Martius para impedir a confluência de suas águas.
A fotografia de uma turma das escolas públicas brasileiras revela a presença dominante de um gradiente de tons de pele intermediários entre o "branco" e o "preto". Na sua imensa maioria, os meninos e as meninas das nossas escolas públicas corporificam as complexas mestiçagens que fabricaram uma nação nova, num mundo apartado da "tradição do sangue" vigente tanto na Europa quanto na África. Onde exatamente será traçada a fronteira racial exigida pelo PL de cotas? Pelo alto, universidades engajadas na operação de divisão racial do Brasil fotografam e entrevistam os candidatos, atribuindo-lhes rótulos raciais irrecorríveis. Por baixo, de acordo com norma do MEC em vigor há três anos, as fichas de matrícula no ensino básico associam cada aluno a uma "raça". O Estado brasileiro, cercado por uma rede de ONGs racialistas, não pretende deixar nenhum jovem sem um carimbo de "raça".
A engenharia social racialista que formulou o PL de cotas é um elo do programa internacional do multiculturalismo. A sua fonte original se encontra na Fundação Ford, que financia as redes de ONGs empenhadas na fabricação de etnias e raças. O seu motor ideológico se encontra na academia, entre intelectuais dedicados a escrever narrativas identitárias baseadas na "tradição do sangue". As teses desses intelectuais não são motivadas pelo propósito de investigar o passado, mas pelo imperativo de legitimar um programa de ação política. A manipulação, a distorção e a fraude são suas ferramentas cotidianas de trabalho. A certeza de uma carreira de sucesso e a expectativa da conquista de posições de prestígio e influência são as compensações oferecidas por seus financiadores. Hoje, amparada por um Estado que brinca com a coesão nacional, essa fábrica de ideologias escreve uma história racial do Brasil.
Mitos não são verdades nem mentiras. Eles contam o que imaginamos que somos e apontam na direção daquilo que queremos ser. O nosso mito de origem não impede que se reconheçam as violências históricas perpetradas contra indígenas e escravos. Mas ele nos iguala como cidadãos, erguendo uma plataforma que nos impele a exigir direitos sociais e econômicos para todos.
Quando se iniciar a sessão de votação do PL de cotas, as galerias da Câmara estarão ocupadas por ativistas das ONGs racialistas, muitos deles funcionários públicos em cargos de confiança. A minoria organizada encarnará a representação imaginária de uma "raça" e se apresentará como procuradora dos antigos escravos. Se a farsa intimidatória funcionar, uma narrativa de ressentimento e rancor começará a invadir as salas de aula, envenenando o futuro. Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. E-mail: demetrio.magnoli@terra.com.br
Demétrio Magnoli
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A Câmara dos Deputados prepara-se para votar o PL 73/99, projeto de lei que institui cotas para alunos de escolas públicas e subcotas raciais nas universidades federais e nas escolas técnicas federais. Ele se apresenta como iniciativa de inclusão social, mas nada tem que ver com isso. Se quisessem promover inclusão, dobrariam as vagas nas universidades públicas, algo relativamente barato, e se limitariam a introduzir cotas para alunos de escolas públicas, como compensação provisória da calamidade que é o ensino médio oficial. O PL de cotas raciais existe para dinamitar o mito de origem do qual emana a identidade brasileira.
A nação é uma "comunidade imaginada", na expressão de Benedict Anderson. O Estado-nação surgiu na escola, com a expansão e universalização da educação pública, e se refaz o tempo todo por meio de uma narrativa de unidade difundida nas salas de aula. Língua e Literatura configuram a nação na esfera da cultura. A História inscreve a nação no tempo; a Geografia a imprime no espaço. O nosso mito de origem nasceu no Império, com o naturalista Carl Von Martius, que descreveu o Brasil como a junção de três rios: as culturas indígena, européia e africana. Ele se consolidou na República, com Gilberto Freyre, que disse que essas águas se misturaram no grande rio da nação mestiça. O PL de cotas raciais tem a função exclusiva de substituir essa narrativa por uma outra.
Nas escolas públicas, estudantes de todas as cores, oriundos de famílias da classe trabalhadora, aprendem que, como cidadãos brasileiros, têm direitos iguais. A lei das cotas veiculará a mensagem de que isso não é mais verdade. Ela separará as turmas de alunos em dois grupos, dividindo-os pela fronteira da raça. De um lado, ficarão os alunos rotulados como "brancos"; do outro, os alunos carimbados como "negros". Dos primeiros será cobrada uma "dívida histórica" contraída pelos proprietários de escravos. Aos segundos, que desempenharão o papel fraudulento de descendentes de escravos, será oferecida a renda proveniente daquela cobrança. Colegas de classe e de folguedos, que vivem nas mesmas ruas, às vezes nas mesmas casas, e cursaram juntos a mesma escola, serão julgados não pelo desempenho no mesmo exame, mas pela cor da sua pele. O PL de cotas raciais narra um mito perverso de três rios que correm paralelos, sem nunca se encontrarem.
A troca do mito do encontro pelo do desencontro é uma operação conduzida por um Estado ideológico, engajado na falsificação da identidade nacional. O Ipea divulgou a "informação" de que a "população negra" superará este ano a "população branca". Os dirigentes do órgão público agem, à revelia da lei, como militantes de sua causa. A verdade é que continua a aumentar a parcela dos que se classificam como "pardos", enquanto se reduzem as parcelas que se classificam como "brancos" e como "pretos". Nas pesquisas, os brasileiros dizem que são mestiços e rejeitam a polaridade das raças. Na mídia, os órgãos oficiais seqüestram a palavra dos cidadãos e propagam uma versão mentirosa que significa exatamente o oposto. Eles apagam os mestiços das estatísticas, erguendo diques nos rios de Martius para impedir a confluência de suas águas.
A fotografia de uma turma das escolas públicas brasileiras revela a presença dominante de um gradiente de tons de pele intermediários entre o "branco" e o "preto". Na sua imensa maioria, os meninos e as meninas das nossas escolas públicas corporificam as complexas mestiçagens que fabricaram uma nação nova, num mundo apartado da "tradição do sangue" vigente tanto na Europa quanto na África. Onde exatamente será traçada a fronteira racial exigida pelo PL de cotas? Pelo alto, universidades engajadas na operação de divisão racial do Brasil fotografam e entrevistam os candidatos, atribuindo-lhes rótulos raciais irrecorríveis. Por baixo, de acordo com norma do MEC em vigor há três anos, as fichas de matrícula no ensino básico associam cada aluno a uma "raça". O Estado brasileiro, cercado por uma rede de ONGs racialistas, não pretende deixar nenhum jovem sem um carimbo de "raça".
A engenharia social racialista que formulou o PL de cotas é um elo do programa internacional do multiculturalismo. A sua fonte original se encontra na Fundação Ford, que financia as redes de ONGs empenhadas na fabricação de etnias e raças. O seu motor ideológico se encontra na academia, entre intelectuais dedicados a escrever narrativas identitárias baseadas na "tradição do sangue". As teses desses intelectuais não são motivadas pelo propósito de investigar o passado, mas pelo imperativo de legitimar um programa de ação política. A manipulação, a distorção e a fraude são suas ferramentas cotidianas de trabalho. A certeza de uma carreira de sucesso e a expectativa da conquista de posições de prestígio e influência são as compensações oferecidas por seus financiadores. Hoje, amparada por um Estado que brinca com a coesão nacional, essa fábrica de ideologias escreve uma história racial do Brasil.
Mitos não são verdades nem mentiras. Eles contam o que imaginamos que somos e apontam na direção daquilo que queremos ser. O nosso mito de origem não impede que se reconheçam as violências históricas perpetradas contra indígenas e escravos. Mas ele nos iguala como cidadãos, erguendo uma plataforma que nos impele a exigir direitos sociais e econômicos para todos.
Quando se iniciar a sessão de votação do PL de cotas, as galerias da Câmara estarão ocupadas por ativistas das ONGs racialistas, muitos deles funcionários públicos em cargos de confiança. A minoria organizada encarnará a representação imaginária de uma "raça" e se apresentará como procuradora dos antigos escravos. Se a farsa intimidatória funcionar, uma narrativa de ressentimento e rancor começará a invadir as salas de aula, envenenando o futuro. Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. E-mail: demetrio.magnoli@terra.com.br
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